novas tecnologias

Apêndice 4: Nomadismo tecnológico, nativos digitais e exclusão

“O respeito pelo passado - eis o traço que distingue a instrução da barbárie; as tribos nómadas não possuem nem história, nem nobreza” A. Pushkin

A expressão “nomadismo tecnológico” generalizou-se para descrever a situação do homo sapiens digital (Prensky, 2009) em que ao indivíduo passou a ser dada a possibilidade de acesso errante às tecnologias de comunicação e em que estas o acompanham onde quer que vá; trata-se de uma condição possibilitada pela acção concertada das redes sem fios e da miniaturização dos dispositivos computacionais.

O debate sobre o “teletrabalho”, afluente a partir da década de 80, ou mesmo o sobre o tele-estudo e o e-Learning, emergente uma década depois, são seus precursores. No entanto, enquanto a prática demonstrou que o funcionamento à distância destes esbarrava com frequência na anomia, sucumbindo-se ao isolamento ao mesmo tempo que, na prática, a inflexibilidade dos espaços não acompanhava a flexibilidade aparente da gestão do tempo – podia ser possível “trabalhar no conforto do lar e a qualquer hora do dia”, mas continuava a ser necessário fazê-lo com acesso aos meios de comunicações cablados; já para não falar, do ponto de vista da carreira profissional, nas desvantagens práticas de um teletrabalhador isolado, ausente do ambiente profissional e da criação de laços com a chefias e supervisores ou da dificuldade experimentada por muitos em gerir o tempo e lidar eficientemente com as exigências da atenção repartida (entre, por hipótese, a redacção de um texto e a solicitação de atenção de um filho menor) . O "tempo mental" de cada um difere do tempo civil e, para a maioria, continua a ser igualmente inelástico.

As redes móveis ao assegurarem a conectividade na deslocação permitem fazer do m-Learning um passo adiante face ao e-Learning: enquanto o segundo constrange psicologicamente (no limite, ninguém consegue ficar um dia inteiro em casa frente ao computador) o segundo "liberta". Tem no entanto o reverso do desafio da "concentração" e da retenção da “atenção” – por ex., será que é possível o estudo profundo em condições imediatas, necessária para um aproveitamento eficiente do tempo, com aturados níveis de abstracção, sem um processo mental de chill out e pré-disposição? Por ex., pode ser possível usar um smarthphone para estudar no fresco relvado de um jardim público, mas será que se consegue fazê-lo com proveito nos 20 minutos que medeiam entre sair de casa e partir para apanhar um comboio? Tradicionalmente, a organização mental dos indivíduos pressupõe por comodidade a associação de determinados lugares a determinadas tarefas; um aprendente móvel bem sucedido teria primeiro que ser desprogramado; seria necessário soltar a associação cultural operando uma espécie de “efeito Renascença” em larga escala, desconsagrando mentalmente o espaço da sala de aula como o da igreja para poder levar com sucesso a disponibilidade para aprender, como para comungar e ouvir missa, pelos cabos de fibra óptica.

Do nosso ponto de vista, a chave que facilita a mudança não deve pois ser procurada na "multifuncionalidade" dos espaços (extensão das actividades nos espaços individualmente considerados) mas na ligação entre eles. É menos conveniente que se possa "fazer muitas coisas ao mesmo tempo e sem mudar de local" e mais poder "fazer coisas em tempos e locais em que de outra forma não se fariam".

A execução simultânea de múltiplas tarefas (multitasking) pode ser fácil para um computador – seguindo uma lógica notacional - mas para muitos “imigrantes digitais” revela-se motivo de stress e frustração; o que não invalida que a função modifique o órgão e que as gerações emergentes de “nativos digitais” - para usar a expressão igualmente popularizada por Prensky (2001) para descrever os nascidos após 1980, com acesso às tecnologias digitais em rede logo a partir das primeiras fases da sua instrução[86] - venham a beneficiar da tecnologia de uma forma diferente. Mais do que pela idade, o “nativo digital” define-se pelo à vontade com que interage com as tecnologias da informação, sendo que numa primeira fase, os que maior partido conseguiram delas retirar foram, de acordo com o Efeito Mateus[87], aqueles cuja formação já era à partida mais sólida e abrangente; ou seja, na fase da introdução, as tecnologias da informação agravaram tendencialmente o fosso com os que já tinham pouco acesso à educação.

Além do domínio cumulativo dos saberes, o desfasamento de competências impostos entre as gerações mais velhas de “imigrantes digitais” e as mais recentes de “nativos digitais” tem ainda um impacto conhecido no sistema de ensino, com o corolário de subaproveitamento e colocação em questão da autoridade dos primeiros.

Tabela 10: Contraste entre nativos e imigrantes digitais

Aprendentes: Nativos digitais

Professores: Imigrantes Digitais

Preferem receber informação rapidamente de múltiplas fontes multimédia

Preferem a disponibilização progressiva e controlada da informação de um número limitado de fontes

Preferem o processamento paralelo e a execução de múltiplas tarefas

Preferem o processamento singular e tarefas individuais

Preferem imagens, sons e vídeo antes do texto

Preferem fornecer texto antes do multimédia

Preferem o acesso aleatório a recursos hiperligados

Preferem o fornecimento linear de informação, de forma lógica e sequencial

Preferem a interacção simultânea com múltiplos interlocutores

Preferem a acção independente dos estudantes

Preferem a aprendizagem just-in-time

Preferem ensinar just-in-case (não vá aparecer no exame)

Preferem a gratificação instantânea

Preferem gratificar/atribuir notas em diferido

Preferem a aprendizagem relevante, instantânea, útil e divertida

Preferem ensinar segundo o currículo e testes padronizados

Fonte: Ian Jukes e Anita Dosjal, The Infosavy Group

Palfrey & Gasser que dedicaram um volume inteiro à condição dos “Nascidos Digitais” (2008, p. 237), incluindo um capítulo inteiro - o onze - consagrado ao seu estatuto de “aprendentes”, relatam-nos uma série de episódios paradigmáticos tanto do desfasamento entre gerações como, sobretudo, da dificuldade experimentada pelo sistema de ensino em integrar a tecnologia. Resulta que incorrem tanto em falácia os tecnófilos como dos tecnófobos; nem a introdução “por si” de computadores e quadros interactivos nas salas de aula é forçosamente proveitosa; nem necessariamente o perfil típico de processamento da informação pelo nativo digital (segundo uma lógica de “apascentação”[88] da atenção e leitura diagonal global, seguido do “mergulho profundo” nos temas que interessam e eventualmente na entrada no feedback loop, seja pela difusão entre conhecidos, facilitada pelo e-mail, seja pela retroalimentação do debate como na típica adição de comentário em blog) o condena à superficialidade. Na realidade, se é por ex. certo que os nativos digitais tendem a não comprar jornais e em alternativa se inclinam a ler “as gordas” em linha; não é menos certo que, ao contrário da geração anterior, em contrapartida, eles o fazem com maior frequência ao longo do dia.

Tabela 11: Habilidades (dos nativos) digitais

Sociais/Pessoais

Cognitivas/Físicas

Técnicas

Comunicação
Conhecimento Geral
Colaboração
Auto-estima
Processamento paralelo
Persistência
Aprendizagem com os pares
Capacidade de assumir riscos

Múltiplas tarefas
Pensamento lógico
Capacidade de solução de problemas
Aprendizagem pelo erro

Coordenação mão-olho
Confiança Técnica
Web design / criação de conteúdo

Fonte: Green & Hannon (2007)

Malgrado o preconceito erudito de que a cultura digital é um atentado contra a literacia e a cultura profunda e reflectida dos livros, desmentido pela evidência de que os indivíduos com acesso à Internet acabam por ler mais do que os sem ele, continuando a forma escrita a ocupar um lugar central[89] - não existem elementos objectivos suficientes que permitam concluir que as novas gerações sabem nem mais nem menos do que as anteriores; para este efeito, Bennet, Maton & Kervin (2000) introduzem uma pitada de “realismo” na discussão ao notar – não por acaso, uma vez que redigem a partir do Reino Unido, país que se agitou recentemente com a reforma protagonizada por Sir Jim Rose (Whelan, 2009) que flexibilizou o curriculum do ensino primário, abrindo nele espaço para as TIC, como o Twitter (Curtis, 2009) - com apoio em estudos recentemente elaborados nos mais distintos continentes que os nativos digitais não se furtam à regra geral de que por cada participante activo (por cada “redactor) continua a existir uma percentagem entre 4 e 5 vezes mais elevada de consumidores passivos de informação; nem que, na realidade, todos os jovens são necessariamente “craques” das TIC, detendo uma comparativamente larga percentagem um défice de capacidade no seu maneio[90].

Para Portugal, o estudo e-Generation (G. Cardoso, et al., 2007, p. 167 e seg.s) fornece alguns indicadores interessantes para o estrato etário entre os 8 e os 18 anos. Assim, por razões que se explicam desde logo pelo escasso orçamento e dependência familiar, a generalidade dos adolescentes tem um uso comedidamente criativo do telemóvel; focando-se sobretudo nas funções mais básicas como o SMS (com uma média de 27 enviadas por dia) enquanto o acesso ao e-mail por ex. nunca foi experimentado por 4/5, uma percentagem ligeiramente superior mesmo para os que nunca usam o telemóvel para aceder à Internet (81,3%); ou sequer (mais de metade) a funcionalidade “Agenda”.

Apesar de praticamente ominipresente entre os adolescentes portugueses, parece assim apressado afirmar que eles estão hoje a descobrir novos e especialmente criativos usos a dar-lhe ou que já é evidente uma nova forma de “literacia digital” – para esse efeito, por ex., apesar de a maioria (51,7%) ter câmara no telemóvel, a média de uso está abaixo das seis fotografias semanais – com uma curiosa prevalência na preferência dos rapazes (6,7 fotos por semana) sobre as raparigas (4,7 fotos por semana). E reputamos esta diferença por género de “curiosa” porquanto vai em consonância com aquilo que se sabe das diferentes apetências estruturais dos cérebros masculinos e feminino – conhecendo-se por um lado que o multitasking é mais fácil para as mulheres e que muitas das competências em jogo para o sucesso dos nativos digitais apelam mais ao hemisfério esquerdo do cérebro[91] e por outro que a “imagem” tem um poder de estímulo superior para os homens.

O fosso entre infocompetentes e infoexcluídos não se resume no entanto às gerações ou aos géneros. Numa óptica desenvolvimentalista, “a brecha digital define-se como a separação que existe entre as pessoas (comunidades, estados, países) que utilizam as TIC como parte rotineira da sua vida diária e aqueles que não têm acesso às mesma que ainda que as possuem não sabem como utilizá-las” (Santoyo & Martínez, 2003).

Em suma, na sociedade internacional a “exclusão digital” diz também respeito ao fosso entre estados ricos e pobres e ao facto de aos segundos faltarem as infra-estruturas e as condições económicas que permitam o ingresso na sociedade da informação.

Dentro de cada estado corresponde ao fosso entre os que têm e os que não têm acesso a computadores e à Internet. É motivada pela diferente distribuição na sociedade de recursos: a) materiais (rendimento e posse de equipamento); b) temporais (disponibilidade para usar os novos Media); c) mentais (competência técnica); d) sociais (redes de relações que favoreçam a "iniciação"); e e) culturais (estatuto e outras recompensas percebidas como motivadoras).

 


[86] Em Portugal, ao contrário dos Estados Unidos, deveremos admitir um retardamento de pelo menos uma década nesta baliza temporal. Assim, a progressiva introdução dos meios informáticos na escola e na formação é uma realidade que só se tornou evidente a partir da década de 90. Muitos dos nascidos em 80 só vieram a contactar com ela já na fase final do seu ensino secundário.

[87] Termo cunhado pelo sociólogo Robert Merton (1968) a pretexto da passagem do Novo Testamento - "Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter" (Mateus:25:29) - para explicar que aqueles com maior acesso e que desenvolveram maiores competências iniciais nas TIC e no uso da WWW tendem a aproveitar mais dela, fazendo disso uma vantagem comparativa. Aplicado à "exclusão digital" tal significa que os excluídos ficam cada vez mais excluídos, enquanto os infocompetentes são cada vez mais favorecidos. Da mesma forma, sistemas de funcionamento em rede, como o motor de pesquisa Google, que indexa os sítios segundo a sua popularidade, chamando a atenção para eles e portanto torna-os ainda mais populares funciona segundo o mesmo princípio. Mesmo quando são inerentemente "igualitárias" na forma como facilitam o acesso à informação, o acesso ao conhecimento nas redes continua a organizar-se segundo princípios diferenciadores e tendencialmente centrípetos, mesmo que polinucleares.

[88] Designada information grazing, em inglês.

[89] Neste sentido veja-se por ex. o estudo da Universidade de Conventry (Plester, Wood, & Joshi, 2009) onde se conclui que apesar de usarem o “smsês”, muitos alunos continuam a ter uma noção perfeita dos seus limites e na realidade o seu uso melhora as suas competências linguísticas de fundo.

[90] Projectos de introdução de práticas de mobile learning larga escala, como a iniciativa britânica Molenet, que reúne 20 mil utilizadores e gere 10 mil dispositivos, concluem isto mesmo: é um mito a crença de que os jovens automaticamente entendem as novas tecnologias e precisam de pouco treino para as aproveitar (vide os testemunhos, em linha: http://www.molenet.org.uk/mobilearinprac/myths/).

[91] Esta clivagem por género, como construção projectiva, é particularmente bem explorada nos estudos apresentados na obra Growing-up online(Weber & Dixon, 2007).

Apêndice 15: Da relação entre tecnologia, economia e ideologia e do apelo à educação

Relegamos para o fim o trio de apêndices, dos quais este é o primeiro, cuja relevância e complementaridade é mais periférica ao essencial do nosso estudo mas que ainda assim se nos afiguram relevantes. No quadro de um mestrado em e-Learning, uma avaliação corrente do impacto dos sistemas interactivos de comunicação ou, numa acepção mais comum e restrita, das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC)[101], para ser completa, não deve, no nosso entender, passar ao lado de um questionamento do lugar ocupado pelo Conhecimento e pelo processo da sua transmissão e fomento imediatos ou mediatos através do Ensino - ou, mais propriamente, das funções para que é chamado tanto enquanto sistema formal como enquanto esforço informal; sendo certo que, na génese, modalidade e “quinta geração”[102] do ensino à distância, o objecto deste trabalho está mais próximo do segundo do que do primeiro.

Assumimos que as ideias sobre o papel e escopo das metodologias do e-Learning não surgem desgarradas nem são neutras, tal como a tecnologia não o é[103], face à pragmática do saber e às narrativas histórica e civilizacionalmente assumidas; porventura como imanência do esquema sociopolítico dos interesses e da busca da organização e equilíbrio sociais.

Conforme apontado por Lyotard[104], o problema da “legitimidade”, em sentido abrangente, numa acepção mais política, conotada com o moderno exercício do poder pelo consentimento e com o artifício da concórdia pelo contrato social e do conformismo com a desigualdade social pela tácita divisão do trabalho[105], como em sentido mais estrito, relacionada com o Saber, continua a ser um elemento explicativo chave das transformações numa altura em que o progressivo abandono das meta-narrativas deu lugar à promoção da técnica e da tecnologia, segundo um determinismo extensível às teorias da comunicação de massas e à interpretação feita do estado corrente da Informação e do Conhecimento.

Com o termo do mundo bipolar, em 1989 e o debate do “Fim das Ideologias”, agregado ao do “Fim da História”, veio o do “Fim da Educação”[106]; ao mesmo tempo que pela evolução dos meios de comunicação se passou de um jogo de informação incompleta para um de informação completa.

Não é nossa pretensão, com estas linhas, auto-desvalorizar o campo de estudo que abraçámos; segundo uma lógica relativista paralisante. Simplesmente perspectivar o seu enquadramento, tendo presente que o processo inverso, o do mergulho entusiástico na árvore sem perspectivar a floresta, frequente no campo, arrisca gerar algum desajuste e precipitação quando não sobrevalorização. Afinal, conforme notado na citação que introduz o cap. III, “a um homem com um computador, tudo parecem dados”.

A condição “pós-moderna” correspondente à de uma mudança no estatuto do saber pelo impacto das transformações tecnológicas a nível global; é avaliável em dois planos: o eminentemente epistemológico da investigação e o da transmissão do conhecimento, este com implicações directas nas opções curriculares. Ainda que a Epistemologia seja hoje menos angular que a Ontologia;  pelo menos desde que o relatório Faure, em 1973, proclamou como desafio da “Educação do Futuro”, o “Aprender a Ser” em detrimento do “Saber” (Faure, 1973).

A emergência da “performatividade”, como exigência e requisito condicionante do funcionamento das instituições de ensino, se por um lado tende ao abandono dos valores e do papel do sistema formal como veículo gerador de consenso e de transmissão das narrativas de emancipação, por outro propõe uma óptica funcional e sistémica que coloca o assento nas “competências operacionais” em detrimento das “ideias” e valoriza os saberes pragmáticos em detrimento de uma concepção “absoluta” do conhecimento como emancipador da condição humana; formando quadros capazes de competir num mercado internacional aberto. “A questão já não é: é verdadeiro? mas: para que serve?” (Lyotard, 1989, p. 105)

E continua o mesmo autor: “Pois, ao lado desta função profissionalizante, a uni­versidade começa ou deveria começar a desempenhar um papel novo no quadro do melhoramento das performan­ces do sistema, como seja o da reciclagem ou da educação permanente. Fora das universidades, departamentos ou instituições com vocação profissional, o saber não é e nunca mais será transmitido em bloco, e de uma vez por todas, aos jovens antes da sua entrada na vida activa; ele é e será transmitido à la carte aos adultos já activos ou à espera de o serem, tendo em vista não só o melhora­mento da sua competência e a sua promoção, mas também a aquisição de informações, de linguagens e de jogos de linguagem que lhes permitam alargar o hori­zonte da sua vida profissional e articular a sua experiên­cia técnica e ética. (…)”

Completando, para o que interessa um mestrado em Gestão de Sistemas de e-Learning: “A aplicação das novas técnicas a este stock pode ter uma incidência considerável sobre o suporte comunicacional. Não parece já indispensável que este seja um curso proferido de viva voz por um professor diante de estudantes mudos, enquanto o tempo das questões é remetido às sessões de «trabalhos» dirigidas por um assistente. Devido a os conhecimentos serem traduzíveis em linguagem informática e o ensino tradicional ser assimilável a uma memória, a didáctica pode ser confiada a máquinas que liguem as memórias clássicas (bibliotecas, etc.), bem como os bancos de dados, a terminais inteligentes postos à disposição dos estudantes. (…)”. E para o que interessa à didáctica: “A valorização do trabalho de equipa pertence a esta predominância do critério performativo do saber” (Lyotard, 1989, pp. 101-107).

Não será pois despicienda a proximidade do debate[107], que vem contestar o modelo do Saber escolar, veiculador de meta-narrativas proclamadas como desacreditadas ou pelo menos geradoras de incredulidade face à mundialização, com os esforços enformadores das organizações internacionais, seja no quadro do sistema das Nações Unidas, com a UNESCO em primeiro plano, seja com a subsequente adopção regional tanto pela OCDE como pela União Europeia -  Jacques Delors, que em 1994 chefiou o norteador Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (Delors, et al., 1996) onde se proclamam os desde então muito repetidos “4 Pilares” (Aprender a Conhecer, Fazer; Viver e a Ser), a páginas tantas se detém sobre o “Impacto das novas tecnologias na sociedade e na educação” e onde a palavra “tecnologia” ocorre 179 vezes -  acumulou, recorde-se, no seu currículo uma passagem pela chefia da Comissão Europeia.

É assim que podemos também ler no zeitgeist das preocupações com a incorporação da tecnologia no processo educativo um atributo dessa característica da porosidade e dessa capacidade de impregnar e gerir de forma bem sucedida, porque tendente e coincidente com a óptica utilitarista da gestão do interesse individual, todos os aspectos da vida social exibida pelo capitalismo. Mais recentemente, resulta que a generalização do consumo das tecnologias móveis, arvorado num dos sectores com maior dinâmica económica, exponencia e auto-promove os interesses dos vendedores do respectivo acesso, sabedores e investidores num marketing que historicamente deixou de se contentar em diferenciar necessidades para as passar a promover e incutir; numa arreigada patine em que equiparadas “modernidade” e “modernização administrativa” aquelas surgem auradas de moda e os gadgets geradores de receita de coisa fashionable e dirigida às gerações de consumidores mais novos, envolta numa teia de tons vivos e com acordes sonoros que tornam difícil a separação e destrinça do seu real valor útil e potencial formativo da cultura Pop que “distrai” mais do que “educa” em que surge envolta.

Para este efeito – poder-se-ia falar de much ado about nothing, que é como quem diz “muita comunicação com comparativamente pouco investimento reprodutível” - dois indicadores entre outros resultam a este propósito expressivos para a realidade portuguesa: primeiro, o facto de, segundo dados do INE[108], os gastos com a comunicação terem no final da última década do século pretérito suplantado os da educação em mais de três vezes (541 euros por família por ano contra 175 euros), com um crescimento de 700% entre 1989 e 2001, especialmente acelerado a partir de 1995; por outro, de acordo o EUROSTAT[109], o facto de Portugal, em 2006, manter a tendência dos anos anteriores no que toca a gastos em comunicações mais de duas vezes superiores aos gastos em material de TIC (4,3% com despesas de comunicação contra 1,8% gastos em tecnologia); isto quando na média da União Europeia a tendência é para a paridade. O que é tão expressivo do preço das nossas comunicações como sobre os interesses predominantes no processo da sua adopção.

 


[101] Sobre esta destrinça e a distorção inerente à segunda expressão ver Correia & Tomé (2007, p. 43).

[102] Se o e-Learning constitui a quarta (Sherron & Boettcher, 1997), poder-se-á filiar o m-Learning na quinta, seja como capitalização do learn while you earn (Zawacki-Richter, Brown, & Delport, 2007), seja enquanto passagem a um sistema Inteligente de Aprendizagem Flexível, em que “novidade” do primeiro adjectivo é afirmada num contexto institucional de redução de custos, tido discutivelmente – quando colocado numa perspectiva informática que na realidade parece um retrocesso à aprendizagem assistida por computador, fazendo fé na proposta de mecanismos de automação dos feedbacks - como potencial de disseminação e incentivo à adopção (Taylor, 2001). Este assunto é criticamente retomado no Cap. II a propósito da definição de mobile learning - no essencial a asserção da flexibilidade parece-nos correcta mas de redução imprópria a questões economicistas; até porque o impacto estende-se muito além do Ensino Superior, onde o autor a antevê.

[103] Neste sentido veja-se por ex. Freire (1993), em particular o segundo capítulo, onde se retoma a argumentação esboçada pelo mesmo autor em 1977 no prefácio à tese de Moacir Gaddoti, intitulado “Ideologia e Educação: Reflexões sobre a não neutralidade da Educação”, conforme apontado por Osorio (2005, p. 28). No mesmo sentido argumenta Melvin Kranzberg, citado por Castells (2002, p. 6) e por Gustavo Cardoso (2006, p. 105): “a tecnologia nem é boa nem má, nem é neutral”. Expressão com que pretende significar a circularidade – porventura “inutilidade” - do debate sobre o “determinismo tecnológico” e sobre quem condiciona quem no binómio tecnologia-sociedade, no pressuposto de que a segunda não pode ser representada sem as suas ferramentas tecnológicas da mesma forma que a primeira é uma emanação da segunda.

[104] Em A Condição Pós-moderna, subintitulado no original francês Rapport sur le Savoir, peça de análise prospectiva que, à data da publicação, 1979, Portugal, recém-saído do regime de “um liceu por capital de distrito”, estaria especialmente inapto para compreender, mas que prognostica com uma actualidade que se mantém o processo e a pressão subsequente das NTI sobre o sistema de ensino, com as correspondentes adaptações, mormente quando, face à redefinição do papel da Universidade, se observa cruamente, por oposição aos que frequentam cursos técnico-científicos que “os outros jovens presentes na universidade são, na sua maior parte, desempregados não contabilizados nas estatísticas de pedido de emprego. Eles são excedentários em relação às saídas potenciais das disciplinas nas quais se encontram (Letras e Ciências Humanas). Na realidade, pertencem, apesar da sua idade, à nova categoria de destinatários da transmissão do saber”. Releva de e serve a ideologia vigente a lógica da “requalificação” e da reciclagem permanente de conhecimentos que admite também a paralela leitura de que se a qualificação tivesse sido bem-feita em primeiro lugar, tornava-se menos premente a “re” e portanto a existência de um desajuste entre as necessidades impostas pelo clima socioeconómico e os saberes veiculados.

[105] Nesta senda veja-se Bourdieu (1978).

[106] Na acepção da obra de Postman (2007), publicada originalmente em 1996.

[107] Apenas nessa medida cedemos à tentação da inclusão de tão extensa citação, porque, duas décadas antes da Internet ter principiado a generalizar-se nos nossos lares, os reais termos do debate estavam claramente recortados; sendo absolutamente necessário ancorá-los aí para lhes encontrar hoje sentido além da “espuma dos dias”.

[108] INE (2001). Estes dados foram actualizados no Inquérito às despesas das famílias - 2005 / 2006, publicado em 2008, tendo-se apurado gastos anuais de 519 euros em comunicações (dos quais apenas 2 em serviços postais) contra 301 euros em gastos com o Ensino (dos quais apenas 29 com o ensino não formal -“Outros Tipos de Ensino”), correspondendo a 3,1 e 1,7% respectivamente das despesas totais dos agregados.

Apêndice 17: Interpenetração e evolução do mercado das comunicações móveis

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A busca de um modelo pedagógico adequado ao ensino-aprendizagem móveis tem que incluir uma dimensão de busca activa da “espontaneidade” pois nenhum constructo teórico, por mais claramente delineado no plano ideal, tem interesse se não tiver utilidade; atendendo à dimensão prática da pedagogia e ao objectivo da educação como “desenvolvimento da realidade pessoal”. E no campo das tecnologias móveis, em particular, exemplos fundacionais há que desaconselham o entusiasmo com aproximações que sobrevalorizem as permissividades e as vias abertas (as “bilhas” enquanto tal) por contraponto com o que é individualmente experimentado como útil e necessário (a “água” que elas devem levar da fonte). Pensamos nos concretos exemplos dos MMS (Serviço de Mensagens Multimédia) e da “vídeochamada”. É preciso ter acompanhado proximamente as acções de marketing promocional, para ter hoje presente o substancial logro dos inúmeros estudos que, no alvor das redes de terceira geração, quando o ARPU (receita média gerada por utilizador) dos serviços de segunda geração se encontrava estagnado e a penetração desta chegava aos 100%, apresentavam como dado adquirido a breve trecho um universo de comunicações pessoais em que a imagem face a face imperaria e o acabrunhante limite dos 160 caracteres do SMS (Serviço de Mensagens Curtas de Texto) seria ultrapassado com a expansão das formas de expressão individuais à combinação das foto, imagem e som.

Anos volvidos, os telefones 3G com duas câmaras ostensivas, tipicamente uma delas voltada para o próprio utilizador, de forma a facilitar a auto-captura de imagem na vídeochamada, deixaram de ter o mesmo apelo e, feitas as contas, no tocante ao messaging, o caminho empreendido pela tendência afluente foi o inverso: abatendo-se vinte caracteres aos SMS, reservados para rodapé, para os 140 caracteres permitidos pelo Twitter.

Um conjunto de factores pode ser avançado como explicativo para a distância entre o “potencial” percepcionado e a generalização da efectiva adopção: a prática de preços elevados e um modelo de licenciamento do UMTS com licenças exorbitantes que hipotecaram o desenvolvimento ao serem transferidas para o preço dos serviços; a sobrestimação da facilidade com que os utilizadores desenvolveriam capacidades de escrita multimediática estarão entre elas. Não se teve ainda, sobretudo, no nosso entender, deixar de ter presente alguma resistência na abertura da esfera mais íntima de privacidade e a existência de um fosso face às necessidades realmente sentidas. Se é certo que as novas tecnologias da comunicação vieram introduzir tensões entre as órbitas do público e do privado, a verdade é que a sociedade que teve de as integrar é a mesma e muda os hábitos a um passo mais lento do que as tecnologias são adoptadas devendo o processo de evolução social resultante ser visto como um de resistência, negociação, interacção e reajuste[116].

Dados da ANACOM – e.g. o Inquérito ao Consumo dos Serviços de Comunicações Electrónicas 2007 – apontam assim para uma quebra percentual significativa nos serviços (MMS e vídeochamada) utilizados com os telemóveis 3G, decaindo de um adopção por utilizador em 63,9% em Fev. de 2006 para 28% em Dez. de 2007, no que toca aos MMS, e de 26,6 para apenas 6,1% no que toca a vídeochamada em igual período. Tendência confirmada por valores actualizados nas estatísticas dos serviços móveis para o primeiro trimestre de 2009 onde, em termos absolutos, se constata que no conjunto dos primeiros três meses do ano, em Portugal se enviaram cerca de 20 milhões de MMS, menos 1,6 por cento do que no igual período anterior – e segundo valores absolutos que se têm mantido constantemente decrescentes desde o segundo trimestre de 2008, ainda que a disponibilidade dos dispositivos compatíveis tenha aumentado - verificando-se que, em média, cada assinante do serviço telefónico móvel com acesso às redes de 3ª Geração enviou cerca de 3 mensagens multimédia (uma por mês) no trimestre em análise. No que toca as vídeocachamas, no primeiro trimestre de 2009 foram realizadas cerca de 1,3 milhões (média aprox. de 14 mil por dia).

Isto quando o número de utilizadores com acesso aos serviços UMTS em Portugal ultrapassou os 4,8 milhões – dos quais cerca de 1,6 milhão efectivamente activos; tendo-se atingido uma penetração da 3G em cerca de 40,7 por 100 habitantes – o que coloca o país no terceiro lugar na União Europeia, que tem como média 21,4.

O aparente entusiasmo inicial, com subsequente “arrefecimento”, pode provavelmente ser em parte explicado pelo modelo da difusão da inovação tecnológica proposto por Rogers (1995), que nos fala de um padrão típico de adopção passível de representação por uma curva em forma de sino em que o público aderente tende naturalmente, numa primeira fase, a ser composto por uma franja mais entusiasta, proactiva e competente antes de progressivamente por homogeneização e pelo efeito da liderança de opinião se chegar à massificação. Temos assim, que os “primeiros a chegar” (“inovadores”, strictu sensu) são os mais interessados, gerando rácios entre posse/uso efectivo da tecnologia mais elevados do que os que chegam a adquiri-la mais tarde “por contágio” e com um esforço comparativamente menor (inclusive monetário, pela lei da oferta-procura e consequente abate no preço dos dispositivos; como tal também desvalorizados no “mercado da vaidade pessoal” – i.e., elidindo a dimensão de uso ostensivo como conferidor de status).

 


[116] Para uma resenha do estado da arte no estudo das práticas sociais associadas ao telemóvel veja-se O Telemóvel e o Quotidiano (Dias, 2008); em especial, sobre esta matéria, a p. 165 e seg.s.