tecnologia

Apêndice 11: Estudo de caso: Siquant Mobile Trails

Com a inclusão de alguns estudos de caso pretendemos apresentar, na prática, uma selecção de ferramentas a cujos critérios presidiu uma quadrupla preocupação:

  • O facto de permitirem retirar partido do contexto e incluírem funcionalidades de geolocalização (todas elas);
  • A sua disponibilidade gratuita e imediata; sendo portanto ferramentas que qualquer interessado pode descarregar a partir da Internet e começar a usar (caso do MLE e do Wherigo);
  • A colação à realidade portuguesa (caso do Siquant, única aplicação desenvolvida nacionalmente);
  • O carácter pioneiro e a integração paradigmática de múltiplas tecnologias num único dispositivo para produzir uma experiência de “realidade aumentada” (MySKY Plus).

O “Siquant Mobile Trails” é um produto lançado em finais de 2008 pela empresa com o mesmo nome[95], sedeada em Lisboa, na imediação do Instituto Superior Técnico, de que emana e do qual o seu director, Alberto Rodrigues da Silva, é professor.

Trata-se de uma solução em duas camadas: um cliente para Pocket PC que permite aceder aos conteúdos no terreno e um editor baseado em ambiente Web que permite configurá-los e geri-los.

Foi desenvolvida para fornecer ao visitante/turista um conjunto de informação que o pretende sensibilizar para os valores ambientais e ao mesmo tempo educar quanto à fauna e flora enquanto fornece ajuda empírica concreta no terreno para a navegação e planificação do percurso – no caso, nos trilhos do Parque Nacional da Peneda Gerês[96].

Do ponto de vista do potencial para a “aprendizagem móvel” é uma aplicação limitada, centrada em fornecer o “acesso” aos conteúdos, a que faltam possibilidades que muito poderiam enriquecer a experiência do utilizador, levando-o a um maior envolvimento social e emocional. Na nossa perspectiva designadamente, seriam de incorporar as seguintes:

·         Declaração de estado de presença. O entrosamento com a rede GSM (e ou a implementação de uma rede Wi-Max no terreno, na previsão da debilidade da cobertura da primeira) poderia levar os visitantes a declarar a sua presença in loco, surgindo a informação sobre todos os a percorrer correntemente o trilho num mapa; potenciando o diálogo entre eles e mesmo encontros e trocas de opinião.

·         Expressão. Mormente através do diálogo com a incorporação de uso opcional de um cliente de messaging, que, em grandes grupos, poderia ter ainda uma função administrativa e de coordenação.

·         Criação. Poderia ser dada aos visitantes a possibilidade de “capturarem o instante”, seja através de máquinas fotográficas integradas no dispositivo seja de redacção de notas e ou “clipes de voz” que – tal etiquetas – ficariam associados a dados waypoints pelo caminho (poderiam sê-lo em resposta a dados reptos lançados como exercício ou jogo), disponíveis para os visitantes seguintes.

·         Agregação. No separador já existente “Informações Úteis” era fácil incorporar informação actualizada em tempo real, das quais a mais evidente é o “estado do tempo” via RSS a partir do Instituto de Meteorologia e ou de sítios como o Weather Underground ou mesmo de uma estação meteorológica local, sita por hipótese na sede do parque (aplicações com o Weather Display[97] associados a estações informatizadas, com preços tão acessíveis como 200 euros, como é o caso da Oregon WMR100 – permitem publicar com facilidade este tipo de informação).

Em suma, na sistematização de Patten (vide Apêndice 8: Aplicações educativas dos dispositivos móveis) estamos perante uma aplicação que mescla uma orientação dominante para o “Reconhecimento da Localização”, com funções de “Referência” (disponibilização de um “Guia da Natureza” na forma de fichas descritivas) que poderia beneficiar grandemente de uma evolução no sentido de incorporar a “Recolha de Dados” tendo em vista uma construção do conhecimento e uma acção sobre o ambiente que levasse o utilizador além da exposição e da exploração pela mera “observação” a trabalhar os domínios da elaboração, da reflexão e da experimentação activa (veja-se Ilustração 5 - Modelo-guia para o desenho da aprendizagem móvel).

Provavelmente por questão de formação, os desenvolvedores focaram-se nitidamente em garantir a qualidade da usabilidade (intersecção do Dispositivo com o Aprendente, eixo DA – vide - Desenvolvimento do Modelo FRAME interpolado com a teoria da actividade) - descurando quase totalmente a dimensão social e a necessidade da exploração tanto da tecnologia social (DS) como da aprendizagem pela interacção (SA). O resultado é uma solução certamente útil no imediato mas com impactos na memória e no comportamento do utilizador a médio e longo prazo provavelmente reduzidos - nesta medida uma forma de tornar a aprendizagem mais intensa poderia passar pela disponibilização, para consulta subsequente em ambiente WWW, e já em casa, do sugerido no tópico supra “Criação”. Com ou sem login personalizado os utilizadores poderiam ter acesso às actualizações futuras e aos comentários sobre os seus comentários bem como o resultado dos jogos; o que também poderia funcionar como demonstração e estimulo à adopção, com inclusão no portal do parque.

 


[95] Em linha: http:// www.siquant.pt

[96] Para esse efeito, a parte dos conteúdos relativa à navegação está disponível em linha nos seguintes endereços: http://www.adere-pg.pt/trilhos/ (inclui ficheiros em formato GPX para descarga) e http://www.webcomfort.org/percursos. Um vídeo promocional, descrevendo as várias etapas de uso pode ser visto no endereço: http://video.filestube.com/video,879e0b54471e56d703ea.html (7 min. de duração).

INTRODUÇÃO

O tema deste estudo é a aprendizagem móvel (mobile learning), entendida como conjunto de processos para chegar ao conhecimento mediante a conversação em múltiplos contextos entre pessoas e tecnologias interactivas pessoais (vide I.2 Do peripatetismo à ideia de mobile learning e Apêndice 6: Definições de aprendizagem móvel). É objectivo geral operar uma avaliação predominantemente qualitativa das mudanças introduzidas no processo de ensino-aprendizagem pelo acréscimo de mobilidade e consequentes alterações na concepção social espácio-temporal, fundado na ideia de que, ao inverso da imprensa ou da televisão conforme perspectivadas por McLuhan ou Innis, não há hoje um Media civilizacionalmente “revolucionário”, nem mesmo a Internet strictu sensu; antes a “novidade” de uma mudança de paradigma pela convergência dos diversos Meios no seio dos sistemas interactivos de comunicação em que se a digitalização é o denominador comum, a conectividade, a globalização e a passagem dos consumidores a produtores de informação são os verdadeiros agentes de mudança (Gustavo Cardoso, 2006) (M. Castells, Fernández-Ardèvol, M., Linchuan Qiu, J. & Sey, A., 2007) e os “fluxos” (Castells, 2002) uma forma espacial característica das práticas sociais que dominam e moldam a sociedade em rede (F. H. Cardoso, 2007).

Como referencial do nosso trabalho propomos pois buscar resposta para a questão:Concretamente do que é que se fala quando se fala em mobile learning?” E derivadamente derramar luz sobre a dúvida: “Em que medida o incremento da mobilidade pela generalização das tecnologias da comunicação, mormente sem fios, pode aproveitar ao processo de ensino-aprendizagem?”

Adoptando uma noção de “compreensão” como mapeamento e avaliação dos limites de um campo de estudo, definimos como nossos objectivos específicos: a) identificar, inventariar, resumir e classificar a principal literatura associada ao campo de estudo mobile learning, contextualizando-a dentro do campo teórico das Ciências Sociais em geral e das Ciências da Educação, em particular (cap. I); b) descrever as aplicações dos principais dispositivos e tecnologias da informação e comunicação móveis bem como os propósitos pedagógicos que podem servir (cap. II); c) examinar criticamente as suas possibilidades, categorizando e sistematizando modelos e propostas, mormente para o desenho de instrução de material pedagógico adaptado (cap. III)¸ d) analisar a emergência da "mobilidade" como desiderato da generalização das tecnologias de comunicação sem fios bem como explicar o seu impacto global no processo do Ensino-Aprendizagem (tarefa predominantemente relegada para os apêndices de desenvolvimento).

Assumimos assim o nosso “projecto” à imagem da planta que se traça para a edificação de uma casa (a casa onde o novel campo do mobile learning há-de habitar), como plano gráfico e descritivo, desde os alicerces sob os quais assenta (cap. I); à distribuição de espaço entre as diversas divisões em função do que possam albergar (cap. II), às técnicas e materiais mais adequados para as por de pé (cap. III). Como todos os edifícios, o do m-Learning não surge no entanto isolado; coexiste num ambiente profundamente urbano e cosmopolita – o da “sociedade em rede” e da conexão permanente – pelo que o rigor manda que no intuito de uma traça fluidamente inserida o arquitecto cauteloso indague da vizinhança e dela faça um levantamento prévio, cujo resultado se anexa em apêndices.

A massificação das tecnologias da informação e da comunicação tem merecido grande publicidade pelas possibilidades que abre através da integração na aprendizagem seja formal seja sobretudo, defendemos, informal, permanente e auto-regulada, merecendo a componente tecnológica atenção crescente por parte das ciências sociais e humanas, na medida do esbatimento da tradicional dicotomia entre estas e as ditas “exactas” (Correia & Tomé, 2007, p. 62) face às novas modalidades de aprendizagem conversacional, interactiva, ubíqua e multimodal e de escrita multimediática que rompem com a tradicional forma escrita do livro como cristalizador de saberes e impositor de fronteiras lexicais entre campos do saber (Nyíri, 2002).

Permanece, não obstante, aberta a discussão sobre os limites e a captura da real essência do mobile learning, dentro do debate mais alargado da emergência do e-Learning no ensino à distância, pela própria diversidade de projectos e abordagens, quase sempre parcelares, que dificultam a apreensão dos seus limites úteis e a demonstração cabal e compreensiva da forma como pode contribuir para a teoria e prática educativas (M. Sharples, Milrad, Arnedillo Sánchez, & Vavoula, 2008).

A supervalorização da componente telemática; certa confusão entre o discurso promotor do wireless, nas suas múltiplas vertentes comerciais (UMTS, Wi-Fi, Bluetooth, Wi-Max…), tanto como dos media digitais (com a miniaturização e sistemática convergência de tecnologias e capacidades), faz com que se incorra frequentemente no equívoco de confundir o instrumento e o meio com os fins, acantonando-se simplisticamente o debate do m-Learning em volta da aprendizagem com dispositivos móveis e da ideia de que a sua simples disponibilização gerará um dia, eventual e fatalmente frutos; sem prestar a devida atenção nem situar o conceito e o campo de estudo, ao invés, na própria noção de “mobilidade” - a um tempo no espaço físico, pela miniaturização tecnológica, no espaço conceptual, no espaço social e “mobilidade” na flexibilidade da aprendizagem ao longo do tempo (M. Sharples, Taylor, J., Vavoula, G., 2007).

Num instante em que crê em e propõe a tecnologia como motor da mudança social, inclusive na educação (leia-se o Plano Tecnológico do actual governo), importa recuperar e reavaliar o debate sobre as relações entre tecnologia e ideologia, na certeza da irredutibilidade da segunda à primeira e da necessidade de um prudente distanciamento da fé nos seus mecanicismo e determinismo; sendo certo que o desenvolvimento é sempre marcado pelo contexto social e cultural e que os efeitos só ocorrem quando as invenções são adoptadas, desenvolvidas e aplicadas, geralmente para usos já existentes em primeira instância (McQuail, 2003, pp. 89-90).

Assim, a metodologia a adoptar consistirá assim num panorama e revisão críticos da literatura internacional sobre o tema mobile learning. Serão fontes de análise os artigos e publicações da especialidade bem como os dados estatísticos recolhidos por entidades públicas e privadas credíveis a par, necessariamente, em plena lógica da Web social, da produção académica informal, plasmada em blogs e fóruns de discussão bem como as notícias em órgãos generalistas relativas às tendências e usos da tecnologia.

Na manifesta dificuldade em circunscrever de forma suficientemente operativa o objecto das “Ciências da Educação”, e não desejando mergulhar na discussão que nos transcende da forma plural destas, preferiremos falar do debate da “mobilidade” no contexto “educativo”, na acepção abrangente do desenvolvimento humano em cujo seio naturalmente recaem as preocupações de múltiplas disciplinas, seja dentro do sistema de Ensino seja à sua margem; institucional ou individualmente.

Conforme notado por Lalueza et al..(Coll & Monereo, 2008, p. 54 e seg.s), a assumpção construtivista social do desenvolvimento como participação dinâmica nas actividades socioculturais da comunidade implica que as ferramentas culturais desenvolvidas num dado momento histórico surjam estreitamente ligadas à própria definição de inteligência; às qualidades valorizadas pelo grupo e em conformidade constituídas em linhas de orientação do desenvolvimento cognitivo, emocional e social dos sujeitos. É por isso que para além das affordances da tecnologia A ou B, é importante considerar globalmente as Novas Tecnologias em Educação Social (García, 2008), na certeza de que as primeiras continuam a servir a segunda e de que a utilidade que se lhes procura é antes de mais a passibilidade de servir a integração social.

A dotação de movimento (mobilidade) de pessoas, dispositivos e serviços susceptíveis de aumentar os níveis de desenvolvimento humano correntemente experimentada pelas TIC ecoa assim não acidentalmente os valores da mobilidade socioprofissional que o Deus da Utilidade Económica, na acepção de Postman (ver Apêndice 16: Da comunicação ao conhecimento. Considerações sobre determinismo tecnológico e consumo), acompanhado pela globalização dos mercados e pela deslocação de serviços e mercadorias valoriza.