O tema deste
estudo é a aprendizagem móvel (mobile learning), entendida como conjunto de processos
para chegar ao conhecimento mediante a conversação em múltiplos
contextos entre pessoas e tecnologias interactivas pessoais (vide I.2 Do peripatetismo à ideia de mobile learning e Apêndice 6: Definições de aprendizagem móvel). É objectivo geral operar uma avaliação
predominantemente qualitativa das mudanças introduzidas no processo de
ensino-aprendizagem pelo acréscimo de mobilidade e consequentes alterações na concepção
social espácio-temporal, fundado na ideia de
que, ao inverso da imprensa ou da televisão conforme perspectivadas por McLuhan ou Innis, não há hoje um Media civilizacionalmente
“revolucionário”, nem mesmo a Internet strictu sensu; antes a “novidade”
de uma mudança de paradigma pela convergência dos diversos Meios no seio dos sistemas
interactivos de comunicação em que se a digitalização é o denominador
comum, a conectividade, a globalização e a passagem dos consumidores a
produtores de informação são os verdadeiros agentes de mudança (Gustavo Cardoso, 2006) (M. Castells, Fernández-Ardèvol, M.,
Linchuan Qiu, J. & Sey, A., 2007) e os “fluxos” (Castells, 2002) uma forma espacial característica das
práticas sociais que dominam e moldam a sociedade em rede (F. H. Cardoso, 2007).
Como referencial
do nosso trabalho propomos pois buscar resposta para a questão: “Concretamente
do que é que se fala quando se fala em mobile learning?” E derivadamente derramar luz sobre a dúvida: “Em que medida o incremento da mobilidade pela generalização das tecnologias da
comunicação, mormente sem fios, pode aproveitar ao processo de
ensino-aprendizagem?”
Adoptando uma
noção de “compreensão” como mapeamento e avaliação dos limites de um campo de
estudo, definimos como nossos objectivos específicos: a) identificar, inventariar, resumir e classificar a principal
literatura associada ao campo de estudo mobile learning, contextualizando-a dentro do campo teórico das Ciências
Sociais em geral e das Ciências da Educação, em particular (cap. I); b) descrever
as aplicações dos principais dispositivos e tecnologias da informação e comunicação móveis bem como os propósitos pedagógicos
que podem servir (cap. II); c) examinar criticamente as suas possibilidades,
categorizando e sistematizando modelos e propostas, mormente para o desenho de instrução de material pedagógico adaptado (cap. III)¸ d)
analisar a emergência da "mobilidade" como desiderato da generalização das tecnologias de
comunicação sem fios bem como explicar o seu impacto global no processo do
Ensino-Aprendizagem (tarefa predominantemente relegada para os apêndices de
desenvolvimento).
Assumimos assim o nosso “projecto”
à imagem da planta que se traça para a edificação de uma casa (a casa onde o novel
campo do mobile learning há-de habitar), como plano gráfico e descritivo, desde os
alicerces sob os quais assenta (cap. I); à distribuição de espaço entre as diversas divisões em função do que possam
albergar (cap. II), às técnicas e materiais mais adequados para as por de pé (cap. III).
Como todos os edifícios, o do m-Learning não surge no entanto isolado;
coexiste num ambiente profundamente urbano e cosmopolita – o da “sociedade em
rede” e da conexão permanente – pelo que o rigor manda que no intuito de uma
traça fluidamente inserida o arquitecto cauteloso indague da vizinhança e dela
faça um levantamento prévio, cujo resultado se anexa em apêndices.
A massificação
das tecnologias da informação e da comunicação tem merecido grande publicidade pelas
possibilidades que abre através da integração na aprendizagem seja formal seja sobretudo,
defendemos, informal, permanente e auto-regulada, merecendo a componente
tecnológica atenção crescente por parte das ciências sociais e humanas, na
medida do esbatimento da tradicional dicotomia entre estas e as ditas “exactas” (Correia & Tomé, 2007, p. 62) face às novas modalidades de aprendizagem
conversacional, interactiva, ubíqua e multimodal e de
escrita multimediática que rompem com a tradicional forma escrita do livro como
cristalizador de saberes e impositor de fronteiras lexicais entre campos do
saber (Nyíri, 2002).
Permanece, não
obstante, aberta a discussão sobre os limites e a captura da real essência do mobile
learning, dentro do debate mais alargado da
emergência do e-Learning no ensino à distância, pela própria diversidade de projectos e
abordagens, quase sempre parcelares, que dificultam a apreensão dos seus
limites úteis e a demonstração cabal e compreensiva da forma como pode
contribuir para a teoria e prática educativas (M. Sharples, Milrad, Arnedillo Sánchez,
& Vavoula, 2008).
A supervalorização
da componente telemática; certa confusão entre o discurso promotor do wireless,
nas suas múltiplas vertentes comerciais (UMTS, Wi-Fi, Bluetooth,
Wi-Max…), tanto como dos media digitais (com a miniaturização e sistemática
convergência de tecnologias e capacidades), faz com
que se incorra frequentemente no equívoco de confundir o instrumento e o meio
com os fins, acantonando-se simplisticamente o debate do m-Learning em
volta da aprendizagem com dispositivos móveis e da ideia de que a sua simples
disponibilização gerará um dia, eventual e fatalmente frutos; sem prestar a
devida atenção nem situar o conceito e o campo de estudo, ao invés, na própria
noção de “mobilidade” - a um tempo no espaço físico, pela miniaturização tecnológica,
no espaço conceptual, no espaço social e “mobilidade” na flexibilidade da
aprendizagem ao longo do tempo (M. Sharples, Taylor, J., Vavoula, G.,
2007).
Num instante em que crê em e propõe a tecnologia como motor da mudança social, inclusive na educação (leia-se o Plano Tecnológico do
actual governo), importa recuperar e reavaliar o debate sobre as relações entre
tecnologia e ideologia, na certeza da irredutibilidade da segunda à primeira e
da necessidade de um prudente distanciamento da fé nos seus mecanicismo e
determinismo; sendo certo que o desenvolvimento é
sempre marcado pelo contexto social e cultural e que os efeitos só
ocorrem quando as invenções são adoptadas, desenvolvidas e aplicadas,
geralmente para usos já existentes em primeira instância (McQuail, 2003, pp. 89-90).
Assim, a metodologia a adoptar consistirá assim num panorama e revisão críticos
da literatura internacional sobre o tema mobile learning. Serão fontes de análise os artigos e publicações da
especialidade bem como os dados estatísticos recolhidos por entidades públicas
e privadas credíveis a par, necessariamente, em plena lógica da Web social, da produção académica informal, plasmada em blogs e fóruns de discussão bem como as notícias em órgãos generalistas relativas às
tendências e usos da tecnologia.
Na manifesta dificuldade em circunscrever de forma
suficientemente operativa o objecto das “Ciências da Educação”, e não desejando
mergulhar na discussão que nos transcende da forma plural destas, preferiremos
falar do debate da “mobilidade” no contexto “educativo”, na acepção abrangente do desenvolvimento humano em cujo seio naturalmente recaem as
preocupações de múltiplas disciplinas, seja dentro do sistema de Ensino seja à
sua margem; institucional ou individualmente.
Conforme notado por Lalueza et al..(Coll & Monereo, 2008, p. 54 e seg.s), a assumpção construtivista social do desenvolvimento como participação dinâmica nas actividades socioculturais da comunidade implica que as ferramentas culturais desenvolvidas num dado momento histórico surjam estreitamente ligadas à própria definição de inteligência; às qualidades valorizadas pelo grupo e em
conformidade constituídas em linhas de orientação do desenvolvimento cognitivo,
emocional e social dos sujeitos. É por isso que para além das affordances da tecnologia A ou B, é importante considerar globalmente as Novas Tecnologias em Educação Social (García, 2008), na certeza de que as primeiras continuam a servir a segunda e de que a utilidade que se lhes procura é antes de mais a passibilidade de servir a integração social.
A dotação de movimento (mobilidade) de pessoas, dispositivos e serviços susceptíveis de aumentar os níveis de desenvolvimento humano correntemente experimentada pelas TIC ecoa assim não acidentalmente os valores da
mobilidade socioprofissional que o Deus da Utilidade Económica, na acepção de
Postman (ver Apêndice 16: Da comunicação ao conhecimento. Considerações sobre determinismo tecnológico e consumo), acompanhado pela globalização dos mercados e pela deslocação de serviços e mercadorias valoriza.