nativos digitais

Apêndice 16: Da comunicação ao conhecimento. Considerações sobre determinismo tecnológico e consumo

Se o papel das Tecnologias na Educação não é indiferente às concepções vigentes sobre Informação e Comunicação, na nova “tecnopolia”, crente de que “o primeiro, se não o único, objectivo do trabalho e pensamento humanos é a eficiência, que o cálculo técnico é em todos os aspectos superior ao julgamento humano - e que os assuntos públicos são melhores guiados e conduzidos por peritos” (Postman, 1993, p. 51), a informação decomposta em “dados” que já não mascarram as mãos banalizou-se, perdeu valor e tornou-se numa forma de entulho; na pior hipótese deliberada forma de inebriação dos sentidos, propositadamente promovida pelos Média de forma a envolver passivamente o indivíduo numa teia difusa de “simulacra” da realidade, neutralizando-o e reduzindo a sua cidadania ao estatuto de consumidor.

Para além do obsoleto “comprar por precisar”, na sociedade de consumo, o signo – sendo toda a “comunicação” na essência troca simbólica - adquire valor para a economia política porquanto passa a impregnar os objectos, constituídos em mediadores das relações sociais[110] enquanto “a fuga de significante para significante não passa da realidade superficial de um desejo insaciável na medida em que “se se admitir que a necessidade nunca é tanto necessidade de tal objecto quanto a «necessidade» de diferença (o desejo do sentido social), comprender-se-á então porque é que nunca existe satisfação completa, nem definição de necessidade” (Baudrillard, 1975, p. 114). Esta análise é actual e particularmente válida tanto enquanto metáfora da experiência de navegação na Internet como enquanto prisma enformador da adopção dos dispositivos de comunicação móvel.

De facto, dados recentes levam a constatar tanto que o tempo passado a navegar supera já o passado a ver TV como antever que as novas gerações de “nativos digitais”, chegados aos 20 anos de idade, terão previsivelmente passado cerca de 10 mil horas em linha – o mesmo tempo que um pianista profissional tem de prática para elevar a sua arte au point  (Palfrey & Gasser, 2008, p. 289). Estes novos “artistas” do digital, que disporão tão enérgica como naturalmente os dedos sobre os teclados e provavelmente os olhos sobre a imagem pixelizada, ao contrário das gerações actuais, a quem o padrão papel-impresso ainda leva - como as gerações mais velhas insistem em falar de “contos” e não de “euros”- a passar a informação à forma analógica antes de a poder deglutir, para gáudio dos fabricantes de pasta de papel, terão no entanto de enfrentar novos desafios; mormente desafios no modo de gestão da informação. E se é certo que a superabundância confunde, não é menos seguro que a mente humana cria saudavelmente os seus próprios filtros; sendo tão pouco plausível admitir que o excesso de informação há-de criar gerações de “desorientados” como seria acreditar, quando o domínio da TV como Mass Media se fez sentir, que se sucederiam gerações de analfabetos incapazes de ler ou necessariamente vagas de homicidas potenciais, transpondo para a realidade a violência com que eram bombardeados no pequeno ecrã.

Uma avaliação da forma como a inovação tecnológica tem sido apercebida ao longo do tempo é a este propósito elucidativa; ela opera invariavelmente segundo um princípio de compensação em que, no limite, a “sobrecarga” ou a inadaptação face ao “novo” são equilibradas com um mergulho nos domínios da espiritualidade - evidentes, há altura em que escrevemos estas linhas, e em que o blockbuster Anjos e Demónios é exibido nas salas de cinema, duplamente no sucesso contemporâneo do tema e no contexto histórico em que vagamente se inspira: a partir do renascimento, as “novidades” da vida urbana e de um mundo cujos limites a navegação alargara além das margens do Mediterrâneo em cujo horizonte os portulamos o confinavam, não foram enquadradas sem resistência; da mesma forma que a náusea da re-industrialização do pós-II Guerra, em plena década de 60, veio recuperar na forma do New Age e nas crenças derivadas quanto ao advento de uma nova Era de Aquário, com a eminência do seu Cristo (ou Anti-Cristo, segundo alguns) Maitreia, senhor do sétimo raio, de acordo com um misticismo com raízes de questionável integridade nas Teosofia e Antroposofia de Helena Blavatsky e Rudolf Steiner (este último arauto de uma corrente em Ensino dita “Pedagogia Waldorf”, com bastos adeptos subsistentes, mascarando sob a forma apelativa do “holismo” uma espiritualidade pagã alternativa à judaico-cristã[111]) que privilegiam a emoção e o sentimento, porque mais próximos do “espírito”, sob a “racionalidade”, desdenhada como grilheta de um positivismo obtuso[112].

Para o efeito anterior, em A Internet, A Nova Via Iniciática (Bonnal, 2001), encontramos uma provocante inversão de termos, apresentando-se a “rede das redes” como corolário do projecto tecnológico ocidental[113], iniciado no século XVI, com o iluminismo, advogando um mundo cosmopolita, sem fronteiras, aberto aos saberes e à troca de ideias e técnicas sob a firme direcção da “Razão”.

O incenso queimado com a promoção deste efectivo potencial dialógico – num paradoxal sentido de “esfera pública” – coexistiu, falando de educação, e de tecnologias educativas, com uma extensão da noosfera aos domínios das Tecnologias da Comunicação, a qual começou com a idealização da construção do Canal de Suez (inaugurado em 1869) por Enfatin e se veio a estender no tempo com a colocação do primeiro-cabo submarino (no canal da Mancha, em 1850), ao primeiro satélite de comunicações (o Score, em 1958) até finalmente chegarmos ao advento das primeiras redes GSM (na Finlândia, em 1991) e UMTS (no Japão, em 2001)[114].

Na etimologia de “rede” subsiste a forma latina retis e a ideia de que, antes de ser “teia” multinodal, ela é o instrumento usado na captura do peixe; por definição instrumento de engodo e “armadilha”; tanto para a sardinha incauta como em inadvertidas circunstâncias enquanto meio obstrutivo para o leme do navio. É como tal que a intensificação da comunicação e da circulação da informação, devem ser encarados na óptica das ciências que se ocupam da Educação: desafio de assegurar o balizamento da navegação e evitar o emaranhado paralisante e disruptivo, gerados pela saturação do espectro e pelo excesso de ruído ambiente.

Assim, a dimensão e a importância da Educação permanecem perenes, seja percepcionada na sala de aula e na relação pedagógica directa, seja em ambiente de e-Learning através da mediação de um LMS, seja, mais amplamente, de forma normativa, no recorte das políticas educativas e das prioridades, deveres e responsabilidades atribuídos aos novos Media e respectivos promotores; independentemente de, descentralizando o processo de aprendizagem se lhe chamar scaffolding ou de, em fidelidade a Littré, se continuar a ter a noção tangível e táctil do Pedagogo como “aquele que leva pela mão”.

O advento das TIC e o fenómeno global de digitalização na base da WWW, conforme fixados por Negroponte (1996) tem paralelo com o do advento da Televisão; e os dois mass media podem e devem ser comparados; não numa perspectiva de substituição mas numa óptica de coabitação (a demonstrá-lo, em 30 de Abril de 2009, a inauguração em Portugal das emissões da Televisão Digital, DVB-T, com a extinção prometida do sinal analógico em 2012) e complementaridade; tentando sobretudo ter e saber a aproveitar a memória buscando na avaliação que já se pode fazer, em 60 anos de vida, entre as expectativas geradas pelo surgimento da primeira face ao seu desenvolvimento subsequente. À margem de projectos paradigma de sucesso, como entre nós a Telescola, e porventura muitas outras felizes aplicações, com que nos fomos familiarizando, desde a popular “Rua Sésamo” a alguma linha de orientação programática, mais facilmente discernível antes da abertura dos canais à iniciativa privada, há pouca dúvida quando ao consenso da “realidade produzida ficar aquém da promessa” inicial.

Conforme faz notar Sartori (2000, p. 47), num texto de 1999 e pré Web 2.0 - é bom notá-lo -“o problema é saber se a Internet vai, ou não, produzir crescimento cultural” na medida em que, na oitava seguinte, sobre a qual o presente trabalho versa, o cruzamento da “conectividade” com “miniaturização” e a “convergência” que gerou a “mobilidade”, o desafio reside ainda na conjugação da tripla dimensão de uso a que qualquer meio de comunicação está sujeito: prática, lúdica e educativa. Se, menos exigentes, as primeiras resultam indisputáveis; a terceira é trabalho em progresso; e um trabalho tão mais árduo quanto o desafio e a palavra-chave são a “motivação”; ou mais apropriadamente, a “auto-motivação”, que, a desenvolver-se, continua sujeita ao requisito da capacidade de abstracção, sem a qual não se entra, na expressão do mesmo autor italiano, no mundus intelligilibis, quedando-se o indivíduo pelo mundus sensibilis; em que a emoção impera sobre a razão; e o “estar” se substitui ao “ser”.

Ora, para se poder usar a Internet para educar para “Ser” (um dos leitmotifs oportunamente assumidos no relatório Delors - ver acima) tem que se ter em consideração o perfil cognitivo dos formandos; e este continua moldado pelo paradigma do homo videns; do observador passivo que antes de entrar na “rede” já vivia essa condição e em função progressivamente a moldou, antes de ser moldado por ela. Isto é válido de forma evidente para as gerações mais velhas, mas uma questão em aberto para as que agora estão a crescer no meio.

Haverá construção de saber sem interesses prévios? Como pode coexistir o progresso cultural e o desenvolvimento pessoal em condições de baixa directividade; em suma, como se pode encontrar o caminho se não se conhece o destino?

São desafios que necessitam de repostas para que não se cumpra a profecia de acordo com a qual “a paideia do vídeo promete passar para a Internet analfabetos culturais, que rapidamente esquecerão o pouco que aprenderam na escola, portanto, analfabetos culturais que irão matar na Internet o seu tempo vazio na companhia de «almas gémeas» desportivas, eróticas ou de pequenos hobbies”, segundo um perfil de utilizador para quem a Internet, o telemóvel, o netbook ou o PDA, mais não são do que uma “forma formidável de desperdiçar o tempo”.

A propósito da necessidade de bússola para as práticas educativas, o norte-americano Neil Postman (2007), por vezes acusado de “ludita”[115], recorda em O Fim da Educação que  “a escola não pode sobreviver sem uma qualquer razão para a sua existência” e que por consequência, face à perda de autoridade dos protagonistas, é importante encontrar o que metaforicamente chama de “Novos Deuses”; narrativas cujo fim não é “descrever cientificamente” o Mundo mas tão só dar-lhe sentido - ou torná-lo “suportável” – aquilo a que outros, como Mircea Eliade apelidam de “mitos”.

Sucede que a narrativa vigente da utilidade económica propondo a formação de competências práticas como justificada pela garantia do emprego bem remunerado é débil e encerra uma contradição: por um lado sugere uma formação técnica centrada nas necessidades profissionais concretas, por outro afirma que o mercado de trabalho do futuro imporá a necessidade de indivíduos com uma capacidade de adaptação rápida à mudança, capazes de reciclarem conhecimento e – ante o fim do “posto de trabalho para a vida” – se saberem recriar. Ora, a abertura de espírito e a curiosidades inerentes a esta última atitude estão em contradição com a formação profissionalizante. As competências técnicas poderão somente surgir através de uma competência mais geral, estando a “utilidade económica” dependente da boa educação e não o inverso.

É também por isto que faz mais sentido falar em Novas Tecnologias na Educação Social – como o fazem (Sevillano García, 2008) – do que propriamente em mobile learning.

 


[110] Para o Ensino, a teoria da Actividade de Leontiev (2009), inspirada numa interpretação dialéctica e materialista da história, sugere algo de semelhante: que na realidade a mediação pelos objectos e o desenvolvimento de operadores simbólicos foi em termos da teoria da evolução a alavanca que permitiu a emergência da psique humana e a passagem a estádios progressivamente mais complexos (sensório e perceptual) até ao desenvolvimento da inteligência. Assim, se a "actividade" emerge como princípio germinal explicativo da adaptação dos seres vivos ao meio, a “necessidade de agir” (agência) explica como os “conceitos" derivam do uso dos objectos enquanto "percepção partilhada" da experiência do seu uso (Kaptelinin & Nardi, 2006, pp. 51-65). Por outro lado, o desenvolvimento e manipulação de artefactos estiveram na base da divisão social do trabalho; e assim, desde sempre, e mesmo nas sociedades mais primitivas, eles foram elementos fetiche diferenciadores de status. Para o estudo do mobile learning estas considerações são importantes na medida em que os “dispositivos móveis” não são mais do que outra espécie de objecto, com a particularidade de por concepção serem instrumentos manipuladores de signos, à partida, com especial potencial de expansão e alteração das funções perceptivas.

[111] Não por acaso esta notou a coincidência do número “mágico” sete com os tipos de inteligência identificados por Howard Gardner, tendo-se esforçado por a incorporar.

[112] Sobre esta matéria vejam-se por ex. as perspectivas críticas da Escola de Frankfurt em Adorno & Crook (2002) e, mais recentemente, de Sagan (1995) bem como a visão de Gibbons (2001) – em especial o capítulo VIII onde se faz o entrosamento de alguns pensadores clássicos das ciências sociais do século XIX com o pensamento oculto.

[113] O mesmo que Alain Touraine (1994, p. 9) identifica como propósito da modernidade: a correspondência da organização social regulamentada com o modo de produção, orientados pela cultura científica.

[114] Armand Mattelart tem a este propósito em A Invenção da Comunicação uma obra de leitura especialmente interessante (Mattelart, 1994). Veja-se ainda Headrick (2008), em particular o cap. VII (“The Acceleration of Change 1869–1939”) onde se chama a atenção para o facto de, ao arrepio do discurso propalado na Sociedade da Informação, na primeira vaga da que presidiu à emergência da “Rede Global” (McNeill & McNeill, 2003), correspondente à industrialização, boa parte dos grandes impulsionadores/inventores não tinham treino científico formal. De facto, antes de meados do século XX as ligações entre o universo académico-científico e técnico-industrial eram raras; começando progressivamente a surgir primeiro no Alemanha, pioneira das “Universidade Técnicas” e depois nos E.U.A., com o conhecido M.I.T. a ser fundado em 1865. Em Portugal, abstraindo esforços longínquos como a instituição do Colégio dos Nobres por Pombal, na raiz da subsequente Escola Politécnica, instituída em 1837 (R. d. Carvalho, 2008, p. 569), a Universidade Técnica de Lisboa nasce federativamente por decreto de 1930 no intuito de, como se lê no decreto instituidor (e aqui o que interessa reter é a associação directa do ensino superior à melhoria da prática profissional), “Conjugar as escolas superiores técnicas mais directamente umas com as outras, no sentido da finalidade (sócio)económica colectiva, e honrar as profissões para que elas preparam, as quais constituem actividades fundamentais para a existência e para os progressos do País".

[115] “Luditas” foi o nome porque – de acordo com o seu apelido do seu líder mítico, Ned Ludd - no início do século XIX ficaram conhecidos bandos de artesões têxteis ingleses que, substituídos nas fábricas por máquinas, ripostaram violentamente destruindo-as. Hoje em dia a expressão é usada em sentido abrangente para designar os que se opõem à mudança tecnológica.

III.2 Especificidades das tecnologias móveis como ferramentas cognitivas

Jonassen, em Computadores, Ferramentas Cognitivas (2007), aduz numa lógica construtivista que os dispositivos computacionais devem ter como função primordial serem adjuvantes do pensamento crítico autêntico; parceiros intelectuais numa relação em que – bastante próximo da proposição do conectivismo – o elemento humano - os alunos – devem ser responsáveis por reconhecer e julgar padrões de informação, organizando-a posteriormente; enquanto aos computadores deve caber aquilo em que são mais eficientes: efectuar cálculos e recuperar a informação. A separação é aguda, pois destaca a necessidade de distinguir o simples acesso à informação da construção significativa do conhecimento. Enquanto a primeira, situada a nível do pensamento elementar, pode ser dada como auto-evidente; o segundo, correspondente à elevação da aprendizagem a processos do pensamento complexo (crítico e criativo) constitui o desafio que deve ser activamente procurado e desenvolvido pelos responsáveis com funções formativas.

Passar do conhecimento aceite, da forma instrucional tradicional, ao incentivo do conhecimento crítico é uma tarefa exigente situada além do uso das TIC como canal distribuidor da informação especialmente conveniente. Da mesma maneira que para fazer e-Learning não basta disponibilizar sebentas em formato digital – elevando, como não é infrequente, o formato “PDF” a grande equalizador automático – fazer m-Learning é um problema mais complexo do que promover o estudo pela leitura nos diversos contextos espácio-temporais em que o aprendente se encontra imerso. Para esse efeito é curial recordar que a “aprendizagem confinada”, como modelo, não se limitava a ter a função de brainwashing; a imersão num ambiente controlado tinha ainda a função de permitir o controlo da atenção, colmatando pela presença coactiva do professor ainda que parcialmente o desafio da “motivação” e da concentração, igualmente necessárias quando seja o aprendente a controlar a aprendizagem.

Como critérios para avaliar os dispositivos móveis como ferramentas cognitivas, na nossa exposição, vamos socorrer-nos como ponto de partida dos critérios propostos por Jonassen (2007, p. 31), com as devidas adaptações para o m-Learning, ainda que redundantes nalguns aspectos. A aber, são equacionáveis como instrumentos de mobile learning dispositivos que correspondam aos seguintes requisitos:

  1. Ferramentas baseadas em dispositivos computacionais móveis. O acento aqui deve ser colocado na expressão “computacionais”; embora obviamente existam outros dispositivos capazes de apoiar a mobilidade do utilizador - por ex., desde há décadas a esta parte, walkmans reprodutores de cassetes ou mesmo discmans, leitores portáteis de CD – pressupõe-se que uma ferramenta cognitiva em mobile learning só o é conquanto passível de gerar interactividade, o que normalmente implica a acção reversa do utilizador de forma a introduzir dados, impossível sem uma unidade de processamento – CPU – e uma forma de introdução de informação, cuja gestão digital pressupõe igualmente com maior ou menor capacidade de resolução e reprodução de cor a existência de um ecrã. Não invalida que concomitantemente se possa acrescentar funcionalidade acoplando um dispositivo dedicado ao qual faltem estas características; tipicamente pode ser o caso das antenas GPS bluetooth (que não servem para nada se não forem usadas com um dispositivo com interface) ou de dispositivos de armazenamento, tipo USB (por si sós desprovidos de utilidade).
  2. Aplicações disponíveis. Não basta que os dispositivos móveis sejam computacionalmente capazes; é necessário que possam executar aplicações de software com utilidade - de preferência e desde logo aplicações generalistas já disponíveis – mormente através da WWW - ou, no mínimo, reproduzir e editar formatos universais.
  3. Preço acessível. Evidentemente, nenhum plano pessoal ou institucional pode escamotear a necessidade de manter os custos o mais baixos e viáveis possível. Um dispositivo móvel – e.g, um netbook - pode atingir um pináculo de capacidade mas os seus custos tornarem preferível a opção por outro com menor performance mas de mais fácil adopção. Por outro lado, em mobile learning, o factor “preço” é indissociável do valor cobrado pelas comunicações. O acesso pelas redes locais pode ser preferível (Wi-Fi ou mesmo a distribuição bluetooth) ao pelas redes HDSPA.
  4. Construção do conhecimento. A aplicação é tão mais útil quanto possa ser usada para construir ou representar conteúdo ou conhecimento pessoal; tem uma componente de “recuperação” ou acesso a repositórios pessoais, on e offline e outra de exploração do contexto (inclusão de tecnologias de geolocalização).
  5. Generalização. Idealmente as affordances devem ser tais que permitam o uso versátil, o reaproveitamento e uso diversificado da aplicação ou dispositivo, acompanhando as diversas áreas de interesse e evolução ao longo da vida do utilizador.
  6. Pensamento crítico. Promoção da abstracção, acomodação e reajuste estrutural do pensamento.
  7. Aprendizagem transferível. Capacidade de servir a interdisciplinaridade e exercitar competências comuns aos diversos domínios do saber.
  8. Formalismo simples e poderoso. Boa usabilidade, eventualmente uso de metáfora sugestiva na interface.
  9. De fácil aprendizagem. Requisito auto-evidente e tão mais importante quanto se sabe que a generalidade dos utilizadores, mesmo os ditos “nativos digitais” tem uma dificuldade elevada em utilizar as funcionalidades alem do básico dos dispositivos móveis (ver Apêndice 4: Nomadismo tecnológico, nativos digitais e exclusão, em particular o relatado na nota 90)
  10. Autonomia de funcionamento. Passibilidade de acumular e gerir o dispêndio de energia tendo em vista a máxima extensão de uso.
  11. Conectividade. Facilidade em trocar informação com outros dispositivos e em se ligar a redes próximas ou globais.

De um ponto de vista técnico, para organização de ideias, podemos ainda operacionalizar as “especificidades” do desenho para dispositivos móveis em cinco grandes tópicos (veja-se ainda o Apêndice 10: Tecnologias qualificáveis como especificamente móveis e ou promotoras da mobilidade) ou, se se preferir, ordens de variáveis a equacionar (damos de bom grado concomitantemente as relativas às especificidades partilhadas com outros tipos de dispositivo, como a resolução de ecrã, CPU, memória, formas de input e output suportadas – e.g. saída para auscultadores ou sinal para TV et caetera):

1.        Plataformas cliente

  • Sistema operativo móvel (e.g. BlackBerry, Android, Symbian, Maemo, Windows Mobile…)
  • Formatos de cartões de armazenamento e respectiva capacidade suportados

2.        Distribuição de conteúdos móveis e conectividade

  • Serviços móveis suportados (e.g. SMS, MMS, vídeo-chamada, Push to Talk…)
  • Conectividade sem fios
  • Tecnologias de proximidade e localização

3.        Desenvolvimento dos conteúdos móveis

  • Acessibilidade
  • Empacotamento de conteúdos
  • Metadados

4.        Suporte de formatos

  • Áudio
  • Vídeo
  • Internet móvel (e.g. WAP, HTML, Javascript…)
  • Imagens estáticas
  • Publicação de documentos
  • Formatos interactivos (e.g. Flash, Silverlight, midlets Java…)

5.        Autonomia energética

  • Capacidade da bateria
  • Facilidade de recarga (e.g. via ligação USB)

Do anteriormente exposto resulta que o espectro de dispositivos móveis passíveis de ser incorporados num uso educativo vai dos simples leitores de MP3, na forma instrucional passiva, aos dispositivos de entretenimento pessoal tipo Archos, às consolas de jogos (as mais recentes das quais incluem opções de conectividade) aos telemóveis e smartphones (categoria que passou a integrar a defunta dos PDAs  - Personal Digital Assistants -, cujo último estertor foi provavelmente o modelo HP iPAQ 214, lançado em Portugal em Março de 2008), passando mais recentemente pelos UMPCs (Ultra Mobile Portable Devices), categoria ela própria fugaz que mediou entre o declínio dos PDAs e as tendências mais recentes para a preferência pelos Netbooks e os PNDs (Personal Navigation Devices).

Apêndice 4: Nomadismo tecnológico, nativos digitais e exclusão

“O respeito pelo passado - eis o traço que distingue a instrução da barbárie; as tribos nómadas não possuem nem história, nem nobreza” A. Pushkin

A expressão “nomadismo tecnológico” generalizou-se para descrever a situação do homo sapiens digital (Prensky, 2009) em que ao indivíduo passou a ser dada a possibilidade de acesso errante às tecnologias de comunicação e em que estas o acompanham onde quer que vá; trata-se de uma condição possibilitada pela acção concertada das redes sem fios e da miniaturização dos dispositivos computacionais.

O debate sobre o “teletrabalho”, afluente a partir da década de 80, ou mesmo o sobre o tele-estudo e o e-Learning, emergente uma década depois, são seus precursores. No entanto, enquanto a prática demonstrou que o funcionamento à distância destes esbarrava com frequência na anomia, sucumbindo-se ao isolamento ao mesmo tempo que, na prática, a inflexibilidade dos espaços não acompanhava a flexibilidade aparente da gestão do tempo – podia ser possível “trabalhar no conforto do lar e a qualquer hora do dia”, mas continuava a ser necessário fazê-lo com acesso aos meios de comunicações cablados; já para não falar, do ponto de vista da carreira profissional, nas desvantagens práticas de um teletrabalhador isolado, ausente do ambiente profissional e da criação de laços com a chefias e supervisores ou da dificuldade experimentada por muitos em gerir o tempo e lidar eficientemente com as exigências da atenção repartida (entre, por hipótese, a redacção de um texto e a solicitação de atenção de um filho menor) . O "tempo mental" de cada um difere do tempo civil e, para a maioria, continua a ser igualmente inelástico.

As redes móveis ao assegurarem a conectividade na deslocação permitem fazer do m-Learning um passo adiante face ao e-Learning: enquanto o segundo constrange psicologicamente (no limite, ninguém consegue ficar um dia inteiro em casa frente ao computador) o segundo "liberta". Tem no entanto o reverso do desafio da "concentração" e da retenção da “atenção” – por ex., será que é possível o estudo profundo em condições imediatas, necessária para um aproveitamento eficiente do tempo, com aturados níveis de abstracção, sem um processo mental de chill out e pré-disposição? Por ex., pode ser possível usar um smarthphone para estudar no fresco relvado de um jardim público, mas será que se consegue fazê-lo com proveito nos 20 minutos que medeiam entre sair de casa e partir para apanhar um comboio? Tradicionalmente, a organização mental dos indivíduos pressupõe por comodidade a associação de determinados lugares a determinadas tarefas; um aprendente móvel bem sucedido teria primeiro que ser desprogramado; seria necessário soltar a associação cultural operando uma espécie de “efeito Renascença” em larga escala, desconsagrando mentalmente o espaço da sala de aula como o da igreja para poder levar com sucesso a disponibilidade para aprender, como para comungar e ouvir missa, pelos cabos de fibra óptica.

Do nosso ponto de vista, a chave que facilita a mudança não deve pois ser procurada na "multifuncionalidade" dos espaços (extensão das actividades nos espaços individualmente considerados) mas na ligação entre eles. É menos conveniente que se possa "fazer muitas coisas ao mesmo tempo e sem mudar de local" e mais poder "fazer coisas em tempos e locais em que de outra forma não se fariam".

A execução simultânea de múltiplas tarefas (multitasking) pode ser fácil para um computador – seguindo uma lógica notacional - mas para muitos “imigrantes digitais” revela-se motivo de stress e frustração; o que não invalida que a função modifique o órgão e que as gerações emergentes de “nativos digitais” - para usar a expressão igualmente popularizada por Prensky (2001) para descrever os nascidos após 1980, com acesso às tecnologias digitais em rede logo a partir das primeiras fases da sua instrução[86] - venham a beneficiar da tecnologia de uma forma diferente. Mais do que pela idade, o “nativo digital” define-se pelo à vontade com que interage com as tecnologias da informação, sendo que numa primeira fase, os que maior partido conseguiram delas retirar foram, de acordo com o Efeito Mateus[87], aqueles cuja formação já era à partida mais sólida e abrangente; ou seja, na fase da introdução, as tecnologias da informação agravaram tendencialmente o fosso com os que já tinham pouco acesso à educação.

Além do domínio cumulativo dos saberes, o desfasamento de competências impostos entre as gerações mais velhas de “imigrantes digitais” e as mais recentes de “nativos digitais” tem ainda um impacto conhecido no sistema de ensino, com o corolário de subaproveitamento e colocação em questão da autoridade dos primeiros.

Tabela 10: Contraste entre nativos e imigrantes digitais

Aprendentes: Nativos digitais

Professores: Imigrantes Digitais

Preferem receber informação rapidamente de múltiplas fontes multimédia

Preferem a disponibilização progressiva e controlada da informação de um número limitado de fontes

Preferem o processamento paralelo e a execução de múltiplas tarefas

Preferem o processamento singular e tarefas individuais

Preferem imagens, sons e vídeo antes do texto

Preferem fornecer texto antes do multimédia

Preferem o acesso aleatório a recursos hiperligados

Preferem o fornecimento linear de informação, de forma lógica e sequencial

Preferem a interacção simultânea com múltiplos interlocutores

Preferem a acção independente dos estudantes

Preferem a aprendizagem just-in-time

Preferem ensinar just-in-case (não vá aparecer no exame)

Preferem a gratificação instantânea

Preferem gratificar/atribuir notas em diferido

Preferem a aprendizagem relevante, instantânea, útil e divertida

Preferem ensinar segundo o currículo e testes padronizados

Fonte: Ian Jukes e Anita Dosjal, The Infosavy Group

Palfrey & Gasser que dedicaram um volume inteiro à condição dos “Nascidos Digitais” (2008, p. 237), incluindo um capítulo inteiro - o onze - consagrado ao seu estatuto de “aprendentes”, relatam-nos uma série de episódios paradigmáticos tanto do desfasamento entre gerações como, sobretudo, da dificuldade experimentada pelo sistema de ensino em integrar a tecnologia. Resulta que incorrem tanto em falácia os tecnófilos como dos tecnófobos; nem a introdução “por si” de computadores e quadros interactivos nas salas de aula é forçosamente proveitosa; nem necessariamente o perfil típico de processamento da informação pelo nativo digital (segundo uma lógica de “apascentação”[88] da atenção e leitura diagonal global, seguido do “mergulho profundo” nos temas que interessam e eventualmente na entrada no feedback loop, seja pela difusão entre conhecidos, facilitada pelo e-mail, seja pela retroalimentação do debate como na típica adição de comentário em blog) o condena à superficialidade. Na realidade, se é por ex. certo que os nativos digitais tendem a não comprar jornais e em alternativa se inclinam a ler “as gordas” em linha; não é menos certo que, ao contrário da geração anterior, em contrapartida, eles o fazem com maior frequência ao longo do dia.

Tabela 11: Habilidades (dos nativos) digitais

Sociais/Pessoais

Cognitivas/Físicas

Técnicas

Comunicação
Conhecimento Geral
Colaboração
Auto-estima
Processamento paralelo
Persistência
Aprendizagem com os pares
Capacidade de assumir riscos

Múltiplas tarefas
Pensamento lógico
Capacidade de solução de problemas
Aprendizagem pelo erro

Coordenação mão-olho
Confiança Técnica
Web design / criação de conteúdo

Fonte: Green & Hannon (2007)

Malgrado o preconceito erudito de que a cultura digital é um atentado contra a literacia e a cultura profunda e reflectida dos livros, desmentido pela evidência de que os indivíduos com acesso à Internet acabam por ler mais do que os sem ele, continuando a forma escrita a ocupar um lugar central[89] - não existem elementos objectivos suficientes que permitam concluir que as novas gerações sabem nem mais nem menos do que as anteriores; para este efeito, Bennet, Maton & Kervin (2000) introduzem uma pitada de “realismo” na discussão ao notar – não por acaso, uma vez que redigem a partir do Reino Unido, país que se agitou recentemente com a reforma protagonizada por Sir Jim Rose (Whelan, 2009) que flexibilizou o curriculum do ensino primário, abrindo nele espaço para as TIC, como o Twitter (Curtis, 2009) - com apoio em estudos recentemente elaborados nos mais distintos continentes que os nativos digitais não se furtam à regra geral de que por cada participante activo (por cada “redactor) continua a existir uma percentagem entre 4 e 5 vezes mais elevada de consumidores passivos de informação; nem que, na realidade, todos os jovens são necessariamente “craques” das TIC, detendo uma comparativamente larga percentagem um défice de capacidade no seu maneio[90].

Para Portugal, o estudo e-Generation (G. Cardoso, et al., 2007, p. 167 e seg.s) fornece alguns indicadores interessantes para o estrato etário entre os 8 e os 18 anos. Assim, por razões que se explicam desde logo pelo escasso orçamento e dependência familiar, a generalidade dos adolescentes tem um uso comedidamente criativo do telemóvel; focando-se sobretudo nas funções mais básicas como o SMS (com uma média de 27 enviadas por dia) enquanto o acesso ao e-mail por ex. nunca foi experimentado por 4/5, uma percentagem ligeiramente superior mesmo para os que nunca usam o telemóvel para aceder à Internet (81,3%); ou sequer (mais de metade) a funcionalidade “Agenda”.

Apesar de praticamente ominipresente entre os adolescentes portugueses, parece assim apressado afirmar que eles estão hoje a descobrir novos e especialmente criativos usos a dar-lhe ou que já é evidente uma nova forma de “literacia digital” – para esse efeito, por ex., apesar de a maioria (51,7%) ter câmara no telemóvel, a média de uso está abaixo das seis fotografias semanais – com uma curiosa prevalência na preferência dos rapazes (6,7 fotos por semana) sobre as raparigas (4,7 fotos por semana). E reputamos esta diferença por género de “curiosa” porquanto vai em consonância com aquilo que se sabe das diferentes apetências estruturais dos cérebros masculinos e feminino – conhecendo-se por um lado que o multitasking é mais fácil para as mulheres e que muitas das competências em jogo para o sucesso dos nativos digitais apelam mais ao hemisfério esquerdo do cérebro[91] e por outro que a “imagem” tem um poder de estímulo superior para os homens.

O fosso entre infocompetentes e infoexcluídos não se resume no entanto às gerações ou aos géneros. Numa óptica desenvolvimentalista, “a brecha digital define-se como a separação que existe entre as pessoas (comunidades, estados, países) que utilizam as TIC como parte rotineira da sua vida diária e aqueles que não têm acesso às mesma que ainda que as possuem não sabem como utilizá-las” (Santoyo & Martínez, 2003).

Em suma, na sociedade internacional a “exclusão digital” diz também respeito ao fosso entre estados ricos e pobres e ao facto de aos segundos faltarem as infra-estruturas e as condições económicas que permitam o ingresso na sociedade da informação.

Dentro de cada estado corresponde ao fosso entre os que têm e os que não têm acesso a computadores e à Internet. É motivada pela diferente distribuição na sociedade de recursos: a) materiais (rendimento e posse de equipamento); b) temporais (disponibilidade para usar os novos Media); c) mentais (competência técnica); d) sociais (redes de relações que favoreçam a "iniciação"); e e) culturais (estatuto e outras recompensas percebidas como motivadoras).

 


[86] Em Portugal, ao contrário dos Estados Unidos, deveremos admitir um retardamento de pelo menos uma década nesta baliza temporal. Assim, a progressiva introdução dos meios informáticos na escola e na formação é uma realidade que só se tornou evidente a partir da década de 90. Muitos dos nascidos em 80 só vieram a contactar com ela já na fase final do seu ensino secundário.

[87] Termo cunhado pelo sociólogo Robert Merton (1968) a pretexto da passagem do Novo Testamento - "Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter" (Mateus:25:29) - para explicar que aqueles com maior acesso e que desenvolveram maiores competências iniciais nas TIC e no uso da WWW tendem a aproveitar mais dela, fazendo disso uma vantagem comparativa. Aplicado à "exclusão digital" tal significa que os excluídos ficam cada vez mais excluídos, enquanto os infocompetentes são cada vez mais favorecidos. Da mesma forma, sistemas de funcionamento em rede, como o motor de pesquisa Google, que indexa os sítios segundo a sua popularidade, chamando a atenção para eles e portanto torna-os ainda mais populares funciona segundo o mesmo princípio. Mesmo quando são inerentemente "igualitárias" na forma como facilitam o acesso à informação, o acesso ao conhecimento nas redes continua a organizar-se segundo princípios diferenciadores e tendencialmente centrípetos, mesmo que polinucleares.

[88] Designada information grazing, em inglês.

[89] Neste sentido veja-se por ex. o estudo da Universidade de Conventry (Plester, Wood, & Joshi, 2009) onde se conclui que apesar de usarem o “smsês”, muitos alunos continuam a ter uma noção perfeita dos seus limites e na realidade o seu uso melhora as suas competências linguísticas de fundo.

[90] Projectos de introdução de práticas de mobile learning larga escala, como a iniciativa britânica Molenet, que reúne 20 mil utilizadores e gere 10 mil dispositivos, concluem isto mesmo: é um mito a crença de que os jovens automaticamente entendem as novas tecnologias e precisam de pouco treino para as aproveitar (vide os testemunhos, em linha: http://www.molenet.org.uk/mobilearinprac/myths/).

[91] Esta clivagem por género, como construção projectiva, é particularmente bem explorada nos estudos apresentados na obra Growing-up online(Weber & Dixon, 2007).