A elaboração de um trabalho panorâmico é tarefa
reconhecidamente arriscada; no entanto a contemporaneidade – circunscrita num
tempo que, segundo pudemos identificar, não conta mais de sete anos de extensão - de um tema como a aprendizagem móvel, em que as fontes escasseiam e em que ainda se admite a veleidade de
um laivo de completude na compilação de quatro centenas de referências,
consoante apresentado, acaba naturalmente por vir a adquirir uma dinâmica monográfica
não nos parecendo, portanto, demasiado ambiciosa a opção pelo pendor teórico e
pelos método qualitativo e bibliográfico os quais constatámos fazem tanto mais
sentido quanto, na área, todas as aplicações “quantitativas” se têm em regra restringido
a universos exploratórios e inexpressivos que não admitem extrapolação e
normalmente surgem limitados pela adesão seja às perspectivas disciplinares
muito estritas de quem os promove, seja a aplicações tipo fuga para a frente,
como é o caso dos esforços de integração curricular a nível do ensino
secundário, que desvirtuam e limitam a compreensão do pleno potencial das
tecnologias móveis. Julgamos nesta medida, no decurso da nossa investigação,
ter operado uma clarificação conceptual útil e capaz de constituir uma boa base
de partida para aplicações futuras; desde logo para nós próprios que assumimos
como desígnio pessoal a articulação das ideias.
Assumimos o nosso “projecto”, por analogia, como trabalho de
reconhecimento de um condomínio novo de que se conhece a buzzword dos
promotores (mobile learning como “Quinta dos Flores”) insistentemente repetida mas de que se ignoram as exactas condições de habitabilidade,
a vizinhança e as correlações. No termo da jornada urge comparar os objectivos
propostos com os resultados atingidos. Tendo partido com uma noção exploratória
e bastante redutora, lográmos assim contextualizar correlacionando a temática da
aprendizagem móvel com preocupações anteriores e mais perenes, de que
identificámos concretamente a preocupação com a educação permanente, acentuado nas décadas de sessenta e setenta do século passado, o debate da condição dita pós-moderna do Conhecimento e a problemática subjacente da emancipação do indivíduo
tanto na defesa da autarcia no acesso ao Saber, consoante a convivialidade de Illich, como através de uma metodologia assente na crítica, consoante por ex. o construtivismo de Jonassen.
Traçada a génese concreta do campo de estudo mobile
learning conseguimos identificar e mapear no espaço alguns dos seus protagonistas, tanto individuais como institucionais; vimos como ele se insere nas teorias pedagógicas afluentes, mormente relativas à aprendizagem social e pela prática, ao mesmo tempo que implica ideias novas – tais o conectivismo, cuja ênfase na importância no estabelecimento de redes de aprendizagem pessoal se conjuga com a tendência emergente das comunidades de prática – próprios da forma de organização da
“sociedade em rede”. Estabelecemos ainda uma linha de continuidade didáctica na demonstração em como as taxinomias e metodologias aplicáveis ao e-Learning já existentes se podem estender de forma a incorporar as affordances das novas tecnologias. Finalmente, notámos a coincidência dos sistemas interactivos de comunicação com a emergência do conceito de ambiente pessoal de aprendizagem, como construção capaz de concretizar
as propostas da Andragogia.
Os rumos futuros do mobile learning passam assim a nosso ver pelo aprofundamento da forma como ele é colocado ao serviço da aprendizagem informal e personalizada e pela assumpção activa da promoção das competências necessárias para a sua construção face à condição digital, em que a interoperabilidade e a permanente conectividade potencialmente se conjugam mas das quais não se pode tirar proveito imediato sem esforço para as gerações presentes, nem mesmo a longo termo se devem tomar por adquiridos os frutos para as
gerações futuras. O potencial para o desenvolvimento humano existe, como no
passado existiu para os meios de massas, como a televisão. Resta no entanto adequá-lo à prática; em suma: realizá-lo. Esta é uma tarefa tanto privada, a cargo de todos os agentes com funções educativas, como pública, mediante uma regulação
estrita dos mercados que não deixe os leitmotifs do marketing passarem
como meras palavras vãs – não por acaso os custos das comunicações têm
repetidamente sido indicados como dos principais impeditivos de uma adopção
mais generalizada e de um uso mais rico das possibilidades das comunicações e
tecnologias móveis.