paradigmas

I.3 Na sinfonia dos saberes

Como fenómeno e campo de estudo, segundo a lógica hibridista imperante (cf. Apêndice 3: Acepções do Saber. Currículo e tecnologias), a aprendizagem móvel convoca um conjunto transdisciplinar de saberes que levam a que possa mais produtivamente ser definida, além de uma circunscrição formal, a partir do enunciado das suas variáveis. Neste plano o Prof. Laouris (Laouris & Eteokleous, 2005) avançou a seguinte função da “aprendizagem móvel” que nos parece um ponto de partida especialmente útil:

Assim, a ocorrência do fenómeno mobile learning (“MLearn”) pode ser percepcionada (e definida) como função agregada de sete grandes variáveis que se exponeciam: tempo (t), espaço (s), ambiente de aprendizagem (LE), conteúdo (c), tecnologias da informação (IT), capacidades mentais do aprendente (MM) e método (m).

Postas as coisas neste enquadramento, é desde logo de notar que as “Tecnologias” são apenas 1/7 da dimensão a ter em conta na análise; elas correlacionam-se com o espaço na medida em que a sua disponibilidade varia nele (por ex. pode ser que as redes UMTS, atinjam uma cobertura de 100% de um território, não é porém certo que cada utilizador tenha sempre acesso a elas – por hipótese por ter apenas disponível um telemóvel com acesso GPRS ou por restrição de dadas condições morfológicas do terreno que imediatamente o rodeie); correlacionam-se igualmente com o método pedagógico na medida em que devem ter o potencial de se adaptarem às suas necessidades consoante o tipo de aprendizagem que se queira atingir.

Por outro lado, o método é ele próprio função do modelo pedagógico e do paradigma filosófico que se adopte; veremos adiante que existindo neste domínio algum consenso quanto à teoria da actividade e a uma recuperação das ideias de Vygotsky relativas ao carácter social da aprendizagem o certo é que existem múltiplas encarnações da sua aplicação; consoante pelo menos meia dúzia de paradigmas, identificados entre outros por Naismith, Sharples, Vavoula, & Lonsdale (2004).

Já no tocante à selecção do conteúdo, quando o m-Learning seja chamado a uma aplicação formal (por ex. como extensão das actividades em sala de aula), deriva de uma didáctica condicionada pela percepção da relevância educativa e da responsabilidade social, tendo presente a negociação entre o interesse pessoal e a imagem colectiva do que é importante saber, a par, na lógica construtivista, da necessidade de atender à idiossincrasia do indivíduo – segundo o modelo, popular em e-Learning, patente por ex. nos princípios elementares de instrução de Merrill (Lima & Capitão, 2003, p. 103 e seg.s), para quem qualquer conhecimento se constrói sobre o conhecimento prévio; sendo, em consonância com a teoria da inclusão de David Ausubel, a experiência anterior o elemento mais determinante na integração do novo conhecimento.

Este “lastro” (de conhecimento prévio) – ou “âncora” – condiciona as capacidades mentais na medida em que limita a zona de desenvolvimento próximo a que o novo conhecimento se pode estender. Mas não é nisso único. A capacidade mental está igualmente condicionada pelas preferências pessoais; pela atenção; pela motivação e pelos atributos. Estes últimos, equiparados a skills (habilidades), são especialmente condicionantes numa aplicação informal como é o caso falando de aprendizagem situacional, em contextos abertos, com solicitações que desviam a capacidade de prender a atenção e de progredir segundo as inclinações individuais.

A mesma função pode ser usada para perspectivar as disciplinas de que o novel campo se pode socorrer (vide Ilustração 3). Assim, Mente e método são o território preferencial onde a Pedagogia e as Ciências da Educação são chamadas a intervir; entre as quais se releva o papel charneira da Psicologia da Educação como “disciplina que estuda as mudanças psicológicas que se produzem nos indivíduos como consequência da sua participação em situações e actividades educativas” (Coll & Monereo, 2008, p. 39).

Ilustração 3 - Áreas do saber que contribuem para o estudo e avanço do mobile learning. Muito remotamente inspirado em Günther (2003, p. 275)


O “espaço” é alvo tradicional de atenção pela Geografia, mormente Urbana, de onde derivam aliás os ensinamentos relativos à Sociedade em Rede – um dos seus expoentes, o catalão Emanuel Castells, tem-na não por acaso como formação.

Dois conceitos críticos podem ainda ser tomados por empréstimo em auxílio da definição da problemática do mobile learning, de outras tantas disciplinas: “mobilidade” e “affordance”; o primeiro originário da Demografia e da Geografia Humana, o segundo enquadrável na Psicologia Ambiental

Concomitantemente, a Sociologia debruça-se sobre os problemas da identidade na sua relação com a modernidade – en passant, em que por ex. o britânico Anthony Giddens, autor do porventura mais divulgado manual da disciplina entre nós é arauto[19] – bem como os problemas da socialização e formação de grupos; a que a Antropologia Cultural acresce o apport da “aculturação” e do conceito operacional da “cultura” como constructo e deriva social distintiva da condição humana bem como uma explicação sobre a manipulação dos artefactos e as construções simbólicas.

Ainda de entre as ciências da educação, a Pedagogia e a Didáctica, centradas por um lado na formação do indivíduo e na educação da realidade pessoal e na reflexão sobre os métodos do ensino, por outro, contribuem respectivamente para a axiologia e os contornos da relação pedagógica e para a concepção do material, conteúdos e actividades adaptados.

A solução do problema do “conteúdo” conquanto passe pela necessidade da sua adaptação às tecnologias da informação converte-se num problema de usabilidade que convoca os saberes da informática na variante do estudo da interacção homem-computador (HCI, Human Computer Interaction) bem como depende da engenharia de sistemas e redes para a solução dos problemas da conectividade.

A Economia e a Gestão convergem nas problemáticas da cultura organizacional e da administração da informação.

As Ciências da Comunicação, finalmente, ocupam-se do enquadramento e impacto dos ditos Novos Media no contexto dos antigos estudos sobre os Mass Media e designadamente da problemática do processamento linguístico.

 


[19] Para um desenvolvimento desta colação veja-se Mobile learning: towards a research agenda (Pachler, 2007, p. 134 e seg.s).

II.2 Do construtivismo ao construcionismo ao conectivismo

Na história das ideias, as correntes de pensamento com “ismo” no sufixo tendem a ser matéria de cisma, constituindo fracturas marcantes no pensamento e na forma de conceber as relações sociais e a condição individual perante elas (e.g, na política, o “comunismo” versus o “capitalismo”; ou, na educação, o “behaviorismo” versus o “construtivismo”). O “conectivismo” que aqui passaremos brevemente em revista corresponde a um corpo de ideias que tem vindo a ser desenvolvido com esse nome desde 2004 essencialmente por dois autores, ambos canadianos – George Siemens[33] e Stephen Downes[34]. Não é seguro que venha futuramente a conquistar um lugar como “ismo” destacado das teorias da aprendizagem, no entanto, pelas preocupações que trás na adaptação entre a nova organização da sociedade em rede e os modelos de educação que ela deve seguir parece-nos digno de nota.

Na definição dos seus proponentes “o conectivismo é essencialmente a asserção de que o conhecimento é enredado[35] e distribuído, e que o acto de aprender é a criação de e navegação em redes” (George Siemens, 2008a) ou a “teoria de que o conhecimento e a aprendizagem podem ser descritos e explicados usando princípios de redes”, sendo o “acto de aprender equivalente ao desenvolvimento de uma certa configuração neural” (Downes, 2005) e o conhecimento um processo de reconhecimento de padrões; de construção de significado pelo estabelecimento de conexões.

Assumindo que uma ideia nova é mais frequentemente a recuperação de ideias velhas em novos contextos - e portanto que os segundos mudam mais do que as primeiras, meramente recriadas (George Siemens, 2008b) – o conectivismo declara-se herdeiro compatível com a teoria da actividade e a ideia de acordo com a qual os artefactos medeiam a interacção social; da aprendizagem situacional; da teoria social cognitiva de Bandura (de onde é importante reter o processo de modelling como aprendizagem por observação, com corolário na garantia da Atenção, Retenção, Reprodução e Motivação[36]), das ideias sobre a cognição distribuída, dos teóricos dos Media como McLuhan e das teorias do caos e da complexidade – à semelhança, entre nós, de Coutinho & Junior (2007) - bem como das teorias sociológicas mais recentes sobre a sociedade em rede para finalmente propor como características especificamente suas e inovadoras:

  1. A aplicação de princípios da organização em rede à definição tanto do Conhecimento como da Aprendizagem; o primeiro entendido como padrão particular de relações; a segunda como criação de novas ligações/conexões e padrões;
  2. A faculdade de unificar os níveis de abordagem ao problema da aprendizagem biológica (à maneira do cognitivismo de Piaget, com as suas “etapas do desenvolvimento”) e cultural, propondo que a mesma estrutura de aprendizagem que cria as ligações neurais pode ser encontrada na maneira como associamos ideias e nos ligamos a outras pessoas e fontes de informação [tese para que encontramos igualmente suporte em Goleman (2006), com a sua concepção da inteligência como produto da “cognição social” e a ênfase que coloca na necessidade de garantir ao longo da vida “conexões saudáveis” bem como no papel da “conectividade correctiva” à luz da qual podemos entender a participação em comunidades de aprendizagem];
  3. A colocação do foco na inclusão da tecnologia como parte da nossa distribuição da cognição (para esse efeito, valorizando as bases de dados a par da interacção social; na medida em que se o “conhecimento é o estabelecimento de conexões” ele pode ser logrado tanto a partir da segunda como das primeiras – contribuindo para a unificação das dicotomias “sociabilidade”-“conteúdos”; “relação pedagógica”-“limites da máquina enquanto facilitador da aprendizagem”);
  4. Especial reconhecimento da importância do contexto e do directo impacto da sua natureza fluida na aprendizagem; isto é, de que o ambiente e a forma como influencia as relações estabelecidas altera os resultados da aprendizagem e é mais importante do que qualquer noção de “conhecimento pré-determinado”. Proposição das noções de ecossistema ou “ecologia de aprendizagem” - ambiente que fomenta a criação e manutenção de comunidades e redes de aprendizagem.
  5. Argumentação de que a abundância e rápida circulação da informação eleva a necessidade de construção de significado, coerência e compreensão à preocupação primordial da aprendizagem; portanto, tentativa de conciliar as mudanças na informação e comunicação com a educação.

Se para Jonassen, os computadores são “ferramentas que ajudam a pensar”, para os conectivistas os dispositivos móveis em rede devem ser vistos como “ferramentas que ajudam a estabelecer conexões significativas”. Da mesma maneira, se para o construcionismo de Papert as mãos estão conectadas ao cérebro, aprendendo-se tão melhor quanto mais pela manipulação prática e pela construção de produtos com significado pessoal, para o conectivismo os cérebros ligam-se naturalmente uns aos outros; ensino e aprendizagem são sociais por natureza e o conhecimento, mais do que estar “na rede” é “a rede” (recuperando o chavão de McLuhan - “o Meio é a mensagem” - a rede é o conhecimento) e aprender uma questão de estabelecer ligações dentro de ecologias do conhecimento pela sobreposição dos nichos de aprendizagem pessoal (campo dos ambientes pessoais de aprendizagem, a que regressaremos adiante) com os múltiplos círculos de interesses em que se participa.

Apoiando-se na teoria da cognição distribuída, consoante avançada por Hutchins (1996), o “construcionismo distribuído” de Resnick (1996) propunha aliás já algo de parecido; reconhecendo que a cognição e a inteligência não são propriedades de um indivíduo para sim o resultado da interacção do indivíduo com o ambiente circundante, composto tanto por pessoas como por artefactos. Sentido em que os dispositivos de comunicação móveis surgem como ferramentas que devem auxiliar a manipulação ambiente e permitir a discussão, a partilha e a colaboração no processo da elaboração das construções.

Para a cognição distribuída o conhecimento é uma representação da realidade que se atinge através de memórias, factos e informação disseminados no ambiente circundante (Y. Rogers, 1997); sendo propósito educativo modelar a troca de informação entre “representações” - presentes tanto no espaço mental interior como exteriormente - e as actividades cognitivas vistas como cálculos mentais através da propagação de estados representacionais de acordo com uma lógica de que “comunicação é conhecimento” e relação seja interna – como representação daquilo que já se sabe – seja externa, por contacto com as “representações” alheias (os diversos indivíduos trabalhando junto numa tarefa colaborativa comum possuem naturalmente diferentes tipos de saberes e experiências que os levam a envolver-se em interacções mutuamente enriquecedoras e, pondo as diferentes competências em comum, a executar melhor as tarefas; sendo o todo maior do que a soma das partes).

Em consonância com as críticas mais comuns, de que o conectivismo peca por um pendor excessivamente filosofante, contentando-se em explicar o mecanismo de formação do conhecimento pela conexão sem chegar a responder à questão essencial de o que é que torna a informação significativa, na nossa perspectiva, conforme ressaltado por Downes (2005) é ainda assim sobretudo de valor como teoria sobre a natureza do conhecimento que pretende responder às questões sobre como ele se forma e ocorre; e qual a sua natureza além dos conteúdos.

No estado corrente da facilidade de acesso à informação, mais importante do que saber como ela se transmite ou deglute é a capacidade de a seleccionar e instantaneamente aferir que porções delas à disposição merecem ser perseguidas ou colocadas de lado. Nesta medida, o conectivismo advoga (G. Siemens, 2004) a necessidade de nos movermos além das acepções clássicas do ensino-aprendizagem (ver Tabela 4 e Tabela 6), sugerindo a obsolescência da concepção do conhecimento como um “estado a que se chega”, comum tanto ao objectivismo do behaviorismo (a realidade tem uma existência externa ao indivíduo, sendo apreendida pela experiência, pelo que o que importa é o resultado abdicando a pedagogia de tentar compreender os mecanismos internos para se centrar nos meios de alteração do comportamento) como ao pragmatismo que orienta o cognitivismo (o sentido está na utilidade ou efeito prático sendo o conhecimento um constructo simbólico e mental e a preocupação da pedagogia desenvolver os meios para o inserir na memória do aprendente) e mesmo ao interpretativismo em que se funda o construtivismo (a realidade é uma construção individual, interior, sendo o conhecimento construído e o propósito da pedagogia fornecer fórmulas autênticas para a criação de significado).

Assim, o conectivismo invoca a teoria do caos para propor que o significado se impõe e a tarefa que cabe ao aprendente é tanto “construi-lo” como “reconhece-lo”; uma vez que se trata de uma construção partilhada entre uma comunidade de falantes, a sua apreensão é matéria de reconhecimento de padrões, uniformidades e nexos lógicos pré-existentes e a participação dialógica em comunidades de aprendizagem ou prática um instrumento de alinhamento do conhecimento pessoal com o conhecimento público.

Tabela 4 - Mudança de paradigmas na educação

 

Passado

Presente

Emergente

Teorias de Aprendizagem

Behaviorismo
Objectivismo

Cognitivismo
Construtivismo

Navegacionismo
Conectivismo

Posição da Informação

Recolha de Informação

Geração de Informação

Navegação na Informação

Acção sobre a Informação

Fornecimento de Informação

Gestão da Informação

Facilitação da Informação

Adaptado de acordo com Brown (2005a).

Na superabundância da informação, é preciso agir mesmo na ausência da plena compreensão; a “acção é necessária sem aprendizagem pessoal”, existindo inteligência na simples selecção do que se lê e do que se descarta. A promoção de competências de “metacognição”, na acepção por ex. de Pinto (2001), como “conhecimentos de uma pessoa sobre o âmbito e limites da mente humana e dos respectivos processos cognitivos” e de “auto-regulação”, surgem como condição da aprendizagem e da capacidade de abstracção e universalização.

O conectivismo partilha com o construtivismo a ideia de que o conhecimento não é adquirido nem tem existência como se fosse uma “coisa”; difere no entanto dele na medida em que também não o entende como “prepositivo”, no sentido cognitivista e de acordo com o processo piagetiano de adaptação e organização. Para os conectivistas o conhecimento consiste literalmente no conjunto das conexões formandas pelas acções e pela experiência; pode consistir em parte em estruturas linguísticas, mas na sua essência não está baseado nelas. As conexões formam-se espontaneamente, por um processo de associação natural e não de construção.

Em suma: o conectivismo implica uma pedagogia que procura descrever as condições de ocorrência de redes bem sucedidas (caracterizadas pelas suas propriedades de autonomia, abertura e conectividade) e identificar as práticas que a elas conduzem. O “conhecimento conectivo” assume uma forma além da clássica dicotomia quantitativo-qualitativo; à margem do “idealismo” para que, na forma radical, remete o construtivismo (Castanon, 2005), recupera e expande ideias do associacionismo em como o conhecimento é atingido através da associação de ideias seguindo os princípios de semelhança, continuidade espacial e temporal e causalidade (veja-se ainda a tabela de síntese no Apêndice 9: Comparação do conectivismo com as teorias de aprendizagem dominantes no passado).

 


[33] Página pessoal: http://www.elearnspace.org

[34] Página pessoal: http://www.downes.ca/

[35] No original networked (ou seja, “ligado em rede”, “conectado”). Parece-nos no entanto que soltamente entendido o termo português “enredado” (“envolto em rede”) é igualmente passível de capturar a realidade descrita, evitando o anglicismo.

[36] Não por acaso, coincidentes com o modelo ARCS de John Keller (com sítio oficial em: http://www.arcsmodel.com/) relativo à necessidade de assegurar a Motivação pela garantia da presença social e pela modelação da aprendizagem assegurando a Atenção, Relevância, Confiança e Satisfação do aprendente. Sendo um aspecto central da aprendizagem à distância, a “motivação” como acção sobre o objecto, manipulação e cooperação já vem aliás de Piaget e da forma como este perspectiva as operações cognitivas e o desenvolvimento em termos senso-motores.