novos media

I.3 Na sinfonia dos saberes

Como fenómeno e campo de estudo, segundo a lógica hibridista imperante (cf. Apêndice 3: Acepções do Saber. Currículo e tecnologias), a aprendizagem móvel convoca um conjunto transdisciplinar de saberes que levam a que possa mais produtivamente ser definida, além de uma circunscrição formal, a partir do enunciado das suas variáveis. Neste plano o Prof. Laouris (Laouris & Eteokleous, 2005) avançou a seguinte função da “aprendizagem móvel” que nos parece um ponto de partida especialmente útil:

Assim, a ocorrência do fenómeno mobile learning (“MLearn”) pode ser percepcionada (e definida) como função agregada de sete grandes variáveis que se exponeciam: tempo (t), espaço (s), ambiente de aprendizagem (LE), conteúdo (c), tecnologias da informação (IT), capacidades mentais do aprendente (MM) e método (m).

Postas as coisas neste enquadramento, é desde logo de notar que as “Tecnologias” são apenas 1/7 da dimensão a ter em conta na análise; elas correlacionam-se com o espaço na medida em que a sua disponibilidade varia nele (por ex. pode ser que as redes UMTS, atinjam uma cobertura de 100% de um território, não é porém certo que cada utilizador tenha sempre acesso a elas – por hipótese por ter apenas disponível um telemóvel com acesso GPRS ou por restrição de dadas condições morfológicas do terreno que imediatamente o rodeie); correlacionam-se igualmente com o método pedagógico na medida em que devem ter o potencial de se adaptarem às suas necessidades consoante o tipo de aprendizagem que se queira atingir.

Por outro lado, o método é ele próprio função do modelo pedagógico e do paradigma filosófico que se adopte; veremos adiante que existindo neste domínio algum consenso quanto à teoria da actividade e a uma recuperação das ideias de Vygotsky relativas ao carácter social da aprendizagem o certo é que existem múltiplas encarnações da sua aplicação; consoante pelo menos meia dúzia de paradigmas, identificados entre outros por Naismith, Sharples, Vavoula, & Lonsdale (2004).

Já no tocante à selecção do conteúdo, quando o m-Learning seja chamado a uma aplicação formal (por ex. como extensão das actividades em sala de aula), deriva de uma didáctica condicionada pela percepção da relevância educativa e da responsabilidade social, tendo presente a negociação entre o interesse pessoal e a imagem colectiva do que é importante saber, a par, na lógica construtivista, da necessidade de atender à idiossincrasia do indivíduo – segundo o modelo, popular em e-Learning, patente por ex. nos princípios elementares de instrução de Merrill (Lima & Capitão, 2003, p. 103 e seg.s), para quem qualquer conhecimento se constrói sobre o conhecimento prévio; sendo, em consonância com a teoria da inclusão de David Ausubel, a experiência anterior o elemento mais determinante na integração do novo conhecimento.

Este “lastro” (de conhecimento prévio) – ou “âncora” – condiciona as capacidades mentais na medida em que limita a zona de desenvolvimento próximo a que o novo conhecimento se pode estender. Mas não é nisso único. A capacidade mental está igualmente condicionada pelas preferências pessoais; pela atenção; pela motivação e pelos atributos. Estes últimos, equiparados a skills (habilidades), são especialmente condicionantes numa aplicação informal como é o caso falando de aprendizagem situacional, em contextos abertos, com solicitações que desviam a capacidade de prender a atenção e de progredir segundo as inclinações individuais.

A mesma função pode ser usada para perspectivar as disciplinas de que o novel campo se pode socorrer (vide Ilustração 3). Assim, Mente e método são o território preferencial onde a Pedagogia e as Ciências da Educação são chamadas a intervir; entre as quais se releva o papel charneira da Psicologia da Educação como “disciplina que estuda as mudanças psicológicas que se produzem nos indivíduos como consequência da sua participação em situações e actividades educativas” (Coll & Monereo, 2008, p. 39).

Ilustração 3 - Áreas do saber que contribuem para o estudo e avanço do mobile learning. Muito remotamente inspirado em Günther (2003, p. 275)


O “espaço” é alvo tradicional de atenção pela Geografia, mormente Urbana, de onde derivam aliás os ensinamentos relativos à Sociedade em Rede – um dos seus expoentes, o catalão Emanuel Castells, tem-na não por acaso como formação.

Dois conceitos críticos podem ainda ser tomados por empréstimo em auxílio da definição da problemática do mobile learning, de outras tantas disciplinas: “mobilidade” e “affordance”; o primeiro originário da Demografia e da Geografia Humana, o segundo enquadrável na Psicologia Ambiental

Concomitantemente, a Sociologia debruça-se sobre os problemas da identidade na sua relação com a modernidade – en passant, em que por ex. o britânico Anthony Giddens, autor do porventura mais divulgado manual da disciplina entre nós é arauto[19] – bem como os problemas da socialização e formação de grupos; a que a Antropologia Cultural acresce o apport da “aculturação” e do conceito operacional da “cultura” como constructo e deriva social distintiva da condição humana bem como uma explicação sobre a manipulação dos artefactos e as construções simbólicas.

Ainda de entre as ciências da educação, a Pedagogia e a Didáctica, centradas por um lado na formação do indivíduo e na educação da realidade pessoal e na reflexão sobre os métodos do ensino, por outro, contribuem respectivamente para a axiologia e os contornos da relação pedagógica e para a concepção do material, conteúdos e actividades adaptados.

A solução do problema do “conteúdo” conquanto passe pela necessidade da sua adaptação às tecnologias da informação converte-se num problema de usabilidade que convoca os saberes da informática na variante do estudo da interacção homem-computador (HCI, Human Computer Interaction) bem como depende da engenharia de sistemas e redes para a solução dos problemas da conectividade.

A Economia e a Gestão convergem nas problemáticas da cultura organizacional e da administração da informação.

As Ciências da Comunicação, finalmente, ocupam-se do enquadramento e impacto dos ditos Novos Media no contexto dos antigos estudos sobre os Mass Media e designadamente da problemática do processamento linguístico.

 


[19] Para um desenvolvimento desta colação veja-se Mobile learning: towards a research agenda (Pachler, 2007, p. 134 e seg.s).

I.4 Do contexto. Ubiquidade e heterotopia

 No campo da computação móvel, uma das definições operacionais de “contexto” mais bem aceites é a de Dey et al. (1999)[20], de acordo com os quais “contexto é qualquer informação que pode ser utilizada para caracterizar a situação de um entidade. Uma entidade é uma pessoa, local ou objecto considerado relevante para a interacção entre um utilizador e uma aplicação, incluindo o utilizador e a aplicação eles próprios.”

Trata-se do downgrade possível a partir de uma definição mais ambiciosa (Dey, 1998) – e certamente mais aguda para efeitos da aprendizagem móvel – como soma dos  “estado emocional, foco de atenção, localização e orientação, data e hora, objectos e pessoas no ambiente do utilizador”[21] (portanto, a soma dos ambientes físico, social, emocional e mental). O fosso entre as duas (mormente a percepção do estado mental - emoções e foco de atenção) corresponde à resignação à evidência da impossibilidade da tecnologia em os captar (pese embora a evolução das técnicas biométricas – à semelhança das já existentes por ex. para a identificação pela iris, medidores de exsudação e ritmo cardíaco et caetera… - permitir admitir que a prazo também estas variáveis possam vir a ser parcialmente tidas em consideração).

Tabela 1 - Mobilidade do utilizador e portabilidade da tecnologia

 

Mobilidade do utilizador

Aprendente no local convencional de aprendizagem

Aprendente deslocado do local habitual de aprendizagem

Portabilidade da Tecnologia

Tec. Fixa

Não Mobile Learning

Mobile Learning

Tec. Portátil

Mobile Learning

Mobile Learning

Segundo Vavoula et al. (2005)

À discussão do “contexto” subjazem portanto dois níveis contraditórios – um inclusivo e tendencialmente enriquecedor, o outro exclusivo e tendencialmente limitador - pois do ponto de vista da percepção humana, a cultura da “virtualidade” tanto admite a realidade aumentada e a expansão pela simulação como implica lidar com os limites impostos pela comunicação mediada, cabalmente incapaz de envolver o pleno dos sentidos e comoções. Temos um copo meio cheio se pensarmos nos Novos Media e nos dispositivos móveis que lhes facultam o acesso como acréscimos à experiência; meio vazio se se pensar que qualquer que seja a estratégia e riqueza das actividades e interacções – e independentemente da capacidade de antecipação de quem os concebeu ter contemplado a máxima abertura - eles são sempre pré-programados e – nessa medida – em parte constrangidos e constrangedores.

Por outro lado, é preciso ter presente uma evidência: a aprendizagem humana é invariavelmente situacional; quem aprende nunca o faz num vácuo. A “novidade” dos dispositivos móveis reside “meramente” na promoção de uma aprendizagem “autêntica” porque mais próxima das situações concretas onde a necessidade do conhecimento se pode fazer sentir e de onde a intencionalidade directa da mente humana se pode derivar.

Apesar de poderem ser tecnicamente levadas a um estado de context awareness (consciência, pelo menos parcial, do contexto) as TIC móveis por definição processam a informação de uma forma separada e progressiva; partindo do particular para o todo – ao inverso da mente humana que trilha o caminho oposto. Ou seja: o ónus da construção do contexto repousa sempre no lado "humano" da comunicação e não se limita (para pensar em elementos já hoje fáceis de obter) às variáveis local/espaço (coordenadas geográficas) nem ao tempo (hora) mas diz ainda respeito ao conjunto de percepções, mormente "sócio-gestuais"; já para não falar da idiossincrasia de cada sujeito. De onde – em plena lógica Web 3.0 - a importância da recolha de dados – e o refinamento das ontologias[22] da Web semântica de forma a proporcionar modos de associação simbólica - para a construção do seu perfil de interesses; sendo que estes por si são apenas parte do idiolecto e da forma como a "selva neural" de cada indivíduo processa a informação; tendo presente que o cérebro humano (a "inteligência") é mais do que operações lógico-formais - inclui os reflexos e as emoções – sendo estas, conforme Damásio (1998), mesmo imprescindíveis.

De onde ainda a importância das redes sociais e da comunicação com outros co-aprendentes que mesmo quando não revelam uma capacidade de resposta superior à da máquina reservam alguma capacidade de surpresa e conseguem trabalhar domínios impassíveis de ser formalizados pela computação.

O problema do mobile learning constitui-se desta forma também no de ultrapassar as barreiras de "comunicação" (em sentido lato; como "interacção bem sucedida") entre o utilizador e os dispositivos e a forma como eles "dispensam" a informação; pressupondo a capacidade de "aprender com os erros” e proceder ao reajuste. Daqui derivam quatros orientações de vulto com aplicação pedagógica e didáctica; as necessidades de:

  • promover a inteligibilidade mútua;
  • maximizar a sensibilidade para padrões particulares e oportunidades de interacção;
  • prover recursos para detectar e remediar dificuldades de aprendizagem;
  • aproveitar a bagagem de experiências e circunstâncias do utilizador.

Em consonância com a teoria da actividade (ver nota 110), em mobile learning, o contexto depende tanto do que “está à nossa volta” (o ambiente) quanto dos artefactos tanto culturais como materiais com que estamos a lidar. Assim “aprendizagem no contexto” é tanto “aprender no local de trabalho” como “aprender na ferramenta de trabalho” (e.g., instruções interactivas sobre o uso da fotocopiadora interactivamente disponíveis na fotocopiadora).

O mobile learning permite igualmente o percurso pessoal de aprendizagem em contextos variáveis ao longo do dia: o indivíduo que participa em múltiplos grupos (com múltiplos “chapéus”) mas também o indivíduo que tem nova flexibilidade na gestão do tempo; o indivíduo perante o seu percurso pessoal de aprendizagem.

A preocupação com o ambiente e a organização do “espaço” são particularmente caras à Arquitectura. E foi no contexto daquela disciplina, num centro de estudos tunisino, que em 1967 Michel Focault o explanou numa conferência publicada em texto anos mais tarde: Des espaces autres (Foucault, 1984). Nele traça uma genealogia do conceito em termos históricos e civilizacionais: da “localização”, característica da época medieval, em que o horizonte do indivíduo era predominantemente local e regional, à “extensão” acrescida com o Renascimento, os achados de Copérnico, Galileu e da Astronomia relativamente ao Espaço exterior à noção da extensão da própria esfera terrestre, propiciada pelas descobertas, até final e mais recentemente, como reacção, chegarmos à emergência da noção de “posicionamento”, de forma defensiva, perante a percepção de fronteiras não só permeáveis como dinâmicas, implicadas na ideia do Big Bang e de um espaço sideral em permanente expansão. Podemos inserir nesta última linha o conceito de “glocal”, a um tempo parte de um todo incomensurável e realidade localizada; da mesma maneira que o ciberespaço pode ser visto como heterotopia técnica de um princípio religioso: o da universalidade colocada em comunicação pela moeda corrente da digitalização e dos dados intermutáveis e infinitamente extensíveis.

A “Internet” como registo akásico, materializaria em larga escala o princípio antes presente no esforço laicizante das bibliotecas e museus: heterotopias em que se pretenderia confinar o tempo no espaço; uma materialização da antiga ideia do Paraíso em formato secular e facilmente acessível que promete a “revelação” pela simples “conectividade” cuja garantia é uma espécie de “via iniciática” de quem fibra óptica, modem e computadores seriam os breviários e o UMTS, os smarthpones e os netbooks o tapete persa que permite comodamente, em qualquer altura do dia, a persignação para Meca; o comungar e saciar a sede de “Conhecimento”.

Nas cibercidades, povoadas de comunidades virtuais de prática, sem distinção de credos e raças, unidas pelo perfil e interesses, encontramos na Era Técnica a realização do ideal “católico” de unidade religiosa sob uma manto uno e universal (californiano, “formoso” ou mesmo coreano, antes de ser “romano”); em que os vínculos e as ligações se processam interactivamente no seio de uma rede paradigmática enquanto artefacto cultural do ideal de utopia social. Citando Musso (2003), “a rede leva sempre consigo um imaginário de transição entre a liberdade de um sistema piramidal e hierárquico de que o Estado é o arquétipo e a promessa de um sistema futuro, o da associação universal, anunciador de um novo tipo de relação igualitária.” A Internet é uma manifestação heterotópica da utopia da comunicação perfeita e perfectível (isto é, instrumento passível de aperfeiçoar).

Os dispositivos de comunicação móveis prefiguram-se como artefactos gnósticos; isto é, que facilitam o acesso ao Saber e iluminam a existência pela Razão contra o obscurantismo da ignorância e a ignomínia animal. Nesta medida, a emergência da aprendizagem móvel é o triunfo da cultura e da ética pela educação; em consonância com Saint-Simon, proponente da “comunicação” como seiva viva do Estado centrípeto e orgânico, gestor de “coisas” mais do que “pessoas” e de uma nova educação técnica para o homem industrial - com o conhecido e consequente excesso de proposição pelo seu discípulo Comte do “positivismo” como catecismo e “nova religião” (ver nota 114).

Outro conceito correlato e central para o nosso estudo é o de “ubiquidade”; a qual diz respeito à presença do saber mediatizado em todos os contextos, independentemente, por via do acesso à Internet e às auto-estradas digitais. No centro da affordance[23] dos dispositivos móveis surge portanto, prosseguindo a alegoria, a sua condição de oráculos; instrumentos de revelação.

Em absoluto rigor a ubiquidade aplica-se não ao indivíduo, que – embora em condições de mobilidade acrescida – continua a só poder estar presente num lugar à vez, mas às tecnologias, capazes elas de marcar presença simultânea. É sobretudo o caso das redes de comunicação sem fios, com a sua capacidade reticular de integrar o particular no todo da teia mundial e de a fazer chegar à mais recôndita choupana e por detrás (quase) da mais espessa parede. Não por acaso, o primeiro a usar o termo foi Orígenes, no contexto teológico, como sinónimo da omnipresença do Verbo[24]; neste sentido a “ubiquidade” de Deus levava o indivíduo a comungar pela alma do divino, além da transitoriedade do corpo. Nesta linha, a “sociedade em rede” tem na Internet o seu “mana” unificador e na conectividade o seu “dogma”; estar à sua margem, desconectado, assume uma carga negativa em que a “infoexclusão” equivale à “danação”.

Em termos das ciências da informação assistimos nesta matéria a duas tendências complementares: computação ubíqua e computação em clusters; de que são epifenómenos o shared computing – dos quais o projecto SETI[25] foi historicamente dos mais populares e bem sucedidos e o Folding[26] é porventura das encarnações mais recentes – e a tendência recente do cloud computing, com os virtual desktop environments[27] que desmaterializam em termos aparentes a base palpável da rede, virtualizando o próprio hardware e fazendo magicamente surgir o desktop por um passe scottiano[28].

Assim, a computação não só se tornou crescentemente omnipresente como desapercebida e invisível[29], dissimulada nos mais insuspeitos dispositivos ambientes – veja-se por ex. os progressos aplicados à arquitectura e às chamadas “casas inteligentes” – como desatomizou o Saber que da base palpável do papel passou a infinitas inscrições dos dígitos 1 e 0.

 


[20] Citado por ex. por Poulcheria e Costas (2009), em Khosrow-Pour (2008, pp. 1491-1497) e por Uden (2007).

[21] Ortiz (2008), numa óptica operacionalizante, define semelhantemente contexto como “conjunto de e intersecção entre factos, eventos, circunstâncias e informação que rodeiam o utilizador (móvel) num dado instante no tempo”, decompondo os elementos do contexto móvel em: posicionamento, data e hora, presença e estatuto proclamado pelo utilizador (por ex. segundo a informação já recolhida pelas aplicações de “messaging”), capacidades e estado do dispositivo (remetendo-se aqui por “estado” à situação de prontidão e operacionalidade, variáveis mormente para fins de poupança energética), contexto pessoal, género, tags descritivos associados e finalmente contexto social (recuperável implicitamente por ex. do calendário de tarefas, localização, proximidade com amigos e família, acções sociais et caetera…).

[22] Para um desenvolvimento numa perspectiva da ciência da computação vejam-se as propostas de Basaeed, Berri, Zemerly, & Benlamri (2007) e em especial, para o mobile learning, e pela clareza com que a solução se perspectiva para as actividades de aprendizagem Malek, Laroussi, Derycke & Ghezela (2007).

[23]O conceito de affordance foi particularmente desenvolvido por James Gibson na década de 70 do século passado e pode definir-se como qualidade de um objecto que define o seu potencial de acção.

[24] Sobre a arqueologia da palavra consulte-se Le Trésor de la Langue Française Informatisé, em linha: http://www.cnrtl.fr/definition/ubiquite

[25] Página do projecto SETI: http://setiathome.ssl.berkeley.edu

[26] Página do Folding: http://folding.stanford.edu/

[27] Veja-se o exemplo do Destktop Two: http://desktoptwo.com/

[28]Beam me up Mr. Scott” foi uma expressão que se popularizou na boca do capitão da nave espacial Enterprise, cujas deambulações o espectador acompanhou na série StarTrek e que assim pedia ao seu engenheiro de bordo que o teletransportasse.

[29] Sobre esta matéria veja-se Ogata (2008), que identifica cinco características distintivas da aprendizagem ubíqua do ponto de vista computacional: Permanência (os utilizadores não perdem nenhum do seu material, a menos que explicitamente o apaguem – tal é a promessa com que o Gmail fez sucesso), Acessibilidade (é possível aceder aos documentos de qualquer local), Imediatismo (a informação pode ser recuperada com tempos de espera insignificantes), Interactividade (inclusive no acesso a terceiros) e Actividades Situadas (aprendizagem no contexto real).

Apêndice 4: Nomadismo tecnológico, nativos digitais e exclusão

“O respeito pelo passado - eis o traço que distingue a instrução da barbárie; as tribos nómadas não possuem nem história, nem nobreza” A. Pushkin

A expressão “nomadismo tecnológico” generalizou-se para descrever a situação do homo sapiens digital (Prensky, 2009) em que ao indivíduo passou a ser dada a possibilidade de acesso errante às tecnologias de comunicação e em que estas o acompanham onde quer que vá; trata-se de uma condição possibilitada pela acção concertada das redes sem fios e da miniaturização dos dispositivos computacionais.

O debate sobre o “teletrabalho”, afluente a partir da década de 80, ou mesmo o sobre o tele-estudo e o e-Learning, emergente uma década depois, são seus precursores. No entanto, enquanto a prática demonstrou que o funcionamento à distância destes esbarrava com frequência na anomia, sucumbindo-se ao isolamento ao mesmo tempo que, na prática, a inflexibilidade dos espaços não acompanhava a flexibilidade aparente da gestão do tempo – podia ser possível “trabalhar no conforto do lar e a qualquer hora do dia”, mas continuava a ser necessário fazê-lo com acesso aos meios de comunicações cablados; já para não falar, do ponto de vista da carreira profissional, nas desvantagens práticas de um teletrabalhador isolado, ausente do ambiente profissional e da criação de laços com a chefias e supervisores ou da dificuldade experimentada por muitos em gerir o tempo e lidar eficientemente com as exigências da atenção repartida (entre, por hipótese, a redacção de um texto e a solicitação de atenção de um filho menor) . O "tempo mental" de cada um difere do tempo civil e, para a maioria, continua a ser igualmente inelástico.

As redes móveis ao assegurarem a conectividade na deslocação permitem fazer do m-Learning um passo adiante face ao e-Learning: enquanto o segundo constrange psicologicamente (no limite, ninguém consegue ficar um dia inteiro em casa frente ao computador) o segundo "liberta". Tem no entanto o reverso do desafio da "concentração" e da retenção da “atenção” – por ex., será que é possível o estudo profundo em condições imediatas, necessária para um aproveitamento eficiente do tempo, com aturados níveis de abstracção, sem um processo mental de chill out e pré-disposição? Por ex., pode ser possível usar um smarthphone para estudar no fresco relvado de um jardim público, mas será que se consegue fazê-lo com proveito nos 20 minutos que medeiam entre sair de casa e partir para apanhar um comboio? Tradicionalmente, a organização mental dos indivíduos pressupõe por comodidade a associação de determinados lugares a determinadas tarefas; um aprendente móvel bem sucedido teria primeiro que ser desprogramado; seria necessário soltar a associação cultural operando uma espécie de “efeito Renascença” em larga escala, desconsagrando mentalmente o espaço da sala de aula como o da igreja para poder levar com sucesso a disponibilidade para aprender, como para comungar e ouvir missa, pelos cabos de fibra óptica.

Do nosso ponto de vista, a chave que facilita a mudança não deve pois ser procurada na "multifuncionalidade" dos espaços (extensão das actividades nos espaços individualmente considerados) mas na ligação entre eles. É menos conveniente que se possa "fazer muitas coisas ao mesmo tempo e sem mudar de local" e mais poder "fazer coisas em tempos e locais em que de outra forma não se fariam".

A execução simultânea de múltiplas tarefas (multitasking) pode ser fácil para um computador – seguindo uma lógica notacional - mas para muitos “imigrantes digitais” revela-se motivo de stress e frustração; o que não invalida que a função modifique o órgão e que as gerações emergentes de “nativos digitais” - para usar a expressão igualmente popularizada por Prensky (2001) para descrever os nascidos após 1980, com acesso às tecnologias digitais em rede logo a partir das primeiras fases da sua instrução[86] - venham a beneficiar da tecnologia de uma forma diferente. Mais do que pela idade, o “nativo digital” define-se pelo à vontade com que interage com as tecnologias da informação, sendo que numa primeira fase, os que maior partido conseguiram delas retirar foram, de acordo com o Efeito Mateus[87], aqueles cuja formação já era à partida mais sólida e abrangente; ou seja, na fase da introdução, as tecnologias da informação agravaram tendencialmente o fosso com os que já tinham pouco acesso à educação.

Além do domínio cumulativo dos saberes, o desfasamento de competências impostos entre as gerações mais velhas de “imigrantes digitais” e as mais recentes de “nativos digitais” tem ainda um impacto conhecido no sistema de ensino, com o corolário de subaproveitamento e colocação em questão da autoridade dos primeiros.

Tabela 10: Contraste entre nativos e imigrantes digitais

Aprendentes: Nativos digitais

Professores: Imigrantes Digitais

Preferem receber informação rapidamente de múltiplas fontes multimédia

Preferem a disponibilização progressiva e controlada da informação de um número limitado de fontes

Preferem o processamento paralelo e a execução de múltiplas tarefas

Preferem o processamento singular e tarefas individuais

Preferem imagens, sons e vídeo antes do texto

Preferem fornecer texto antes do multimédia

Preferem o acesso aleatório a recursos hiperligados

Preferem o fornecimento linear de informação, de forma lógica e sequencial

Preferem a interacção simultânea com múltiplos interlocutores

Preferem a acção independente dos estudantes

Preferem a aprendizagem just-in-time

Preferem ensinar just-in-case (não vá aparecer no exame)

Preferem a gratificação instantânea

Preferem gratificar/atribuir notas em diferido

Preferem a aprendizagem relevante, instantânea, útil e divertida

Preferem ensinar segundo o currículo e testes padronizados

Fonte: Ian Jukes e Anita Dosjal, The Infosavy Group

Palfrey & Gasser que dedicaram um volume inteiro à condição dos “Nascidos Digitais” (2008, p. 237), incluindo um capítulo inteiro - o onze - consagrado ao seu estatuto de “aprendentes”, relatam-nos uma série de episódios paradigmáticos tanto do desfasamento entre gerações como, sobretudo, da dificuldade experimentada pelo sistema de ensino em integrar a tecnologia. Resulta que incorrem tanto em falácia os tecnófilos como dos tecnófobos; nem a introdução “por si” de computadores e quadros interactivos nas salas de aula é forçosamente proveitosa; nem necessariamente o perfil típico de processamento da informação pelo nativo digital (segundo uma lógica de “apascentação”[88] da atenção e leitura diagonal global, seguido do “mergulho profundo” nos temas que interessam e eventualmente na entrada no feedback loop, seja pela difusão entre conhecidos, facilitada pelo e-mail, seja pela retroalimentação do debate como na típica adição de comentário em blog) o condena à superficialidade. Na realidade, se é por ex. certo que os nativos digitais tendem a não comprar jornais e em alternativa se inclinam a ler “as gordas” em linha; não é menos certo que, ao contrário da geração anterior, em contrapartida, eles o fazem com maior frequência ao longo do dia.

Tabela 11: Habilidades (dos nativos) digitais

Sociais/Pessoais

Cognitivas/Físicas

Técnicas

Comunicação
Conhecimento Geral
Colaboração
Auto-estima
Processamento paralelo
Persistência
Aprendizagem com os pares
Capacidade de assumir riscos

Múltiplas tarefas
Pensamento lógico
Capacidade de solução de problemas
Aprendizagem pelo erro

Coordenação mão-olho
Confiança Técnica
Web design / criação de conteúdo

Fonte: Green & Hannon (2007)

Malgrado o preconceito erudito de que a cultura digital é um atentado contra a literacia e a cultura profunda e reflectida dos livros, desmentido pela evidência de que os indivíduos com acesso à Internet acabam por ler mais do que os sem ele, continuando a forma escrita a ocupar um lugar central[89] - não existem elementos objectivos suficientes que permitam concluir que as novas gerações sabem nem mais nem menos do que as anteriores; para este efeito, Bennet, Maton & Kervin (2000) introduzem uma pitada de “realismo” na discussão ao notar – não por acaso, uma vez que redigem a partir do Reino Unido, país que se agitou recentemente com a reforma protagonizada por Sir Jim Rose (Whelan, 2009) que flexibilizou o curriculum do ensino primário, abrindo nele espaço para as TIC, como o Twitter (Curtis, 2009) - com apoio em estudos recentemente elaborados nos mais distintos continentes que os nativos digitais não se furtam à regra geral de que por cada participante activo (por cada “redactor) continua a existir uma percentagem entre 4 e 5 vezes mais elevada de consumidores passivos de informação; nem que, na realidade, todos os jovens são necessariamente “craques” das TIC, detendo uma comparativamente larga percentagem um défice de capacidade no seu maneio[90].

Para Portugal, o estudo e-Generation (G. Cardoso, et al., 2007, p. 167 e seg.s) fornece alguns indicadores interessantes para o estrato etário entre os 8 e os 18 anos. Assim, por razões que se explicam desde logo pelo escasso orçamento e dependência familiar, a generalidade dos adolescentes tem um uso comedidamente criativo do telemóvel; focando-se sobretudo nas funções mais básicas como o SMS (com uma média de 27 enviadas por dia) enquanto o acesso ao e-mail por ex. nunca foi experimentado por 4/5, uma percentagem ligeiramente superior mesmo para os que nunca usam o telemóvel para aceder à Internet (81,3%); ou sequer (mais de metade) a funcionalidade “Agenda”.

Apesar de praticamente ominipresente entre os adolescentes portugueses, parece assim apressado afirmar que eles estão hoje a descobrir novos e especialmente criativos usos a dar-lhe ou que já é evidente uma nova forma de “literacia digital” – para esse efeito, por ex., apesar de a maioria (51,7%) ter câmara no telemóvel, a média de uso está abaixo das seis fotografias semanais – com uma curiosa prevalência na preferência dos rapazes (6,7 fotos por semana) sobre as raparigas (4,7 fotos por semana). E reputamos esta diferença por género de “curiosa” porquanto vai em consonância com aquilo que se sabe das diferentes apetências estruturais dos cérebros masculinos e feminino – conhecendo-se por um lado que o multitasking é mais fácil para as mulheres e que muitas das competências em jogo para o sucesso dos nativos digitais apelam mais ao hemisfério esquerdo do cérebro[91] e por outro que a “imagem” tem um poder de estímulo superior para os homens.

O fosso entre infocompetentes e infoexcluídos não se resume no entanto às gerações ou aos géneros. Numa óptica desenvolvimentalista, “a brecha digital define-se como a separação que existe entre as pessoas (comunidades, estados, países) que utilizam as TIC como parte rotineira da sua vida diária e aqueles que não têm acesso às mesma que ainda que as possuem não sabem como utilizá-las” (Santoyo & Martínez, 2003).

Em suma, na sociedade internacional a “exclusão digital” diz também respeito ao fosso entre estados ricos e pobres e ao facto de aos segundos faltarem as infra-estruturas e as condições económicas que permitam o ingresso na sociedade da informação.

Dentro de cada estado corresponde ao fosso entre os que têm e os que não têm acesso a computadores e à Internet. É motivada pela diferente distribuição na sociedade de recursos: a) materiais (rendimento e posse de equipamento); b) temporais (disponibilidade para usar os novos Media); c) mentais (competência técnica); d) sociais (redes de relações que favoreçam a "iniciação"); e e) culturais (estatuto e outras recompensas percebidas como motivadoras).

 


[86] Em Portugal, ao contrário dos Estados Unidos, deveremos admitir um retardamento de pelo menos uma década nesta baliza temporal. Assim, a progressiva introdução dos meios informáticos na escola e na formação é uma realidade que só se tornou evidente a partir da década de 90. Muitos dos nascidos em 80 só vieram a contactar com ela já na fase final do seu ensino secundário.

[87] Termo cunhado pelo sociólogo Robert Merton (1968) a pretexto da passagem do Novo Testamento - "Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter" (Mateus:25:29) - para explicar que aqueles com maior acesso e que desenvolveram maiores competências iniciais nas TIC e no uso da WWW tendem a aproveitar mais dela, fazendo disso uma vantagem comparativa. Aplicado à "exclusão digital" tal significa que os excluídos ficam cada vez mais excluídos, enquanto os infocompetentes são cada vez mais favorecidos. Da mesma forma, sistemas de funcionamento em rede, como o motor de pesquisa Google, que indexa os sítios segundo a sua popularidade, chamando a atenção para eles e portanto torna-os ainda mais populares funciona segundo o mesmo princípio. Mesmo quando são inerentemente "igualitárias" na forma como facilitam o acesso à informação, o acesso ao conhecimento nas redes continua a organizar-se segundo princípios diferenciadores e tendencialmente centrípetos, mesmo que polinucleares.

[88] Designada information grazing, em inglês.

[89] Neste sentido veja-se por ex. o estudo da Universidade de Conventry (Plester, Wood, & Joshi, 2009) onde se conclui que apesar de usarem o “smsês”, muitos alunos continuam a ter uma noção perfeita dos seus limites e na realidade o seu uso melhora as suas competências linguísticas de fundo.

[90] Projectos de introdução de práticas de mobile learning larga escala, como a iniciativa britânica Molenet, que reúne 20 mil utilizadores e gere 10 mil dispositivos, concluem isto mesmo: é um mito a crença de que os jovens automaticamente entendem as novas tecnologias e precisam de pouco treino para as aproveitar (vide os testemunhos, em linha: http://www.molenet.org.uk/mobilearinprac/myths/).

[91] Esta clivagem por género, como construção projectiva, é particularmente bem explorada nos estudos apresentados na obra Growing-up online(Weber & Dixon, 2007).