scorm

II.4 Ambientes pessoais de aprendizagem versus ambientes virtuais de aprendizagem

A prática dominante no desenho da instrução em e-Learning tende a fazê-lo equivaler à criação de “ambientes virtuais de aprendizagem” (AVA), tidos como sinónimo aproximado de LMS - Learning Management Systems ou Sistemas de Gestão da Aprendizagem – e, dentro destes, à disponibilização de conteúdos em formato digital, com maior ou menor interactividade, a par e passo com actividades e ferramentas colaborativas, ora síncronas ora assíncronas. Quando aderentes aos standards internacionais e capazes de assegurar para além da gestão a criação de conteúdos, estes são por vezes chamados de LCMS (Learning Content Management System) – “um sistema que permite criar, armazenar, reutilizar, gerir e distribuir conteúdos de e-Learning através da manipulação de objectos de aprendizagem” (Figueira & Denominato, 2003, p. 142).

Um LMS, diz-se, deve no mínimo cumprir os seguintes requisitos: a) permitir a gestão dos utilizadores (inscrição e definição granular de papéis e permissões); b) facultar um calendário e instrumentos de organização das tarefas; c) permitir ao aprendente orientar-se através de um percurso de aprendizagem; d) fornecer ferramentas de colaboração e comunicação; e) disponibilizar instrumentos de avaliação, incluindo registos de actividade; f) permitir ao aprendente controlar a sua aprendizagem, normalmente através de uma pauta de notas; g) ser acessível através da WWW.

Conquanto conveniente e forma fácil de começar a fazer e-Learning, e independentemente da criatividade colocadas no desenho do currículo e das actividades de aprendizagem, a lógica por detrás dos LMS não mascara o contra-senso da sua filiação num paradigma tradicionalista de conhecimento prepositivo em que se é consentida liberdade na navegação dos conteúdos ou mesmo na execução das tarefas, não deixa de haver centralização e um pré-condicionamento dos resultados.

Em mobile learning, semelhantemente, tende a falar-se de MLE (Mobile Learning Environments) como decalques dos LMS[43], simplesmente adaptados às questões de usabilidade postas pelos dispositivos móveis; quando não, frequentemente, como meras transposições (e.g. através de estratégias CSS que, a partir da identificação do dispositivo cliente, formatam o conteúdo de forma adequada ou alternativamente através de dadas formas de parsing[44]).

Num estudo efectuado junto do universo de 17 projectos de mobile learning apresentados na conferência m-Learn 2007, Chen, Millard, & Wills (2008), aplicando um modelo de análise ad hoc que tomou em consideração 4 dimensões (objectivos de aprendizagem, ambiente, actividades e ferramentas), concluíram inequivocamente neste sentido; que a esmagadora maioria apenas na variável “ambiente” mostrava suportar a informalidade, continuando a ser formais em todos os outros aspectos; ou seja, efectivamente, ficando aquém do pleno potencial.

Assim, Van Hamerlen (2006) define Ambiente Pessoal de Aprendizagem (APA) como “um sistema que ajuda os aprendentes a controlar e gerir a sua própria aprendizagem. Isto inclui prover suporte para os aprendentes estabelecerem os seus próprios objectivos, gerirem a sua aprendizagem, gerirem tanto o conteúdo como o processo e comunicarem com outros aprendentes” por contraste com o AVA como sistema de software, tipo OLAT ou Sakai, desenhado para ajudar os professores através da facilitação da gestão dos recursos educativos para os aprendentes, especialmente mediante o apoio na administração do conteúdo e na avaliação, incluindo dispositivos de monitorização da aprendizagem.

Contrariamente ao “ambiente virtual de aprendizagem”, o “ambiente pessoal de aprendizagem” distingue-se imediatamente pelo facto de mais do que uma solução de programação – tipo “canivete suíço” que disponibiliza numa localização centralizada, uma série de ferramentas - ser uma proposta nova na organização da informação que tanto pode ser perspectivado como materializável em aplicações concretas (e.g. a aplicação de software aberto Elgg[45], na categoria de solução alojada na Web, tal como o PLEF[46], ou o Plex[47], moldados mais proximamente sob a lógica de um “LMS pessoal”) como enquanto mera filosofia de organização, personalizável à medida pelo aprendente como integrador de recursos (tipo mashup-up – de que o iGoogle[48] é exemplo) da pletora de ferramentas dedicadas existentes, mormente na senda da Web Social ou 2.0. Uma espécie de proposta “defina as suas necessidades e componha o seu próprio menu”[49] ou, na acepção conectivista de Chatti, Jarke, Wang, & Spech (2009) “colecção auto-definida de serviços, ferramentas e dispositivos que ajudam os aprendentes a construir as suas redes pessoais de aprendizagem, incluindo nodos de conhecimento tácitos (i.e., pessoas) e explícitos (i.e. informação)”.

Um APA pode assim incluir ou mais subsistemas; ser uma aplicação alojada no PC ou composto de um ou mais serviços baseados na Web; ou uma combinação dos dois.

Podemos percepcionar os “ambientes pessoais de aprendizagem” igualmente como extensão da lógica dos e-portfolios. Enquanto a criação de portfolios digitais[50] a nível formal, e num modelo de aprendizagem “supervisionada” (com um professor ou tutor que ajuda a definir os objectivos e fornece directrizes para a selecção de material), promove a preocupação com o desenvolvimento de instrumentos de aprendizagem autêntica ou baseada no desempenho em que o auto-controlo é maximizado; a criação de um APA está sobretudo focada na aprendizagem contínua e no conhecimento que se pode obter directamente da participação em comunidades de prática. Ao longo da vida pode incluir simultaneamente a gestão de um porfolio como naturalmente também a participação concomitante em diversos AVAs e toda a espécie de aplicações seja de consulta de informação seja de diálogo e participação. Idealmente um APA deverá ainda permitir a publicação e o acesso externo, total ou parcial, para que os criadores dos diversos APA os possam enriquecer com a consulta recíproca.

O “pessoal” contido na expressão corresponde pois à necessidade de gerir de forma a dotar de sentido (o que implica a possibilidade não só de armazenamento de informação como de recuperação e recombinação) a aprendizagem, visando corresponder aos desafios do “ser-se digital” de tal modo que se torna necessário aceder a ela nas diversas instâncias, fóruns e cenários de vida em que se participa.

Ao contrário dos LMS, já o escrevemos, os APA não são soluções prêt-a-porter. São uma forma nova de encarar a aprendizagem, já não na óptica de uma instituição promotora ou de um tutor supervisor, mas das necessidades concretas do aprendente. Com recursos à TIC, cada indivíduo deve ter as competências para construir o seu, na medida em que apenas ele pode ser o pleno árbitro das suas carências.

Levantam no entanto sérios desafios ao nível da conectividade, compatibilidade e interoperabilidade. Desafios que se os LMS tinham progressivamente paliado de acordo com o princípio dos “objectos de aprendizagem” como building blocks e das normas de empacotamento SCORM, ressurgindo em renovado contexto quando se pensa:

  • Na necessidade de acessibilidade a partir de múltiplas instituições e eventualmente de múltiplos ambientes informáticos (o que implica questões de autenticação bem como um problema de standards tão mais fácil de ultrapassável quanto mais se exija da “literacia digital” do utilizador; embora ferramentas baseadas em XML como o RSS tenham vindo a paliar este efeito);
  • A possibilidade de os basear tanto nos meios do utilizador como na rede como hibridamente (uma proposta interessante, neste sentido, é a do recentemente lançado Opera Unite[51]: um servidor Web integrado no navegador, unificando as ferramentas de “busca” com as de “disponibilização” dos dados);
  • A complementaridade entre os uso on e offline, dificilmente alguém deseja estar exclusivamente dependente do online (até por questões de hábito; basta pensar que vivemos o paradigma 1 TB das “drives de armazenamento externo”, disponíveis por menos de 100 euros, que parecem o complemento imediato do paradoxo no acréscimo da venda de papel que acompanhou a digitalização. Na dificuldade em organizar ou atribuir prioridade aos dados, o impulso imediato é empilhá-los);
  • A susceptibilidade de fornecer acesso às diversas aplicações (seja em termos de tecnologia seja em termos do tipo de dispositivos usado; como é sabido um ecrã HVGA – com uma resolução de 320x240 pixéis, o mais comum nos smartphones - não é a mesma coisa que um WSXGA+, disponível no TFT de 17 polegadas de um computador portátil, com 1650x1050 pixéis);
  • Na questão da exponenciação dos problemas de compatibilidade entre aplicações e formatos; por exemplo a versão Flash para dispositivos móveis não suporta neles as mesmas funcionalidades; o mesmo para o Adobe Reader, cuja versão para Windows Mobile, por ex., permanece a 2.0 desde 2005).

São matérias a que regressaremos no final do próximo capítulo.

 


[43] Para um par de exemplos veja-se o Meridian Mobile LMS (http://www.meridianksi.com/products/mobile_lms/) e o GoKnow! Mobile Learning Environment (http://www.goknow.com/).

[44] No primeiro tem sido por ex. o caso da abordagem do Drupal (http://drupal.org/node/459686) no segundo do BlackBoard (http://www.blackboard.com/Teaching-Learning/Learn-Resources/Whats-New/Le...) e do Momo (http://www.mobilemoodle.org/momo18/), descontinuado em favor do MLE (sobre este ver ainda o Apêndice 13: Estudo de caso: MLE).

[45] Disponível em: http://elgg.org/

[48]Disponível em: http://www.google.pt/ig

[49] Neste sentido, Attwell (2007) fala de APA como sendo “compreendido por todas as diferentes ferramentas que usamos no nosso dia-a-dia para aprender” enquanto Castaño et al.. (2008, p. 163 e seg.s), operacionalizam o conceito trauteando Lubensky (2006) na sua acepção redutora como “facilidades para um indivíduo aceder, agregar, configurar e manipular artefactos digitais das suas experiências de aprendizagem correntes”.

[50] Chapin & Messick (2002) por ex. definem portolio como “um ficheiro ou pasta de selecções do trabalho de um estudante recolhidos ao longo de um período de tempo que fornecem prova da aprendizagem, resultados e progresso nos estudos.”

[51] Descarregável a partir de: http://unite.opera.com/

Apêndice 2: Contributo e utilidade das tecnologias móveis para a convivialidade e a desescolarização

A noção de “mobilidade” e a valorização do seu impacto, esforçadamente antecipado de forma em si significativa, devem conforme notado por Pachler (2007, p. 10 e seg.s), ser enquadrados na teoria social. As tecnologias emergem como ferramentas ideológicas que organicamente encarnam valores, sendo necessário avaliar como a ideologia está latente na tecnologia. Tal esforço meta-reflectivo (consoante descrito no Apêndice 1: Da importância do ensino informal, da aprendizagem situada e das comunidades de prática) equivale a perspectivar estruturalmente a educação e as suas teorias como veículos de socialização e de conformidade com os interesses vigentes numa “modernidade” organizativa (Weber chamar-lhe-ia “burocrática) que depende dos sistemas periciais e das garantias simbólicas como mecanismos de descontextualização capazes de manter e alimentar a velocidade da mudança e a separação entre espaço e tempo como condição de existência num mundo “globalizado”. É assim que Giddens propõe o “agenciamento” (português brasileiro) ou “agência” (agency, em inglês) como conceito-chave – de resto, presente na Teoria da Actividade – enquanto reflexividade do agente individual, potenciadora das possibilidades de transformação e/ou reprodução da estrutura social. É na interacção entre “agência” e “estrutura” (proporcionada pela dualidade coerção/facilitação) que são realizados os rearranjos sociais que atribuem particularidades a determinados “sistemas sociais” ou cenários, enquanto actividades localizadas de agentes humanos reproduzidas no tempo e no espaço (Giddens, 2001, p. 18).

As teorias da educação moderna encarnam desta forma uma preocupação com a integração do interaccionismo na importância dada pelos funcionalismo, estruturalismo e marxismo à estrutura e super-estrutura sociais; que subjazem mas não deixam de estar presentes. A valorização da reflexividade individual corresponde – na linha vagamente anarquista de Illich – à necessidade de libertar o cidadão da condição de consumidor passivo de informação, rompendo com as funções clássicas da escola: provisão de cuidados de custódia (a “ama” onde, com a emancipação feminina e a saída da mãe de casa, para o trabalho, as crianças são depositadas); a distribuição das pessoas por ocupações; a assimilação dos valores dominantes e a aquisição das aptidões e conhecimentos colectivamente sancionados (Giddens, 2008, p. 515).

Analogamente, Wolton (2000, p. 78) faz notar a coincidência da Internet enquanto meio de comunicação com o cerne do ideal liberal do indivíduo que tudo controla, podendo desenvolver livremente as suas competências, assegurar o seu destino, cultivar-se, corresponder-se e criar relações sem o menor constrangimento de qualquer estrutura. A valorização da aprendizagem informal e individual, à medida, equivalente ao do it yourself, coincide com o espírito empreendedor do capitalismo.

O novo limite e o novo desafio é o da competência, pois “o acesso a toda a informação não substitui a competência prévia para determinar que tipo de informação procurar e qual o uso a dar-lhe. O acesso directo não suprime a hierarquia do saber e dos conhecimentos” (Wolton, 2000, p. 79). Precisam-se pois de “novas competências” para um novo mercado de trabalho de “manipuladores simbólicos” ou, como diria a União Europeia, “novas competências para novos empregos”.

Na verdade, a típica proposição em mobile learning de um modelo de aprendizagem permanente e situacional – através da “participação periférica legítima”, na formulação de Lave & Wenger (2002, p. 171) - faz mais do que isso: rompe com a ideia desta enquanto processo de internalização – que simplisticamente insulariza o aprendente e reduz o problema educativo a um processo de transmissão e assimilação de dados – para enfatizar o carácter relacional e socialmente negociado do significado e a agência do aprendente activo; passando o locus educativo da aprendizagem como condição para se tornar membro de uma sociedade para a forma como pela participação a condição – e o status e a identidade, para esse efeito – do próprio indivíduo se alteram através das relações em comunidades virtuais.

Na tensão sociológica perene entre acção (individual) e estrutura (social) Ivan Illich interessa hoje à compreensão da forma como a Internet está a mudar a nossa forma de aprender; interessa-nos não só pelo diagnóstico e crítica radical que faz do sistema educativo como pela visão que deles extrai quanto à necessidade de uma nova forma de aprendizagem convivial, com o conhecimento construído em teia ou rede. É sobre esta última ideia, consoante gizada no capítulo IV da sua obra Sociedade sem Escolas (Illich, 1985) bem como nas “Ferramentas para a Convivialidade” ou Tools for Conviviality (Illich, 1973) que nos vamos debruçar na convicção de nelas o autor levar 20 anos de clarividência. Se a capacidade de prever e explicar factos supervenientes relevam de uma teoria, a nosso ver, é razão suficiente para lhe atribuir valor.

No seu pensamento, Illich parte da constatação da circunstancialidade histórica da identificação da “educação” com a instituição “escola” e da própria noção de segregação funcional pela idade subjacente à “infância”, como realidades recentes, adstritas a um modelo específico de organização social da era industrial, e portanto que não devem necessariamente ser tidas como “dados adquiridos” e inextricáveis - a “escola” como processo que requer assistência a tempo integral, um currículo obrigatório, em certa idade e com a presença de um professor.

Pelo contrário sempre foi perene o facto de a maior parte dos conhecimentos serem adquiridos pelo contacto social, sem enquadramento formal nem “professores” especializados num espaço fechado em que assumem o papel de guardião e “mestre-de-cerimónias” que conduz o aluno através do labirinto formalizado dos saberes, orientando-o ora numa direcção ora noutra, no ingresso iniciático em áreas de saber a especialização o domínio de cujos léxicos o limitará futuramente; o papel de “moralista” que substitui os pais e propõe os valores do certo e do errado, socializando pela “educação cívica” para a integração e deveres perante o Estado; o “terapeuta”, enfim, sob o manto da relação pedagógica, autorizado a investigar a vida particular de seus alunos a fim de ajudá-los a tornarem-se “pessoas”.

Ao arrepio deste processo em que o conhecimento é reificado e os saberes surgem como “bens” que o professor monopoliza, troca e de que obtém rendimento, para Illich, um sistema educativo deve perseguir três grandes desígnios: dar a todos que queiram aprender acesso aos recursos disponíveis, em qualquer época da sua vida; capacitar a todos os que queiram partilhar o que sabem a encontrar os que queiram aprender algo deles e, finalmente, dar oportunidade a todos os que queiram tornar público um assunto que tenham possibilidade de que seja conhecido.

A “desescolarização” da sociedade corresponde não há demissão da obrigação social de promover o acesso ao conhecimento, mas sim ao abandono de um modelo assente no seu consumo passivo e num “currículo oculto” que substitui a verdadeira emancipação pessoal e individual pela sujeição à ordem social e pela promoção do conformismo – com base, também, na premissa de que “igualdade de oportunidades” é sinónimo de “igualdade no acesso à escola”, sendo depois apenas “natural” o maior ou menor insucesso de cada um, justificado pela capacidade de se distinguir e obter bons resultados nela (lógica falaciosa desde logo porque ela não se mostra capaz de prover as reais competências e porque a todo o processo subjaz o espartilhamento da criatividade individual).

Conforme nota Olga Pombo (2005), “a pedagogia pretende resolver os problemas do ensino ao nível das técnicas de comunicação entre professor e aluno. Como se as coisas se passassem, ou no interior da sala de aula, ou naquilo a que se chama a relação professor/aluno. Ora uma das vantagens de Ivan Illich é que ele coloca a escola numa perspectiva eminentemente política.” A escola surge como instituição só pensável ao lado de outras e deve na sua concepção ser articulada com elas.

Na perspectiva de Illich a alternativa é um modelo de transmissão do conhecimento “convivial”, que se afaste da noção segmentada e hierarquizada desta, para valorizar as parcerias cognitivas e se desloque para o ambiente; para a criação de um enquadramento educativo. Como ele escreve “Não se deve começar com a pergunta: «O que deve alguém aprender?», mas com a pergunta: «Com que espécie de pessoas e coisas gostariam os aprendizes de entrar em contacto para aprender?"

É assim necessário criar novas redes, estruturas relacionais deliberadamente montadas, em que a tecnologia seja usada para tornar a liberdade de expressão, de reunião e de imprensa verdadeiramente universal e plenamente educativa. Para este efeito, e neste plano, Illich é de novo profundamente visionário, antecipando e de facto inspirando as formulações da aprendizagem situada e do conhecimento distribuído, ao fazer notar que “a informação pode ser armazenada nas coisas e nas pessoas”(1985, p. 88); sendo que num sistema educacional bem gizado “o acesso às coisas deve estar disponível ao simples aceno do aprendiz, enquanto o acesso aos informantes requer, ainda, o consentimento de outros”, devendo as críticas provir de dois lados: colegas ao mesmo nível (comunidade de prática) e especialistas (tutores-orientadores). Temos aqui, em meados da década de 70, já as bases de todo o modelo subsequente do e-Learning e, em boa medida, do mobile learning.

Invertendo a lógica curricular, ao serviço de uma aprendizagem permanente auto-dirigida e verdadeiramente “à medida”, seria função do sistema educativo assegurar o acesso a recursos educativos através de quatro tipos de “redes”: Serviço de consultas a objectos educacionais; Intercâmbio de habilidades; Encontro de colegas e Serviço de Consulta a Educadores em Geral.

Não nos alongaremos na descrição de cada um destes quatro tipos de redes; basta para o fim em vista dizer que o primeiro antevê através dos repositórios de “objectos educacionais” raciocínios subsequentemente aplicados aos LMS e à granularidade do SCORM; que o “intercâmbio de habilidades”, para além de ecoar nas comunidades de prática, corresponde, a jusante do e-Learning por ex. à prática das universidades seniores; que o “encontro de colegas” ou parceiros assentaria em redes de partilha tanto de interesses (segundo, por exemplo, a filosofia corrente do Twine onde as pessoas se agrupam em função das matérias que estudam e vão partilhando resultados) como finalmente a percepção do “serviço de  consulta de educadores” se adequa à realidade corrente; de facto, para o autor trata-se não só de facilitar o acesso ao especialista com o domínio pedagógico de um dado conteúdo ou ao primus inter pares capaz de “andaimar” jornadas intelectuais exploratórias, como ainda adestrar os aprendentes na própria capacidade de auto-regulação e na criação e maneio das redes (formação de professores em TIC).

As tecnologias da comunicação móveis permitem-nos recuperar e concretizar estas ideias em termos práticos com uma facilidade que na altura se não antevia; de facto quando fala em “tecnologias”, antes do advento do computador pessoal, Illich reduz a função, mediante consulta, a uma centralizadora, de triagem da informação e – designadamente – da manutenção de directórios segundo perfis de competência, fosse de pares fosse de especialistas; complementando-a com uma previsão de “boletins informativos e anúncios classificados nos jornais.”

Estão hoje reunidas as condições para operar os objectivos desejados por Illich: a libertação no acesso aos objectos educativos, abolindo o controlo de quem proclamou que “aprender é ser obrigado a frequentar uma dada reunião” sobre os valores educacionais; a promoção da partilha de “habilidades” (de preferência às “competências”, portanto, admitindo a qualificação não formal dos parceiros cognitivos); a disponibilização de recursos críticos e criativos; e a liberdade para o indivíduo modelar as suas expectativas próprias e não de se resignar a imposições curriculares dadas externamente.

Sedutor como é, indo fundo ao âmago da questão educativa, entrosada com o problema político, e fornecendo algumas pistas orientadoras para um modelo de aproveitamento pedagógico do mobile learning, conforme releva do parágrafo anterior, a proposta deste “torvelinho libertador” levanta no entanto alguns problemas práticos. Do nosso ponto de vista, por um idealismo excessivo que não tem suficientemente em conta o problema da “motivação”; bastante central a qualquer proposta de aprendizagem auto-dirigida mas também crítico quando se assume a “bondade” inerente à partilha de habilidades. É que quem tem uma “habilidade” pode por natural egoísmo preferir guardá-la para si; como “vantagem competitiva” no mercado de trabalho. Por outro lado, admitir que a “criatividade” nasce simplesmente porque o indivíduo foi livre de perseguir o seu próprio caminho oculta o facto de que, por cada “artista” e por cada inovação que nascesse na adopção generalizada de tal sistema uma fatia mais do que proporcional provavelmente sucumbiria à desorientação e, com o advento da Internet, à mera gandaia informativa.

Ainda que, conforme sugere Nyíri  (2002) num artigo peculiarmente designado “Em direcção a uma filosofia do mobile learning”, seja uma simplificação cobarde e uma resignação cómoda pretender uma demissão sobre pretexto de que o m-Learning pecará por se quedar pelo patamar do fornecimento de informação sem promover a construção de conhecimento, na medida em que as TIC não se resumem aos dois primeiros termos (Tecnologias da Informação) mas incluem um terceiro (Comunicação) em função do qual naturalmente alguma coisa de bom virá, uma vez que o “Conhecimento” é informação em contexto e que a simples disponibilização da informação nele gera mais-valias.

Adoptando portanto uma óptica de acordo com a qual educação e comunicação partilham características íntimas, Nyíri embora partindo de um referencial diferente, e mormente do pragmatismo de Dewey, chega a conclusões semelhantes no que toca a forma como a “mobilidade” e a vivência das comunicações e ambientes móveis vem impactar os pressupostos educativos relativos ao contexto; sobretudo porque, correntemente, os jovens adolescentes passaram a partilhar e a ter acesso aos mesmíssimos espaços virtuais dos adultos.

A correlação comunicação-educação é aliás antiga e alvo de questionamento recorrente, cada vez que existe um progresso nos meios da primeira. Já vimos noutra parte deste trabalho como Sartori nos fala do homo videns; da mesma maneira McLuahn prognosticava que o advento da televisão destruiria o monopólio do livro e que os meios audiovisuais suplantariam – como suplantaram – a imprensa enquanto veículos informativos. A sala de aula, porém, permaneceu intocada, tendo absorvido o novo meio com absoluto pacifismo e em termos puramente instrumentais ou complementares. Na medida deste exemplo, feito mesmo o desconto do potencial dialógico directo que a Internet tem e a TV não tinha, a proposta da clivagem entre as formas de comunicação escrita e audiovisual não nos parece ter valor operacional suficiente para propor um “fim da educação” (na acepção de Postman) fundado na ideia de que o que justificava a escolarização era a literacia e o império do texto com a substituição do qual deixaria de ser tão premente; não obviamente numa fase adolescente da vida, mas em fases de maior maturidade.

É certo que a separação disciplinar é uma imposição artificiosa entre saberes por vocação comunicantes, parece porém incerto e até bastante duvidoso admitir que se passará do “saber dos especialistas” para um regresso ao paradigma do saber unificado e omnicomunicante (até porque este ter uma matriz escolástica, religiosa, a que não parece interessante regressar; sentido aliás da defesa da “modernidade” por ex. por Habermas contra o risco do retorno romântico a um pós-modernismo hedonista e excessivamente céptico). Não devemos confundir o advento do “generalista” e muito menos a tendência, já antiga, em especial em Ciências Sociais, para a transdisciplinaridade, como dispensa do sistema académico existente em nome de uma realidade vaga. Afinal, quando e se se propõe que o desafio está em dotar o aprendente da capacidade de seleccionar o que lhe interesse, é porque se reconhece que o universo de saberes se tornou simplesmente demasiado vasto e complexo mas que qualquer indivíduo o possa abarcar de outra forma que não superficialmente. A figura do especialista permanece indispensável.