scaffolding

II.1 Modelos de análise

No estádio onde se encontram, todas as molduras teóricas que se têm procurado criar para o enquadramento das tecnologias móveis no sistema de ensino-aprendizagem devem ser tomadas com precaução, como aquilo que são: “modelos exploratórios” que a realidade há-de intempestivamente temperar por uma prática com veredas não antecipadas, algumas desilusões e – espera-se – belas revelações.

Tido por certo podemos observar uma deslocação para um enfoque na educação contínua ora condutista ora gestaltista. Condutista quando, na lógica skinneriana e behaviorista que norteou os primeiros usos educativos da tecnologia se considerava a conduta como consequência de um conjunto de acções e reajustes, de estímulos e respostas, privilegiando a decomposição do conhecimento em pequenas partes para mais fácil assimilação (com princípios válidos para a didáctica dos conteúdos); gestaltista quando se enfatiza a percepção ao invés da resposta, privilegiando não os mecanismos de estímulo-resposta em si mas o contexto em que ocorrem – portanto, acreditando que o todo é maior que a soma das partes (segundo linhas reconhecidas na promoção da chamada Web Social).

Procurando ser sintéticos, podemos, na esteira de De Jong, adaptado por Parsons, Ryu & Cranshaw (2007), orientados para o Conhecimento, identificar três grandes ordens de espaço e correspondentes dimensões pedagógicas que devem ser contempladas pelo desenho de instrução com uso das tecnologias educativas móveis: individual (construtivista); social (colaboracionista) e contextual (situacionista).

A questão – “de que moldura pedagógica rodear o emprego das tecnologias educativas móveis?” – é de resto passível de múltiplas aproximações. As meta-abordagens mais frequentemente citadas são porventura as de Roschelle (2003), Naismith et al.. (2004) e Patten et al. (2006). Juntas, mutuamente conscientes, sequenciadas no tempo e numa deliberada complementaridade em que cada qual procura estender a anterior fornecem um bom ponto de partida. Talvez seja por isso útil passá-las aqui em revista.

Situando-se numa óptica do ensino formal, Roschelle abdica de fazer futurologia, refuta visões demasiado complexas da tecnologia e excessivamente simplificadoras das práticas sociais e começa por se socorrer do campo mais solidamente conhecido, o da aprendizagem apoiada em computadores; nela o dispositivo surge tipicamente num de três papéis: como “tutor” (através da previsão de um conjunto de respostas tão adaptável quanto possível às reacções aos estímulos que o formando vai fornecendo); como “tutorado” (quando o formando é levado a assumir o controlo da “máquina” convertendo-a em instrumento da própria aprendizagem; por ex. no caso da manipulação da célebre linguagem LOGO de Papert); como “Ferramenta” (o dispositivo surge instrumentalmente como veículo entre o professor e grupos de estudantes, não estando nem no controlo do processo nem no papel de objecto a ser controlado). Ora, no campo do ensino com dispositivos móveis, parece evidente, que a condição destes é sobretudo a terceira, até porque as típicas limitações de interface dificultam grandemente as outras duas.

Assim, fazendo a abordagem pelo tipo de actividade, antevê-se desde logo três tipos de aproveitamento das comunicações móveis,: a) como “sistemas de resposta em sala de aulas” (instrumentos de comunicação imediata de participantes “à vista uns dos outros”, portanto forma de aumentar a colaboração); b) enquanto facilitadores de “simulações participativas” (veículos emuladores da realidade, instrumentos de modelagem pelo roleplay); c) para a “recolha colaborativa de dados” (facilitadores da execução de tarefas dadas seja na própria sala de aula – por hipótese para a agremiação conclusiva de resultados em diferentes experiências executadas num laboratório de física a exibir num “quadro interactivo”– seja fora dela – por ex. distribuição de tarefas para recolha de informação tendente à subsequente construção de uma narrativa, aquando por hipótese da visita às diversas salas de um museu, durante uma visita de estudo).

Roschelle sugere ainda a necessidade de mecanismos de segurança para aplicação das tecnologias móveis em contexto escolar: que o professor mantenha a pilotagem do processo comunicativo e das próprias tecnologias, de forma a garantir a atenção dos estudantes; que seja garantido um mecanismo agregador das mensagens e que a comunicação assente em mensagens curtas, assincronamente estruturada. “Travões” cujos termos de implementação parecem pouco claros e tão menos quanto mais se queira levar os alunos a usufruir dos seus próprios dispositivos ou a tornar a aprendizagem efectivamente “móvel”, fora da sala de aula.

Tabela 2 Categorização das tecnologias móveis de aprendizagem baseadas em actividades

Corrente

Teóricos chave (Pedagogia)

Tipos de Actividades

Behaviourismo

Skinner, Pavlov

Drill & feedback

Sistemas de reposta em sala

Construtivismo

Piaget, Bruner, Papert

Simulações participativas

Aprend. Situada

Lave, Brown

Aprendizagem baseada em problemas e casos

Aprend. Colaborativa

Vygotsky

Aprendizagem colaborativa móvel baseada em dispositivos computacionais

Aprend. Informal e Permanente

Eraut, Engelström, Nardi

Suporte à aprendizagem intencional e acidental

Criação de Ambientes de Aprendizagem Pessoais

Atwell, van Hammerlen

Organização pessoal

Suporte a tarefas administrativas

Quadro complementado com base em Naismith et al..(2004)

Em Naismith encontramos uma abordagem mais abrangente, pelo campo das teorias da educação, e passível de aplicação além do ensino formal. Identificam-se aí seis correntes de autores com ensinamentos relevantes para construir uma pedagogia do mobile teaching and learning, tendo em comum serem baseadas na valorização da “actividade” e da aprendizagem pela acção: Behavioristas; Construtivistas; Situacionistas; Colaborativistas; Informalistas/Apologistas da Aprendizagem ao Longo da Vida e Administrativistas.

Qualquer pedagogia para o m-Learning, diz-se, deverá incluir a exploração das pedras de toque: contexto, mobilidade, aprendizagem ao longo do tempo, informalidade e “apropriação” por parte do aprendente.

Do comportamentalismo pode retirar-se a preocupação com a garantia de actividades que promovam a alteração do comportamento do aprendente (tipicamente mediante o uso de questionários de correcção automática a que os dispositivos móveis se prestam particularmente bem, em particular no modelo fechado de resposta múltipla); do construtivismo deve recuperar-se a ideia da aprendizagem como processo activo que o aprendente obra sobre a realidade tanto interna (aquilo que já sabe) como externa (o meio, ou contexto, que as tecnologias móveis permitem explorar); isto leva-nos às lições da “aprendizagem situada” contemplando actividades que permitem gerar conhecimento em contextos autênticos; actividades promotoras da aprendizagem colaborativa, como processo eminentemente social, garantido a interacção entre participantes; actividades que suportem a aprendizagem fora de um ambiente dedicado e além de um currículo formal. Finalmente, é possível reconhecer nas tecnologias móveis o potencial para actividades de cunho mais administrativo mas nem por isso menos importante, a nível da coordenação dos aprendentes e das actividades de aprendizagem (ex. o uso do SMS para recordar do fim de um prazo ou da execução de uma tarefa ou difundir resultados e notas).

Patten, por seu turno, desenvolve uma moldura para enquadramento das aplicações educativas dos dispositivos móveis em termos simultaneamente da aplicação funcional[30] e do substrato pedagógico suportado. Identificam-se sete tipos de função, das quais três especialmente adaptadas ao mobile learning: Administrativa, Referência, Interactiva, Micromundo, Recolha de Dados, Reconhecimento da Localização e Colaborativa (para um desenvolvimento consulte-se p.f. o Apêndice 8: Aplicações educativas dos dispositivos móveis).

Com base numa minuciosa revisão dos casos de estudo apresentados na literatura internacional, mais perto de nós, Song (2009) refinou o modelo e chegou ao quadro síntese (ver Tabela 3 - Categorias das aplicações de dispositivos móveis na educação - óptica funcional); útil também pela decomposição que faz das actividades a partir das operações dominantes sobre os dados, separando o pushing (recuperação de informação) do posting (criação/injecção de informação). Veremos, no capítulo seguinte (aplicado em particular na Tabela 8 - Tipos de actividade e exemplos de aplicações móveis correspondentes), semelhantemente, como a nosso ver a mais exaustiva tipificação das actividades possibilitadas pelas tecnologias móveis (Framework, 2008) se baseia precisamente na sua decomposição em cinco tipos: Aceder, Registar, Relacionar, Reinterpretar e Organizar.

Tabela 3 - Categorias das aplicações de dispositivos móveis na educação - óptica funcional

Categorias

Subcategorias

Características

Comunicação Educativa

Pushing

Comunicação em um ou dois sentidos entre estudantes ou com o professor.

Posting

Resposta e feedback

Messaging

Troca de ficheiros

Sistemas de comunicação de grupo

Gestão

Gestão Pessoal

Arranjos pessoais da aprendizagem e tarefas de gestão do tempo através dos dispositivos móveis.

Tarefas Administrativas

Acesso Multimédia

 

A informação e recursos são acedidos a partir da Internet e por vezes descarregados e armazenados nos dispositivos móveis[31].

Jogos e Simulações

 

Fornecimento de modelos de circunstâncias reais nos dispositivos para que os aprendentes construam o seu conhecimento através da participação activa nas actividades de aprendizagem.

Recolha de Dados

 

Uso dos dispositivos móveis para registo e transmissão de dados no campo.

Reconhecimento da Localização

Personalização

Utilização do contexto para fornecer informação relevante e/ou serviços dependentes das tarefas do utilizador.

Reconhecimento Activo

Reconhecimento Passivo

Fontes : Patten et al..(2006) e Song (2009, p. 305)

É claro que a definição dos contornos de uma “Pedagogia” embora beneficie não se esgota na prospectiva do tipo de actividades que melhor podem tirar partido das tecnologias móveis; ela deve igualmente debruçar-se sobre as especificidades do “ecossistema” em que estas operam. A este último nível, a proposta mais convincente é a confortável distância, na nossa perspectiva, o modelo FRAME (Framework for the Rational Analysis of Mobile Education) apresentado por Koole e inclusa em Ally (2009, pp. 25-47).

Assim, uma pedagogia adequada à aprendizagem móvel deve ter em conta as três dimensões essenciais – e respectivas variáveis - que compõem qualquer ambiente: o indivíduo aprendente, a dimensão social em que surge imerso e o dispositivo mediador; considerando não só as suas especificidades individuais como as áreas de interpenetração mútua.

No esquema seguinte (Ilustração 4) tentámos juntar o melhor de dois mundos, enriquecendo o modelo FRAME através da interpolação com a Teoria da Actividade de Engelström (1999), inspirada no sócio-construtivismo e na ideia de mediação cultural de Vygotsky, segundo a proposta de M. Sharples, Taylor, J. e Vavoula, G. (2007). O resultado é um modelo de análise extremamente completo que constitui um ponto de partida óptimo seja para a consideração e análise de um cenário de mobile learning, seja para a sua antecipada previsão e desenho.

Perspectivamos desta forma, no centro, a aprendizagem móvel (DAS) como processo de conjugação de um Sujeito/Aprendente (A) dialogante (S) com um Artefacto/Dispositivo (D) mediador que interactivamente conduz à modificação do Objecto e à interiorização do conhecimento novo.

Os dispositivos móveis, ferramentas veiculadoras de símbolos - carregando portanto uma dupla dimensão de uso: técnica (tec.) e semiótica (sem.) -, cada vez mais ricos, desempenham um papel charneira entre a mente e o mundo e para o desenvolvimento das funções superiores do intelecto. Dado o seu carácter ubíquo e pessoal, eles estão especialmente talhados para o “contacto social consigo próprio”[32], permitindo entrosar intimamente desenvolvimento individual e contexto, retirando o máximo partido do segundo, mesmo que o processo não seja inteiramente autónomo e o scaffolding – apoio na passagem da zona de desenvolvimento actual para a potencial - continue a ser assegurado por terceiros (que, em fases etárias mais maduras, podem não ser “educadores” mas simplesmente “pares” ou colegas de trabalho mais experientes).

Ilustração 4 - Desenvolvimento do Modelo FRAME interpolado com a teoria da actividade.

Como amplificadores da “consciência”, construída de fora para dentro, a partir das relações e interacções sociais, os dispositivos móveis e os signos que convêm devem estar alinhados com a garantia do “Conforto Psicológico” e da “Satisfação”, requisitos para a manutenção de uma motivação elevada que só podem existir evitando uma sobrecarga cognitiva; aspecto que invoca a “Usabilidade” (DA, questão a que regressaremos no próximo capítulo) e um desenho de interface norteado pela preocupação de evitar a sobrecarga cognitiva e de apelar aos padrões tanto de cognição como da facilidade pelo apelo estético – permitindo o controlo técnico e se possível a personalização; de resto, na forma dos “toques e melodias”, uma das reconhecidas pedras de toque da indústria e da aceitação inicial dos telefones móveis.

Por outro lado, a dimensão da tecnologia social (DS) concerne as possibilidades técnicas da “comunicação” para colocar o indivíduo em contacto com outros, seja à distância (por ex. via uma rede Wi-Fi, para acesso à Internet) seja em proximidade, com outros dispositivos imediatos (por ex. comunicação de série, via bluetooth entre uma antena GPS e um PDA ou numa sala de aula entre dispositivos), seja no acesso a ferramentas que coloquem os utilizadores em contacto na partilha da execução de uma tarefa (por ex. na co-autoria de um documento via um wiki).

Se a “conectividade” é função das affordances do dispositivo a nível de hardware e deve ser equacionada na sua adopção – uma vez que é relativamente imutável; a “expansibilidade” dos dispositivos tende a ser pouca -, já a o domínio da Aprendizagem pela Interacção (SA) equivale aos usos concretos que se lhes dá e se presta à moldagem pelas teorias da aprendizagem devendo desde logo contemplar a exploração dos três níveis propostos por Moore (1989): interacção aprendente-conteúdo, interacção aprendente-tutor e interacção entre aprendentes. Para este efeito, a “realidade aumentada” de que tanto se fala a propósito dos jogos encontra no mobile learning novos horizontes; já não se trata de simular através do computador a realidade mas de submergir o dispositivo na realidade e situações concretos, utilizando-o para aí orientar o utilizador. Ao mesmo tempo as comunidades de aprendizagem e prática podem tirar partido dos ambientes colaborativos móveis em termos imediatos e experienciais; de tal forma que a constituição de redes sociais de aprendizagem se tornou num instrumento fundamental que deve preocupar qualquer aprendente, levando mesmo alguns a perspectivar o “Conhecimento” como espécie de complexo de sinapses sociais. É o caso dos proponentes do “Conectivismo”, sobre o qual nos debruçaremos a seguir.

 


[30] Capitalizando para tal Rieger e Gay (2002), que subdividiram na sua aplicação piloto os objectivos pedagógicos em três: produtividade, comunicação e colaboração.

[31] Para uma ilustração prática vejam-se as possibilidades do cliente MLE, descritas no Apêndice 13: Estudo de caso: MLE.

[32]  Equivalente, já o notámos antes, na teoria da inclusão de Ausubel, à asserção de que o factor mais importante na aprendizagem é aquilo que o indivíduo já sabe bem como, especificamente aplicado ao e-Learning, aos princípios elementares de instrução de Merrill (2001), que ressaltam a necessidade da activação do conhecimento prévio antes da integração pela demonstração e aplicação do conhecimento novo, ou no modelo LAM de Caladine (2003), que coloca igualmente em evidência a importância da “intra-acção”, para dar apenas alguns exemplos.

III.3 Questões transversais: usabilidade, geolocalização...

O reputado especialista em usabilidade Jakob Nielsen ao debruçar-se sobre o estado de desenvolvimento dos dispositivos móveis concluiu que do ponto de vista da usabilidade a experiência de acesso à Internet móvel em 2009 está, na melhor hipótese, no ponto de insipiência em que o acesso por computadores de secretária estava em 1998 (Nielsen, 2009).

Entre os factores de entropia identificados contam-se a falta de familiaridade dos utilizadores com os dispositivos; a dificuldade em controlar efectivamente a navegação e a frequência de erros e crashs no software. Questões derivadas da inadaptação do desenho dos sítios que, na óptica do especialista, só podem ser ultrapassadas pela criação de versões concebidas especificamente para acesso móvel.

A perspectiva de Nielsen enferma no entanto de algum “software-centrismo” desdenhando a muita criatividade que ainda se pode infundir a nível do hardware ele próprio – à altura em que escrevemos estas linhas, por exemplo, a LG Electronics inovou ao trazer ao mercado o seu modelo GD900, que depois do multitoque introduzido pelo iPhone da Apple, introduz a novidade da duplicação da funcionalidade do teclado como rato, suprindo a necessidade de obstruir com o dedo o ecrã de 800x480 pixéis de resolução (em si bastante “acomodador”).

Jones & Marsden (2006), entre outros, enumeram algumas soluções criativas na forja, como sejam a nível da visualização o “ecrã dobrável”[60]; o sistema peephole para a extensão virtual intuitiva da área abrangida, movimentando o utilizador o dispositivo como “lupa” ou, no tocante à introdução de dados, os teclados Fastpad de escrita rápida com 24 botões para letras intercalados entre as 12 clássicas teclas alfanuméricas et caetera.

A evolução faz-se ainda crescentemente no sentido de uma interacção mais rica através de sensores passivos (isto é, sem necessidade de intervenção explicita do utilizador), primeiro de movimento (detectando a inclinação do dispositivo) e depois de direcção, através de bússolas electrónicas. Associados ambos à tecnologia GPS[61] e à possibilidade da captura da imagem circundante tornou-se possível o advento da “realidade aumentada” de que aplicações como o Layar[62] são o testemunho mais bem sucedido e eloquente; para esse efeito, a plataforma Android da Google assume um posicionamento estratégico que a alavanca à frente da concorrência – ainda que, à data de conclusão deste trabalho, se anuncie a disponibilidade para o concorrente iPhone do em tudo idêntico “Bionic Eye”[63] (Sorrel, 2009).

Conforme o nome deixa antever, com o Layar o utilizador tem a possibilidade de activar um conjunto de camadas de conteúdo georefenciado, em função das suas preferências, que sobrepõe à imagem real do que o circunda conteúdos dinâmicos que podem ir desde informação turística sobre o que está a ver – facilidade de resto também possível com a aplicação Wikitude[64], igualmente para Android, que disponibiliza o conteúdo da Wikitravel - ou onde encontrar a estação de metro mais próxima, à associação de tweets com os locais versados (ex. um comentário sobre a peça que está a ser representada no teatro do outro lado da praça) e assim sucessivamente.

O mesmíssimo princípio subjaz ao Google Sky Map[65], distribuído gratuitamente, o qual permite ao utilizador identificar os objectos celestes com o seu telemóvel – para este efeito, como veremos no Apêndice 14: Estudo de caso: mySKY PLUS, generalizando o acesso a soluções antes já existentes em dispositivos pioneiros dedicados.

Do ponto de vista da aprendizagem informal e situacional o geottaging[66] (adição de informação geográfica a itens multimédia, seja ao cabeçalho EXIF de uma fotografia JPG, seja via GeoRSS a uma página HTML) cremos constituir a inovação mais saliente dos últimos anos; não só faculta o filtro automático da informação relevante para os artefactos na vizinhança imediata – permitindo ao dispositivo móvel fazer o scaffolding do conhecimento com dispensa de tutor, guia turístico ou cicerone – como deixa ao utilizador fazê-lo em função dos seus interesses íntimos.

Mais ainda, tem a potencialidade de facultar a aprendizagem social quando através de aplicações como o Woophoo[67] ou o Trackr![68], para nomear apenas duas, se faz o entrosamento com as redes sociais e deixa a indivíduo partilhar experiências e encontrar outros com interesses comuns na vizinhança imediata, superando em certa medida as possibilidades limitadas disponibilizadas para esse efeito pela tecnologia bluetooth, cuja prática do bluedating atingiu moderado furor, na medida sobretudo do limite de 10 metros no alcance dos dispositivos.

É ainda de esperar que o futuro traga novidades, sobretudo no tocante à extensão da lógica P2P (peer to peer), arvorada em “passo adiante” face ao movimento open content. Mais do que o acesso livre a conteúdos, é admissível que a prazo se venha a ver os dispositivos comunicarem individualmente entre si, partilhando informação que cruzada crie mais-valia: por exemplo, dois veículos que se encontrem na estrada em sentidos opostos podem partilhar informação implícita relativa às condições do trânsito ou do pavimento, permitindo-se uma mútua antecipação – funcionalidade de resto já parcialmente contemplada em funcionalidades como o TomTom Traffic Live ou, do mesmo fabricante, a possibilidade dos utilizadores partilharem manualmente alterações nas vias, enriquecendo uma base de dados comum.

A “partilha” de informação georeferenciada é de resto uma pedra de toque de grande aceitação já presente nas aplicações de navegação; pensamos não só, para dar dois exemplos, em fóruns com o popular sítio português portalppc.com, onde uma comunidade de utilizadores mantém e disponibiliza gratuitamente listas com milhares de pontos de interesse de mais de uma dúzia de categorias, como ainda entre nós na incorporação pelo NDrive a partir da versão 9 (lançada em Maio de 2009) de uma função de partilha de POI, directamente a partir do dispositivo.

 


[60] Também chamado de “Interface Gummi” (Carsten, Ivan, & Eijiro, 2004). Uma explicação ilustrada da tecnologia pode ser acedida em: http://www.sonycsl.co.jp/person/poup/projects/gummi.html

[61] E futuramente Galileo, sendo que o Glonass russo nunca conheceu exploração comercial digna de nota. Para este efeito, a explosão do mercado dos dispositivos tipo PND (Personal Navigation Devices) desempenhou um papel de vulto. Tornada possível após a supressão do erro deliberadamente introduzido no sinal, antes reservado para fins militares, em 2001, logrando a partir daí precisões máximas nas aplicações comerciais até 3 metros, foi prontamente acompanhado pela disponibilização de chips com performances melhoradas. Em poucos anos passou-se do Sirf II, com tempos de espera na obtenção de sinal que – na prática o constatámos - por vezes chegavam aos 20 minutos e uma grande permeabilidade ao meio e às “zonas de sombra” induzidas pela deflação pela morfologia do terreno e edificações ao Sirf III – verdadeiramente groundbreaking, ao introduzir uma sensibilidade superior que o adequou a um uso urbano –, depois acompanhado pela Mediatek, ao anúncio mais recente do Sirf IV ("SiRFstar IV Debuts with the Promise of Always On Location Awareness," 2009), concebido de raiz para estender a tecnologia AGPS e permitir a disponibilidade quase instantânea de sinal, reduzindo ao mesmo tempo o consumo energético e aumentando a autonomia, como convém à incorporação nos dispositivos móveis, como smartphones.

[62] Página com demonstração: http://layar.eu

[66] Cuja popularidade se tornou exequível sobretudo a partir da popularização do GMaps e do Google Earth que facultaram a obtenção de coordenadas geográficas de qualquer local, mesmo para quem não possua GPS. Pese embora, antes disso, e no caso português, o portal de acesso gratuito LusiGlob <http://lusiglob.logica.com/> fornecer já idêntico serviço, com superior precisão, em função da ortorectificação.

Apêndice 8: Aplicações educativas dos dispositivos móveis

Segundo Patten (ver acima) as aplicações Educativas dos dispositivos móveis podem dividir-se em:

·         Administrativa (aplicações do tipo PIM – Personal Information Managers, viradas para a gestão de tarefas e do tempo por vezes de forma colaborativa – groupware. Têm um alcance pedagógico circunscrito, não suportam o scaffolding nem a construção de conhecimento e limitam-se a replicar o já existente noutras plataformas. Em linha com a concepção original dos handhelds Palm Pilot como Personal Digital Assistants. Têm uma função sobretudo logística e dificilmente estimulam o aprendente a envolver-se na aprendizagem);

·         Referência  (aplicações do tipo “dicionário” ou “tradutor” – comuns na forma de midlets[92] - permitem uma consulta em qualquer local, seja off seja online e assumem também a forma de ebooks[93]. Pedagogicamente baseiam-se numa clássica noção “instrucional” e distributiva do conhecimento, a sua função limita-se à disponibilização de informação em novos espaços);

·         Interactiva  (aplicações do tipo drill & practice que tipicamente envolvem o fornecimento de um feedback ao utilizador através de testes; mais ou menos adaptativas têm um potencial pedagógico superior às anteriores, permitindo uma nesga de criatividade, alinhando-se ainda assim numa filosofia pedagógica behaviorista em desuso);

·         Micromundo (aplicações que visam simular um dado ambiente, por vezes na forma de um jogo, permitem uma forma limitada de manipulação e experimentação. Apesar de existentes com elevado grau de sofisticação para o desktop[94] estão longe de atingir igual grau de complexidade nas plataformas móveis); 

·         Recolha de Dados (fazem uso do potencial multimédia dos dispositivos com gravação de som, áudio e vídeo, para recolha de informação in loco. Na medida em que possibilitam a interacção com o mundo real e a integração dos cenários e exemplos concretos deste são provavelmente a aplicação mais feliz do mobile learning e aquela para que ele se acha melhor talhado); subdividem-se nas categorias:

  • Científica (permitem a colação do conhecimento com os dados empiricamente recolhidos no campo; reificando a aprendizagem – isto é, facilitando-a pela observação do concreto e pela materialização dos conceitos nos objectos)
  • Reflectiva (permitem o registo para reflexão, pode ser a típica aplicação de ferramentas de microblogging como o Jaiku – que facilitam a partilha e a construção conjunta de significado)
  • Multimédia (na sua forma mais básica podem envolver activamente o simples registo de voz de uma aula pelo aprendente ou a sua pré-disponibilização – podcasting; idealmente devem incluir ainda exercícios de reflexão como a captura de vídeos segundo enquadramentos dados, de forma a facilitar e a servir de trampolim para a construção do conhecimento mais intimamente entrosado com a bagagem do aprendente).

·         Reconhecimento da Localização (retiram partido de tecnologias de localização, como o GPS ou as etiquetas RFID para disponibilizarem ao utilizador informação espacialmente relevante; permitindo uma interacção contextual entre o utilizador e o dispositivo levando-o à exploração do ambiente – é por exemplo o caso típico da aplicação Wherigo – ver Apêndice 12: Estudo de caso: Wherigo).

·         Colaborativa (através do uso das tecnologias de comunicação móveis e da capacidade computacional dos dispositivos focam-se em criar um ambiente de aprendizagem inspirado por princípios colaborativos, segundo a ideia de que o conhecimento é uma construção social e relacional).

 


[92] Para uma extensa listagem veja-se por exemplo o directório GetJar <http://www.getjar.com/>; mormente a oferta nas categorias “Educação”:

[93] Dos quais os formatos mais afluentes são porventura o MS Pocket Reader e o Plucker (por ex. através do cliente Vademecum).

[94] Veja-se, usando a tecnologia Flash, o exemplo do Habbo, em linha: http://www.habbo.com/