pragmatismo

II.2 Do construtivismo ao construcionismo ao conectivismo

Na história das ideias, as correntes de pensamento com “ismo” no sufixo tendem a ser matéria de cisma, constituindo fracturas marcantes no pensamento e na forma de conceber as relações sociais e a condição individual perante elas (e.g, na política, o “comunismo” versus o “capitalismo”; ou, na educação, o “behaviorismo” versus o “construtivismo”). O “conectivismo” que aqui passaremos brevemente em revista corresponde a um corpo de ideias que tem vindo a ser desenvolvido com esse nome desde 2004 essencialmente por dois autores, ambos canadianos – George Siemens[33] e Stephen Downes[34]. Não é seguro que venha futuramente a conquistar um lugar como “ismo” destacado das teorias da aprendizagem, no entanto, pelas preocupações que trás na adaptação entre a nova organização da sociedade em rede e os modelos de educação que ela deve seguir parece-nos digno de nota.

Na definição dos seus proponentes “o conectivismo é essencialmente a asserção de que o conhecimento é enredado[35] e distribuído, e que o acto de aprender é a criação de e navegação em redes” (George Siemens, 2008a) ou a “teoria de que o conhecimento e a aprendizagem podem ser descritos e explicados usando princípios de redes”, sendo o “acto de aprender equivalente ao desenvolvimento de uma certa configuração neural” (Downes, 2005) e o conhecimento um processo de reconhecimento de padrões; de construção de significado pelo estabelecimento de conexões.

Assumindo que uma ideia nova é mais frequentemente a recuperação de ideias velhas em novos contextos - e portanto que os segundos mudam mais do que as primeiras, meramente recriadas (George Siemens, 2008b) – o conectivismo declara-se herdeiro compatível com a teoria da actividade e a ideia de acordo com a qual os artefactos medeiam a interacção social; da aprendizagem situacional; da teoria social cognitiva de Bandura (de onde é importante reter o processo de modelling como aprendizagem por observação, com corolário na garantia da Atenção, Retenção, Reprodução e Motivação[36]), das ideias sobre a cognição distribuída, dos teóricos dos Media como McLuhan e das teorias do caos e da complexidade – à semelhança, entre nós, de Coutinho & Junior (2007) - bem como das teorias sociológicas mais recentes sobre a sociedade em rede para finalmente propor como características especificamente suas e inovadoras:

  1. A aplicação de princípios da organização em rede à definição tanto do Conhecimento como da Aprendizagem; o primeiro entendido como padrão particular de relações; a segunda como criação de novas ligações/conexões e padrões;
  2. A faculdade de unificar os níveis de abordagem ao problema da aprendizagem biológica (à maneira do cognitivismo de Piaget, com as suas “etapas do desenvolvimento”) e cultural, propondo que a mesma estrutura de aprendizagem que cria as ligações neurais pode ser encontrada na maneira como associamos ideias e nos ligamos a outras pessoas e fontes de informação [tese para que encontramos igualmente suporte em Goleman (2006), com a sua concepção da inteligência como produto da “cognição social” e a ênfase que coloca na necessidade de garantir ao longo da vida “conexões saudáveis” bem como no papel da “conectividade correctiva” à luz da qual podemos entender a participação em comunidades de aprendizagem];
  3. A colocação do foco na inclusão da tecnologia como parte da nossa distribuição da cognição (para esse efeito, valorizando as bases de dados a par da interacção social; na medida em que se o “conhecimento é o estabelecimento de conexões” ele pode ser logrado tanto a partir da segunda como das primeiras – contribuindo para a unificação das dicotomias “sociabilidade”-“conteúdos”; “relação pedagógica”-“limites da máquina enquanto facilitador da aprendizagem”);
  4. Especial reconhecimento da importância do contexto e do directo impacto da sua natureza fluida na aprendizagem; isto é, de que o ambiente e a forma como influencia as relações estabelecidas altera os resultados da aprendizagem e é mais importante do que qualquer noção de “conhecimento pré-determinado”. Proposição das noções de ecossistema ou “ecologia de aprendizagem” - ambiente que fomenta a criação e manutenção de comunidades e redes de aprendizagem.
  5. Argumentação de que a abundância e rápida circulação da informação eleva a necessidade de construção de significado, coerência e compreensão à preocupação primordial da aprendizagem; portanto, tentativa de conciliar as mudanças na informação e comunicação com a educação.

Se para Jonassen, os computadores são “ferramentas que ajudam a pensar”, para os conectivistas os dispositivos móveis em rede devem ser vistos como “ferramentas que ajudam a estabelecer conexões significativas”. Da mesma maneira, se para o construcionismo de Papert as mãos estão conectadas ao cérebro, aprendendo-se tão melhor quanto mais pela manipulação prática e pela construção de produtos com significado pessoal, para o conectivismo os cérebros ligam-se naturalmente uns aos outros; ensino e aprendizagem são sociais por natureza e o conhecimento, mais do que estar “na rede” é “a rede” (recuperando o chavão de McLuhan - “o Meio é a mensagem” - a rede é o conhecimento) e aprender uma questão de estabelecer ligações dentro de ecologias do conhecimento pela sobreposição dos nichos de aprendizagem pessoal (campo dos ambientes pessoais de aprendizagem, a que regressaremos adiante) com os múltiplos círculos de interesses em que se participa.

Apoiando-se na teoria da cognição distribuída, consoante avançada por Hutchins (1996), o “construcionismo distribuído” de Resnick (1996) propunha aliás já algo de parecido; reconhecendo que a cognição e a inteligência não são propriedades de um indivíduo para sim o resultado da interacção do indivíduo com o ambiente circundante, composto tanto por pessoas como por artefactos. Sentido em que os dispositivos de comunicação móveis surgem como ferramentas que devem auxiliar a manipulação ambiente e permitir a discussão, a partilha e a colaboração no processo da elaboração das construções.

Para a cognição distribuída o conhecimento é uma representação da realidade que se atinge através de memórias, factos e informação disseminados no ambiente circundante (Y. Rogers, 1997); sendo propósito educativo modelar a troca de informação entre “representações” - presentes tanto no espaço mental interior como exteriormente - e as actividades cognitivas vistas como cálculos mentais através da propagação de estados representacionais de acordo com uma lógica de que “comunicação é conhecimento” e relação seja interna – como representação daquilo que já se sabe – seja externa, por contacto com as “representações” alheias (os diversos indivíduos trabalhando junto numa tarefa colaborativa comum possuem naturalmente diferentes tipos de saberes e experiências que os levam a envolver-se em interacções mutuamente enriquecedoras e, pondo as diferentes competências em comum, a executar melhor as tarefas; sendo o todo maior do que a soma das partes).

Em consonância com as críticas mais comuns, de que o conectivismo peca por um pendor excessivamente filosofante, contentando-se em explicar o mecanismo de formação do conhecimento pela conexão sem chegar a responder à questão essencial de o que é que torna a informação significativa, na nossa perspectiva, conforme ressaltado por Downes (2005) é ainda assim sobretudo de valor como teoria sobre a natureza do conhecimento que pretende responder às questões sobre como ele se forma e ocorre; e qual a sua natureza além dos conteúdos.

No estado corrente da facilidade de acesso à informação, mais importante do que saber como ela se transmite ou deglute é a capacidade de a seleccionar e instantaneamente aferir que porções delas à disposição merecem ser perseguidas ou colocadas de lado. Nesta medida, o conectivismo advoga (G. Siemens, 2004) a necessidade de nos movermos além das acepções clássicas do ensino-aprendizagem (ver Tabela 4 e Tabela 6), sugerindo a obsolescência da concepção do conhecimento como um “estado a que se chega”, comum tanto ao objectivismo do behaviorismo (a realidade tem uma existência externa ao indivíduo, sendo apreendida pela experiência, pelo que o que importa é o resultado abdicando a pedagogia de tentar compreender os mecanismos internos para se centrar nos meios de alteração do comportamento) como ao pragmatismo que orienta o cognitivismo (o sentido está na utilidade ou efeito prático sendo o conhecimento um constructo simbólico e mental e a preocupação da pedagogia desenvolver os meios para o inserir na memória do aprendente) e mesmo ao interpretativismo em que se funda o construtivismo (a realidade é uma construção individual, interior, sendo o conhecimento construído e o propósito da pedagogia fornecer fórmulas autênticas para a criação de significado).

Assim, o conectivismo invoca a teoria do caos para propor que o significado se impõe e a tarefa que cabe ao aprendente é tanto “construi-lo” como “reconhece-lo”; uma vez que se trata de uma construção partilhada entre uma comunidade de falantes, a sua apreensão é matéria de reconhecimento de padrões, uniformidades e nexos lógicos pré-existentes e a participação dialógica em comunidades de aprendizagem ou prática um instrumento de alinhamento do conhecimento pessoal com o conhecimento público.

Tabela 4 - Mudança de paradigmas na educação

 

Passado

Presente

Emergente

Teorias de Aprendizagem

Behaviorismo
Objectivismo

Cognitivismo
Construtivismo

Navegacionismo
Conectivismo

Posição da Informação

Recolha de Informação

Geração de Informação

Navegação na Informação

Acção sobre a Informação

Fornecimento de Informação

Gestão da Informação

Facilitação da Informação

Adaptado de acordo com Brown (2005a).

Na superabundância da informação, é preciso agir mesmo na ausência da plena compreensão; a “acção é necessária sem aprendizagem pessoal”, existindo inteligência na simples selecção do que se lê e do que se descarta. A promoção de competências de “metacognição”, na acepção por ex. de Pinto (2001), como “conhecimentos de uma pessoa sobre o âmbito e limites da mente humana e dos respectivos processos cognitivos” e de “auto-regulação”, surgem como condição da aprendizagem e da capacidade de abstracção e universalização.

O conectivismo partilha com o construtivismo a ideia de que o conhecimento não é adquirido nem tem existência como se fosse uma “coisa”; difere no entanto dele na medida em que também não o entende como “prepositivo”, no sentido cognitivista e de acordo com o processo piagetiano de adaptação e organização. Para os conectivistas o conhecimento consiste literalmente no conjunto das conexões formandas pelas acções e pela experiência; pode consistir em parte em estruturas linguísticas, mas na sua essência não está baseado nelas. As conexões formam-se espontaneamente, por um processo de associação natural e não de construção.

Em suma: o conectivismo implica uma pedagogia que procura descrever as condições de ocorrência de redes bem sucedidas (caracterizadas pelas suas propriedades de autonomia, abertura e conectividade) e identificar as práticas que a elas conduzem. O “conhecimento conectivo” assume uma forma além da clássica dicotomia quantitativo-qualitativo; à margem do “idealismo” para que, na forma radical, remete o construtivismo (Castanon, 2005), recupera e expande ideias do associacionismo em como o conhecimento é atingido através da associação de ideias seguindo os princípios de semelhança, continuidade espacial e temporal e causalidade (veja-se ainda a tabela de síntese no Apêndice 9: Comparação do conectivismo com as teorias de aprendizagem dominantes no passado).

 


[33] Página pessoal: http://www.elearnspace.org

[34] Página pessoal: http://www.downes.ca/

[35] No original networked (ou seja, “ligado em rede”, “conectado”). Parece-nos no entanto que soltamente entendido o termo português “enredado” (“envolto em rede”) é igualmente passível de capturar a realidade descrita, evitando o anglicismo.

[36] Não por acaso, coincidentes com o modelo ARCS de John Keller (com sítio oficial em: http://www.arcsmodel.com/) relativo à necessidade de assegurar a Motivação pela garantia da presença social e pela modelação da aprendizagem assegurando a Atenção, Relevância, Confiança e Satisfação do aprendente. Sendo um aspecto central da aprendizagem à distância, a “motivação” como acção sobre o objecto, manipulação e cooperação já vem aliás de Piaget e da forma como este perspectiva as operações cognitivas e o desenvolvimento em termos senso-motores.

Apêndice 2: Contributo e utilidade das tecnologias móveis para a convivialidade e a desescolarização

A noção de “mobilidade” e a valorização do seu impacto, esforçadamente antecipado de forma em si significativa, devem conforme notado por Pachler (2007, p. 10 e seg.s), ser enquadrados na teoria social. As tecnologias emergem como ferramentas ideológicas que organicamente encarnam valores, sendo necessário avaliar como a ideologia está latente na tecnologia. Tal esforço meta-reflectivo (consoante descrito no Apêndice 1: Da importância do ensino informal, da aprendizagem situada e das comunidades de prática) equivale a perspectivar estruturalmente a educação e as suas teorias como veículos de socialização e de conformidade com os interesses vigentes numa “modernidade” organizativa (Weber chamar-lhe-ia “burocrática) que depende dos sistemas periciais e das garantias simbólicas como mecanismos de descontextualização capazes de manter e alimentar a velocidade da mudança e a separação entre espaço e tempo como condição de existência num mundo “globalizado”. É assim que Giddens propõe o “agenciamento” (português brasileiro) ou “agência” (agency, em inglês) como conceito-chave – de resto, presente na Teoria da Actividade – enquanto reflexividade do agente individual, potenciadora das possibilidades de transformação e/ou reprodução da estrutura social. É na interacção entre “agência” e “estrutura” (proporcionada pela dualidade coerção/facilitação) que são realizados os rearranjos sociais que atribuem particularidades a determinados “sistemas sociais” ou cenários, enquanto actividades localizadas de agentes humanos reproduzidas no tempo e no espaço (Giddens, 2001, p. 18).

As teorias da educação moderna encarnam desta forma uma preocupação com a integração do interaccionismo na importância dada pelos funcionalismo, estruturalismo e marxismo à estrutura e super-estrutura sociais; que subjazem mas não deixam de estar presentes. A valorização da reflexividade individual corresponde – na linha vagamente anarquista de Illich – à necessidade de libertar o cidadão da condição de consumidor passivo de informação, rompendo com as funções clássicas da escola: provisão de cuidados de custódia (a “ama” onde, com a emancipação feminina e a saída da mãe de casa, para o trabalho, as crianças são depositadas); a distribuição das pessoas por ocupações; a assimilação dos valores dominantes e a aquisição das aptidões e conhecimentos colectivamente sancionados (Giddens, 2008, p. 515).

Analogamente, Wolton (2000, p. 78) faz notar a coincidência da Internet enquanto meio de comunicação com o cerne do ideal liberal do indivíduo que tudo controla, podendo desenvolver livremente as suas competências, assegurar o seu destino, cultivar-se, corresponder-se e criar relações sem o menor constrangimento de qualquer estrutura. A valorização da aprendizagem informal e individual, à medida, equivalente ao do it yourself, coincide com o espírito empreendedor do capitalismo.

O novo limite e o novo desafio é o da competência, pois “o acesso a toda a informação não substitui a competência prévia para determinar que tipo de informação procurar e qual o uso a dar-lhe. O acesso directo não suprime a hierarquia do saber e dos conhecimentos” (Wolton, 2000, p. 79). Precisam-se pois de “novas competências” para um novo mercado de trabalho de “manipuladores simbólicos” ou, como diria a União Europeia, “novas competências para novos empregos”.

Na verdade, a típica proposição em mobile learning de um modelo de aprendizagem permanente e situacional – através da “participação periférica legítima”, na formulação de Lave & Wenger (2002, p. 171) - faz mais do que isso: rompe com a ideia desta enquanto processo de internalização – que simplisticamente insulariza o aprendente e reduz o problema educativo a um processo de transmissão e assimilação de dados – para enfatizar o carácter relacional e socialmente negociado do significado e a agência do aprendente activo; passando o locus educativo da aprendizagem como condição para se tornar membro de uma sociedade para a forma como pela participação a condição – e o status e a identidade, para esse efeito – do próprio indivíduo se alteram através das relações em comunidades virtuais.

Na tensão sociológica perene entre acção (individual) e estrutura (social) Ivan Illich interessa hoje à compreensão da forma como a Internet está a mudar a nossa forma de aprender; interessa-nos não só pelo diagnóstico e crítica radical que faz do sistema educativo como pela visão que deles extrai quanto à necessidade de uma nova forma de aprendizagem convivial, com o conhecimento construído em teia ou rede. É sobre esta última ideia, consoante gizada no capítulo IV da sua obra Sociedade sem Escolas (Illich, 1985) bem como nas “Ferramentas para a Convivialidade” ou Tools for Conviviality (Illich, 1973) que nos vamos debruçar na convicção de nelas o autor levar 20 anos de clarividência. Se a capacidade de prever e explicar factos supervenientes relevam de uma teoria, a nosso ver, é razão suficiente para lhe atribuir valor.

No seu pensamento, Illich parte da constatação da circunstancialidade histórica da identificação da “educação” com a instituição “escola” e da própria noção de segregação funcional pela idade subjacente à “infância”, como realidades recentes, adstritas a um modelo específico de organização social da era industrial, e portanto que não devem necessariamente ser tidas como “dados adquiridos” e inextricáveis - a “escola” como processo que requer assistência a tempo integral, um currículo obrigatório, em certa idade e com a presença de um professor.

Pelo contrário sempre foi perene o facto de a maior parte dos conhecimentos serem adquiridos pelo contacto social, sem enquadramento formal nem “professores” especializados num espaço fechado em que assumem o papel de guardião e “mestre-de-cerimónias” que conduz o aluno através do labirinto formalizado dos saberes, orientando-o ora numa direcção ora noutra, no ingresso iniciático em áreas de saber a especialização o domínio de cujos léxicos o limitará futuramente; o papel de “moralista” que substitui os pais e propõe os valores do certo e do errado, socializando pela “educação cívica” para a integração e deveres perante o Estado; o “terapeuta”, enfim, sob o manto da relação pedagógica, autorizado a investigar a vida particular de seus alunos a fim de ajudá-los a tornarem-se “pessoas”.

Ao arrepio deste processo em que o conhecimento é reificado e os saberes surgem como “bens” que o professor monopoliza, troca e de que obtém rendimento, para Illich, um sistema educativo deve perseguir três grandes desígnios: dar a todos que queiram aprender acesso aos recursos disponíveis, em qualquer época da sua vida; capacitar a todos os que queiram partilhar o que sabem a encontrar os que queiram aprender algo deles e, finalmente, dar oportunidade a todos os que queiram tornar público um assunto que tenham possibilidade de que seja conhecido.

A “desescolarização” da sociedade corresponde não há demissão da obrigação social de promover o acesso ao conhecimento, mas sim ao abandono de um modelo assente no seu consumo passivo e num “currículo oculto” que substitui a verdadeira emancipação pessoal e individual pela sujeição à ordem social e pela promoção do conformismo – com base, também, na premissa de que “igualdade de oportunidades” é sinónimo de “igualdade no acesso à escola”, sendo depois apenas “natural” o maior ou menor insucesso de cada um, justificado pela capacidade de se distinguir e obter bons resultados nela (lógica falaciosa desde logo porque ela não se mostra capaz de prover as reais competências e porque a todo o processo subjaz o espartilhamento da criatividade individual).

Conforme nota Olga Pombo (2005), “a pedagogia pretende resolver os problemas do ensino ao nível das técnicas de comunicação entre professor e aluno. Como se as coisas se passassem, ou no interior da sala de aula, ou naquilo a que se chama a relação professor/aluno. Ora uma das vantagens de Ivan Illich é que ele coloca a escola numa perspectiva eminentemente política.” A escola surge como instituição só pensável ao lado de outras e deve na sua concepção ser articulada com elas.

Na perspectiva de Illich a alternativa é um modelo de transmissão do conhecimento “convivial”, que se afaste da noção segmentada e hierarquizada desta, para valorizar as parcerias cognitivas e se desloque para o ambiente; para a criação de um enquadramento educativo. Como ele escreve “Não se deve começar com a pergunta: «O que deve alguém aprender?», mas com a pergunta: «Com que espécie de pessoas e coisas gostariam os aprendizes de entrar em contacto para aprender?"

É assim necessário criar novas redes, estruturas relacionais deliberadamente montadas, em que a tecnologia seja usada para tornar a liberdade de expressão, de reunião e de imprensa verdadeiramente universal e plenamente educativa. Para este efeito, e neste plano, Illich é de novo profundamente visionário, antecipando e de facto inspirando as formulações da aprendizagem situada e do conhecimento distribuído, ao fazer notar que “a informação pode ser armazenada nas coisas e nas pessoas”(1985, p. 88); sendo que num sistema educacional bem gizado “o acesso às coisas deve estar disponível ao simples aceno do aprendiz, enquanto o acesso aos informantes requer, ainda, o consentimento de outros”, devendo as críticas provir de dois lados: colegas ao mesmo nível (comunidade de prática) e especialistas (tutores-orientadores). Temos aqui, em meados da década de 70, já as bases de todo o modelo subsequente do e-Learning e, em boa medida, do mobile learning.

Invertendo a lógica curricular, ao serviço de uma aprendizagem permanente auto-dirigida e verdadeiramente “à medida”, seria função do sistema educativo assegurar o acesso a recursos educativos através de quatro tipos de “redes”: Serviço de consultas a objectos educacionais; Intercâmbio de habilidades; Encontro de colegas e Serviço de Consulta a Educadores em Geral.

Não nos alongaremos na descrição de cada um destes quatro tipos de redes; basta para o fim em vista dizer que o primeiro antevê através dos repositórios de “objectos educacionais” raciocínios subsequentemente aplicados aos LMS e à granularidade do SCORM; que o “intercâmbio de habilidades”, para além de ecoar nas comunidades de prática, corresponde, a jusante do e-Learning por ex. à prática das universidades seniores; que o “encontro de colegas” ou parceiros assentaria em redes de partilha tanto de interesses (segundo, por exemplo, a filosofia corrente do Twine onde as pessoas se agrupam em função das matérias que estudam e vão partilhando resultados) como finalmente a percepção do “serviço de  consulta de educadores” se adequa à realidade corrente; de facto, para o autor trata-se não só de facilitar o acesso ao especialista com o domínio pedagógico de um dado conteúdo ou ao primus inter pares capaz de “andaimar” jornadas intelectuais exploratórias, como ainda adestrar os aprendentes na própria capacidade de auto-regulação e na criação e maneio das redes (formação de professores em TIC).

As tecnologias da comunicação móveis permitem-nos recuperar e concretizar estas ideias em termos práticos com uma facilidade que na altura se não antevia; de facto quando fala em “tecnologias”, antes do advento do computador pessoal, Illich reduz a função, mediante consulta, a uma centralizadora, de triagem da informação e – designadamente – da manutenção de directórios segundo perfis de competência, fosse de pares fosse de especialistas; complementando-a com uma previsão de “boletins informativos e anúncios classificados nos jornais.”

Estão hoje reunidas as condições para operar os objectivos desejados por Illich: a libertação no acesso aos objectos educativos, abolindo o controlo de quem proclamou que “aprender é ser obrigado a frequentar uma dada reunião” sobre os valores educacionais; a promoção da partilha de “habilidades” (de preferência às “competências”, portanto, admitindo a qualificação não formal dos parceiros cognitivos); a disponibilização de recursos críticos e criativos; e a liberdade para o indivíduo modelar as suas expectativas próprias e não de se resignar a imposições curriculares dadas externamente.

Sedutor como é, indo fundo ao âmago da questão educativa, entrosada com o problema político, e fornecendo algumas pistas orientadoras para um modelo de aproveitamento pedagógico do mobile learning, conforme releva do parágrafo anterior, a proposta deste “torvelinho libertador” levanta no entanto alguns problemas práticos. Do nosso ponto de vista, por um idealismo excessivo que não tem suficientemente em conta o problema da “motivação”; bastante central a qualquer proposta de aprendizagem auto-dirigida mas também crítico quando se assume a “bondade” inerente à partilha de habilidades. É que quem tem uma “habilidade” pode por natural egoísmo preferir guardá-la para si; como “vantagem competitiva” no mercado de trabalho. Por outro lado, admitir que a “criatividade” nasce simplesmente porque o indivíduo foi livre de perseguir o seu próprio caminho oculta o facto de que, por cada “artista” e por cada inovação que nascesse na adopção generalizada de tal sistema uma fatia mais do que proporcional provavelmente sucumbiria à desorientação e, com o advento da Internet, à mera gandaia informativa.

Ainda que, conforme sugere Nyíri  (2002) num artigo peculiarmente designado “Em direcção a uma filosofia do mobile learning”, seja uma simplificação cobarde e uma resignação cómoda pretender uma demissão sobre pretexto de que o m-Learning pecará por se quedar pelo patamar do fornecimento de informação sem promover a construção de conhecimento, na medida em que as TIC não se resumem aos dois primeiros termos (Tecnologias da Informação) mas incluem um terceiro (Comunicação) em função do qual naturalmente alguma coisa de bom virá, uma vez que o “Conhecimento” é informação em contexto e que a simples disponibilização da informação nele gera mais-valias.

Adoptando portanto uma óptica de acordo com a qual educação e comunicação partilham características íntimas, Nyíri embora partindo de um referencial diferente, e mormente do pragmatismo de Dewey, chega a conclusões semelhantes no que toca a forma como a “mobilidade” e a vivência das comunicações e ambientes móveis vem impactar os pressupostos educativos relativos ao contexto; sobretudo porque, correntemente, os jovens adolescentes passaram a partilhar e a ter acesso aos mesmíssimos espaços virtuais dos adultos.

A correlação comunicação-educação é aliás antiga e alvo de questionamento recorrente, cada vez que existe um progresso nos meios da primeira. Já vimos noutra parte deste trabalho como Sartori nos fala do homo videns; da mesma maneira McLuahn prognosticava que o advento da televisão destruiria o monopólio do livro e que os meios audiovisuais suplantariam – como suplantaram – a imprensa enquanto veículos informativos. A sala de aula, porém, permaneceu intocada, tendo absorvido o novo meio com absoluto pacifismo e em termos puramente instrumentais ou complementares. Na medida deste exemplo, feito mesmo o desconto do potencial dialógico directo que a Internet tem e a TV não tinha, a proposta da clivagem entre as formas de comunicação escrita e audiovisual não nos parece ter valor operacional suficiente para propor um “fim da educação” (na acepção de Postman) fundado na ideia de que o que justificava a escolarização era a literacia e o império do texto com a substituição do qual deixaria de ser tão premente; não obviamente numa fase adolescente da vida, mas em fases de maior maturidade.

É certo que a separação disciplinar é uma imposição artificiosa entre saberes por vocação comunicantes, parece porém incerto e até bastante duvidoso admitir que se passará do “saber dos especialistas” para um regresso ao paradigma do saber unificado e omnicomunicante (até porque este ter uma matriz escolástica, religiosa, a que não parece interessante regressar; sentido aliás da defesa da “modernidade” por ex. por Habermas contra o risco do retorno romântico a um pós-modernismo hedonista e excessivamente céptico). Não devemos confundir o advento do “generalista” e muito menos a tendência, já antiga, em especial em Ciências Sociais, para a transdisciplinaridade, como dispensa do sistema académico existente em nome de uma realidade vaga. Afinal, quando e se se propõe que o desafio está em dotar o aprendente da capacidade de seleccionar o que lhe interesse, é porque se reconhece que o universo de saberes se tornou simplesmente demasiado vasto e complexo mas que qualquer indivíduo o possa abarcar de outra forma que não superficialmente. A figura do especialista permanece indispensável.