legitimidade

Apêndice 1: Da importância do ensino informal, da aprendizagem situada e das comunidades de prática

Ao longo deste trabalho vimos como o mobile learning é saudado como exponenciador da aprendizagem informal na medida da capacidade dos seus instrumentos em manter uma presença constante na vida dos utilizadores; tratar-se-á de uma forma de aprendizagem moldada ao contexto (ver I.4) e portanto “situada”. Um observador mais atento que se debruce sobre as teorias da aprendizagem a propósito carreadas, constatará porém com alguma perplexidade, sendo catecúmeno na área, a existência de uma vasta e dificultadora nebulosa semântica, com o uso umas vezes contraditório outras unívoco de expressões como “aprendizagem informal” e “não-formal”; “situada” (Wenger e Lave) ou “contextual” (Dewey, Kolb); “continuada” ou “permanente” (Faure); “ao longo da vida” (lifelong) ou “em todos os domínios da vida” (lifewide) [Memorando SEC(2000) 1832]; “autêntica” (Rogers) ou “aumentada” (Klopfer); “co-intencional” (Freire) ou “auto-dirigida” (Knowles); “conversacional” (Laurillard, na senda de Pask), “colaborativa” ou “convivial” (Illich), para dar apenas alguns exemplos.

A abundância de adjectivos é tão surpreendente quanto o facto de o substantivo qualificado ser quase invariavelmente a “aprendizagem” e apenas excepcionalmente o outro termo inextricável do binómio presente no paradigma tradicional da educação: o “ensino”; sendo raríssimos os textos que se debruçam sobre o “ensino móvel” (mobile teaching). Se tal é compreensível na óptica de uma tomada de partido pela deslocação do enfoque para o empowerment do aprendente, torna-se rapidamente uma contradição intolerável porquanto, na prática, e nos estudos de caso focados pela literatura, se constata com igual prontidão serem invariavelmente aplicações das tecnologias móveis ao serviço de um currículo; com apoio de um professor, segundo objectivos pré-determinados e portanto propostos exteriormente; logo experiências enquadráveis no ensino formal e escolar. É desde logo o caso do vigoroso debate corrente sobre o uso dos telemóveis “na sala de aula” que se quer apresentar como uma faceta do mobile learning quando claramente, reduzido a esses estritos termos, se configura bastante aquém do seu pleno (ver por ex. o Apêndice 8: Aplicações educativas dos dispositivos móveis).

Tabela 9 – Diferenças entre as aprendizagens formal, não-formal e informal

 

Formal

Não-Formal

Informal

Intencionalidade

Consciente programada

Consciente semi-programada

Inconsciente

Temporalidade

Limitada

 

Ilimitada

Espacialidade

Confinada

Parcialmente confinada

Deslocalizada

Enquadramento

Sistémico pré-determinado

Sistémico não pré-determinado

Autónomo

Gestão

Existência de uma entidade Promotora

(instituição de ensino ou formação)

Existência de uma entidade Promotora

(predominantemente associação cívica ou sócio-profissional)

Próprio aprendente

(auto-regulada)

Tutoria

Presença de professor ou tutor

Presença de um facilitador

Apoio nos pares

Qualificação

Atribuição de um grau ou diploma

Certificado de conclusão

Melhoria das competências

Resultados

Explícitos. Especificados Externamente

Especificados Internamente

Implícitos

Avaliação

Atribuição de nota
Somativa

Tendencialmente formativa

Inexistente ou pela prestação

Suportado por Eraut (2000) e The Encyclopaedia of Informal Education (em linha: http://infed.org).

A prática do mobile teaching and learning, como deveria ser chamado, tem-se mostrado mais conservadora do que a teoria que lhe serve de base; uma teoria cujas preocupações se podem remontar ao debate da “educação permanente”, nas suas diversas metamorfoses, desde a asserção seiscentista de Comenius (que aliás dá o nome ao Programa de financiamento da “Aprendizagem ao Longo da Vida” da União Europeia) de uma didáctica norteada pela preocupação de “Ensinar tudo a todos” ao Relatório sobre a Instrução Pública (Condorcet, 2008) apresentado à Assembleia Nacional, em plena revolução francesa, onde já se propunha no prólogo como propósito da educação “assegurar a cada um a facilidade de aperfeiçoar a sua indústria”, para no seu número sete textualmente se escrever que “a instrução não devia abandonar os indivíduos no momento em que saem das escolas, devia abraçar todas as idades, que nela não deveria deixar de estar presente o que quer que fosse útil e possível de aprender, e que esta segunda instrução é tão mais necessária quanto aquela da infância foi mantida nos limites mais estreitos.”

A consciência da educação como processo individualizado, que deve acompanhar as necessidades concretas de cada na sua “indústria” (isto é, naquilo que faz) é por conseguinte antiga e tão evidente como - consoante no-lo explica a Antropologia – o facto de o processo de enculturação ser predominantemente relacional, processando-se a aprendizagem naturalmente nas sociedades humanas, antes e ao arrepio mesmo do surgimento do “Estado”, em condições incipientes de organização política[79], como as encontradas entre as sociedades recolectoras em que o saber se transmite verbalmente e marca mediante ritos iniciáticos, parcialmente substituídos, com o advento da sociedade industrial, pelo convénio da “instrução primária”.

 A “escolaridade obrigatória” e respectivo diploma de conclusão, correspondentes à “secularização” do saber e à construção das modernas nações como “comunidades imaginadas” em condições de solidariedade capazes de suportar a organização burocrática do estado burguês e demoliberal, com a especialização do trabalho e a divisão social de tarefas – de que eram veículos uma língua comum, uma “história” e um referencial de símbolos partilhados, facilmente reprodutíveis nos “recreios” (o mastro de bandeira desfraldada, a entoação do hino)[80] – corresponde, conforme bem observado por Leadbeater (1999, p. 111), a um “rito de passagem envolvendo a aquisição de conhecimento suficiente e qualificações para adquirir uma posição na vida adulta” que deve hoje ser substituído pela preocupação de desenvolver capacidades além da literacia e da capacidade de cálculo, num plano cívico alargado, para o saber agir responsavelmente face aos outros, tomar a iniciativa e trabalhar de forma criativa e colaborativa.

No que toca a nossa discussão, convém assim ter presente – e pilotada a discussão por tecnófilos isto frequentemente não sucede, adoptando-se visões pobres que têm como desfecho a invenção da roda - que antes da “autoridade do especialista”, encartado pela “coisa pública” (que em última análise se “apropriou” do ensino – veja-se entre nós a expulsão dos Jesuítas pelo ministro do soberaníssimo D. José I – o regulou, financiou e avança os modelos do seu controlo), a primeira forma de legitimidade na transmissão do saber foi, no terreiro da aldeia, a da experiência adveniente da idade; de onde toda a pedagogia “moderna”, virada para a aprendizagem pela actividade, situacional e social ter bastante menos de “originalidade” do que à primeira vista se quer crer.

O “natural” sempre foi o carácter informal tácito e situacional da aprendizagem; num contínuo histórico, o “desvio” saliente, foi a institucionalização da educação. Pode-se assim, à escolha, afirmar tanto numa óptica legitimista que o mobile learning recupera e fornece as condições para a prossecução do projecto educativo da modernidade como, numa lógica reaccionária, permite retomar a aprendizagem autêntica dos “aprendizes” das corporações medievais por ela artificiosamente interrompida, como, finalmente, numa lógica de ruptura, para permitir ultrapassar ambas.

Assim, se a aprendizagem constantemente foi e é “permanente”, a “educação” por seu turno nem sempre cumpriu a obrigação de a acompanhar. Se outrora o debate era político e filosófico, no plano da igualdade de oportunidades, ao longo do século XX foi-se progressivamente tornando num imperativo económico.

Em Osorio (2005, pp. 17-54) encontramos um panorama histórico das concepções sobre a “educação permanente”, desde a primeira ocorrência do termo “aprendizagem ao longo da vida” (lifelong learning), em 1919, no imediato pós I Guerra, no relatório que o britânico Lloyd George apresentou ao Ministério da Reconstrução sobre a necessidade da educação de adultos até ao memorando de 2000, no espírito do Conselho de Lisboa, sobre a Aprendizagem ao Longo da Vida da Comissão Europeia que estende o conceito à aprendizagem “a todos os domínios da vida” (lifewide learning); evoluindo-se progressivamente da ideia da “aprendizagem permanente” como processo de “educação de adultos”, seja de forma recorrente seja com carácter formal e intermitente, com a previsão de “pausas” na vida profissional para frequentar acções educativas, conforme a acepção dominante nas décadas de 60 e 70, para um modelo de “cidade educativa” onde, para além de uma “Pedagogia da Necessidade” (o típico desempregado levado a reciclar competências para poder continuar activo pese embora “nauseado” com uma formação imposta) se proclama uma “Pedagogia da Liberdade” que concebe a educação holisticamente como um “tesouro a descobrir” (Delors, et al., 1996), na visão da UNESCO um Direito Humano e um imperativo democrático que prolonga os espaços educativos para abarcarem tanto a família, como o meio comunitário, os meios de comunicação e o mundo laboral, numa inter-relação mútua onde já não basta assimilar conteúdos educativos mas se tornou necessário adquirir instrumentos de compreensão (Aprender a Conhecer) e acção sobre o meio envolvente (Aprender a Fazer) bem como desenvolver competências relacionais (Aprender a Viver)  para se “Ser” de forma completa. 

É para o desafio do alargamento dos “contextos educativos” que as tecnologias e dispositivos de comunicação móveis vêm precisamente fornecer os meios; aproximando e preenchendo a tradicionalmente artificiosa descontinuidade entre os modos de educação formal, informal e não formal.

Sobre a distinção entre estas, um ponto bom ponto de partida é o citado Memorando da Comissão Europeia sobre a Aprendizagem ao Longo da Vida SEC(2000) 1832; no qual encontramos as seguintes definições:

“Aprendizagem Formal. Aquela que decorre em instituições de ensino e formação e conduz a diplomas e qualificações reconhecidos.

Aprendizagem Não-formal. Decorre em paralelo aos sistemas de ensino e formação e não conduz, necessariamente, a certificados formais. A aprendizagem não-formal pode ocorrer no local de trabalho e através de actividades de organizações ou grupos da sociedade civil (organizações de juventude, sindicatos e partidos políticos). Pode ainda ser ministrada através de organizações ou serviços criados em complemento aos sistemas convencionais (aulas de arte, música e desporto ou ensino privado de preparação para exames).

Aprendizagem Informal. Acompanhamento natural da vida quotidiana. Contrariamente à aprendizagem formal e não-formal, este tipo de aprendizagem não é necessariamente intencional e, como tal, pode não ser reconhecida, mesmo pelos próprios indivíduos, como enriquecimento dos seus conhecimentos e aptidões.”

A cada uma as tecnologias móveis têm um contributo a dar; um contributo a título complementar para o ensino formal, com ou sem diploma (mobile teaching), e  - a todo o espectro – um contributo a dar para a aprendizagem móvel (mobile learning) que, além dos graus de ensino, abrange a aprendizagem não intencional que caracteriza o ensino informal (ver Tabela 9 – Diferenças entre as aprendizagens formal, não-formal e informal).

Assim mesmo, uma confusão comum na literatura sobre o mobile learning deriva a nosso ver do uso sinónimo de "aprendizagem" e "educação”. A primeira é constante, tácita e omnipresente, a segunda pressupõe intencionalidade e moralidade (promoção de um conjunto de valores); a primeira (mobile learning) pode ser vista como uma forma espontânea de estar e pensar, a segunda (mobile teaching) como criação de um ambiente de aprendizagem favorável – artificiosamente estável no ensino presencial; ductilmente adaptável no caso da aprendizagem aumentada pelas TIC.

Consoante a intencionalidade da aprendizagem resida então no aprendente ou no exterior, nalguém que desenhou o percurso para ele, podemos falar de “educação” ou de “aprendizagem” móveis; sendo que no segundo caso estamos nos domínios da aprendizagem auto-dirigida enquanto à primeira a podemos definir como “facilitação e suporte do mobile learning”.

Não chegam porém a ser necessariamente “duas faces da mesma moeda”, embora correspondam a um divisa comum, porquanto a “aprendizagem móvel”, já o apontámos, é mais extensa e pode existir, nos domínios libertadores da auto-aprendizagem e da criação de ambientes pessoais de aprendizagem sem “educação móvel”; embora nada impeça que a competência na construção destes também se ensine.

É útil separar os dois porque ocupam nichos com operacionalidades diferentes; ao aplicar as tecnologias móveis no ensino formal estamos essencialmente a falar de mobile teaching (pode levar ao desenvolvimento de actividades fora da "sala de aula" mas existe intencionalidade e enquadramento curricular – o fiat permanece dentro).

A educação é sempre "consciente"; a aprendizagem não. O aprendente pode no entanto escolher deliberadamente um padrão de aprendizagem mais formal (curricular) ou mais informal (conversacional). Por isso, se não tiver mais utilidade, como conceito meramente “administrativo”, a noção de "ensino informal" serve para nos recordar dos limites de que a "escola" tradicional dispõe como modelo educativo.

"Aprendizagem situada" e "aprendizagem informal" por seu turno são realidades sobrepostas mas não coincidentes; mormente por a "aprendizagem situada" poder aplicar-se a um ambiente formal (vista a sala de aulas como comunidade de prática).

Existe uma contradição latente entre a defesa de que a aprendizagem informal é situada - e logo inerentemente social - e a ideia de que é uma forma de auto-aprendizagem - e logo inerentemente individual.

Na realidade a educação informal tem que ser a um tempo "social" e "individual"; a ponte entre as duas dimensões é operada pelas tecnologias móveis que permitem ao indivíduo "dialogar" onde quer esteja. Assim, e em suma, da necessidade eminentemente sociológica da “educação permanente” chegámos ao modelo eminentemente pedagógico da “aprendizagem situada” e deste, pela via das teorias relativas à “cognição distribuída” e à “participação periférica legítima”, veio-se – na sociedade em rede, mediada pelas tecnologias da comunicação – impor a participação nas “comunidades virtuais de prática e aprendizagem”[81] como instrumento óbvio de desenvolvimento pessoal, relacionando a aprendizagem com o conjunto da vida social.

 


[79] A propósito desta matéria veja-se Balandier (1980).

[80] Sobre esta matéria e o debate “primordialismo” versus “perenialismo” versus “modernismo” do nacionalismo vejam-se por exemplo os clássicos de Anderson (1991), Hobsbawm (1998), Smith (1983) bem como as aplicações subsequentes de Riviére (1988), Billig (1995), Llobera (2000) e Spencer & Wollman (2002). Por outro lado, o uso do telemóvel e a comunicação móvel como interacção ritual, com o seu efeito integrativo – a “liturgia” das TIC, conforme praticada pelo grupo e enquanto prática coesiva - são extensamente abordados por Ling (2008, p. 7 e seg.s).

[81] Para uma genealogia compreensiva e particularmente sintética do conceito veja-se Illera (2007) que adopta a definição operacional de Hunter (2002): “uma comunidade virtual é definida como um grupo de pessoas que interagem entre si, aprendendo com o trabalho das outras e proporcionando recursos de conhecimento e informação ao grupo, em relação a temas sobre os quais há acordo de interesse mútuo.” Por outro lado, os factores que influenciam a dinâmica da formação dos grupos foram explicados por Tuckman (1965, reimp. 2001). Em Portugal, uma aplicação recente é minuciosamente descrita na tese de mestrado apresentada à Universidade de Aveiro, Comunidades Online de Sucesso. O sentido de comunidade nas interacções colaborativas on line (Filipe, 2008).

Apêndice 15: Da relação entre tecnologia, economia e ideologia e do apelo à educação

Relegamos para o fim o trio de apêndices, dos quais este é o primeiro, cuja relevância e complementaridade é mais periférica ao essencial do nosso estudo mas que ainda assim se nos afiguram relevantes. No quadro de um mestrado em e-Learning, uma avaliação corrente do impacto dos sistemas interactivos de comunicação ou, numa acepção mais comum e restrita, das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC)[101], para ser completa, não deve, no nosso entender, passar ao lado de um questionamento do lugar ocupado pelo Conhecimento e pelo processo da sua transmissão e fomento imediatos ou mediatos através do Ensino - ou, mais propriamente, das funções para que é chamado tanto enquanto sistema formal como enquanto esforço informal; sendo certo que, na génese, modalidade e “quinta geração”[102] do ensino à distância, o objecto deste trabalho está mais próximo do segundo do que do primeiro.

Assumimos que as ideias sobre o papel e escopo das metodologias do e-Learning não surgem desgarradas nem são neutras, tal como a tecnologia não o é[103], face à pragmática do saber e às narrativas histórica e civilizacionalmente assumidas; porventura como imanência do esquema sociopolítico dos interesses e da busca da organização e equilíbrio sociais.

Conforme apontado por Lyotard[104], o problema da “legitimidade”, em sentido abrangente, numa acepção mais política, conotada com o moderno exercício do poder pelo consentimento e com o artifício da concórdia pelo contrato social e do conformismo com a desigualdade social pela tácita divisão do trabalho[105], como em sentido mais estrito, relacionada com o Saber, continua a ser um elemento explicativo chave das transformações numa altura em que o progressivo abandono das meta-narrativas deu lugar à promoção da técnica e da tecnologia, segundo um determinismo extensível às teorias da comunicação de massas e à interpretação feita do estado corrente da Informação e do Conhecimento.

Com o termo do mundo bipolar, em 1989 e o debate do “Fim das Ideologias”, agregado ao do “Fim da História”, veio o do “Fim da Educação”[106]; ao mesmo tempo que pela evolução dos meios de comunicação se passou de um jogo de informação incompleta para um de informação completa.

Não é nossa pretensão, com estas linhas, auto-desvalorizar o campo de estudo que abraçámos; segundo uma lógica relativista paralisante. Simplesmente perspectivar o seu enquadramento, tendo presente que o processo inverso, o do mergulho entusiástico na árvore sem perspectivar a floresta, frequente no campo, arrisca gerar algum desajuste e precipitação quando não sobrevalorização. Afinal, conforme notado na citação que introduz o cap. III, “a um homem com um computador, tudo parecem dados”.

A condição “pós-moderna” correspondente à de uma mudança no estatuto do saber pelo impacto das transformações tecnológicas a nível global; é avaliável em dois planos: o eminentemente epistemológico da investigação e o da transmissão do conhecimento, este com implicações directas nas opções curriculares. Ainda que a Epistemologia seja hoje menos angular que a Ontologia;  pelo menos desde que o relatório Faure, em 1973, proclamou como desafio da “Educação do Futuro”, o “Aprender a Ser” em detrimento do “Saber” (Faure, 1973).

A emergência da “performatividade”, como exigência e requisito condicionante do funcionamento das instituições de ensino, se por um lado tende ao abandono dos valores e do papel do sistema formal como veículo gerador de consenso e de transmissão das narrativas de emancipação, por outro propõe uma óptica funcional e sistémica que coloca o assento nas “competências operacionais” em detrimento das “ideias” e valoriza os saberes pragmáticos em detrimento de uma concepção “absoluta” do conhecimento como emancipador da condição humana; formando quadros capazes de competir num mercado internacional aberto. “A questão já não é: é verdadeiro? mas: para que serve?” (Lyotard, 1989, p. 105)

E continua o mesmo autor: “Pois, ao lado desta função profissionalizante, a uni­versidade começa ou deveria começar a desempenhar um papel novo no quadro do melhoramento das performan­ces do sistema, como seja o da reciclagem ou da educação permanente. Fora das universidades, departamentos ou instituições com vocação profissional, o saber não é e nunca mais será transmitido em bloco, e de uma vez por todas, aos jovens antes da sua entrada na vida activa; ele é e será transmitido à la carte aos adultos já activos ou à espera de o serem, tendo em vista não só o melhora­mento da sua competência e a sua promoção, mas também a aquisição de informações, de linguagens e de jogos de linguagem que lhes permitam alargar o hori­zonte da sua vida profissional e articular a sua experiên­cia técnica e ética. (…)”

Completando, para o que interessa um mestrado em Gestão de Sistemas de e-Learning: “A aplicação das novas técnicas a este stock pode ter uma incidência considerável sobre o suporte comunicacional. Não parece já indispensável que este seja um curso proferido de viva voz por um professor diante de estudantes mudos, enquanto o tempo das questões é remetido às sessões de «trabalhos» dirigidas por um assistente. Devido a os conhecimentos serem traduzíveis em linguagem informática e o ensino tradicional ser assimilável a uma memória, a didáctica pode ser confiada a máquinas que liguem as memórias clássicas (bibliotecas, etc.), bem como os bancos de dados, a terminais inteligentes postos à disposição dos estudantes. (…)”. E para o que interessa à didáctica: “A valorização do trabalho de equipa pertence a esta predominância do critério performativo do saber” (Lyotard, 1989, pp. 101-107).

Não será pois despicienda a proximidade do debate[107], que vem contestar o modelo do Saber escolar, veiculador de meta-narrativas proclamadas como desacreditadas ou pelo menos geradoras de incredulidade face à mundialização, com os esforços enformadores das organizações internacionais, seja no quadro do sistema das Nações Unidas, com a UNESCO em primeiro plano, seja com a subsequente adopção regional tanto pela OCDE como pela União Europeia -  Jacques Delors, que em 1994 chefiou o norteador Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (Delors, et al., 1996) onde se proclamam os desde então muito repetidos “4 Pilares” (Aprender a Conhecer, Fazer; Viver e a Ser), a páginas tantas se detém sobre o “Impacto das novas tecnologias na sociedade e na educação” e onde a palavra “tecnologia” ocorre 179 vezes -  acumulou, recorde-se, no seu currículo uma passagem pela chefia da Comissão Europeia.

É assim que podemos também ler no zeitgeist das preocupações com a incorporação da tecnologia no processo educativo um atributo dessa característica da porosidade e dessa capacidade de impregnar e gerir de forma bem sucedida, porque tendente e coincidente com a óptica utilitarista da gestão do interesse individual, todos os aspectos da vida social exibida pelo capitalismo. Mais recentemente, resulta que a generalização do consumo das tecnologias móveis, arvorado num dos sectores com maior dinâmica económica, exponencia e auto-promove os interesses dos vendedores do respectivo acesso, sabedores e investidores num marketing que historicamente deixou de se contentar em diferenciar necessidades para as passar a promover e incutir; numa arreigada patine em que equiparadas “modernidade” e “modernização administrativa” aquelas surgem auradas de moda e os gadgets geradores de receita de coisa fashionable e dirigida às gerações de consumidores mais novos, envolta numa teia de tons vivos e com acordes sonoros que tornam difícil a separação e destrinça do seu real valor útil e potencial formativo da cultura Pop que “distrai” mais do que “educa” em que surge envolta.

Para este efeito – poder-se-ia falar de much ado about nothing, que é como quem diz “muita comunicação com comparativamente pouco investimento reprodutível” - dois indicadores entre outros resultam a este propósito expressivos para a realidade portuguesa: primeiro, o facto de, segundo dados do INE[108], os gastos com a comunicação terem no final da última década do século pretérito suplantado os da educação em mais de três vezes (541 euros por família por ano contra 175 euros), com um crescimento de 700% entre 1989 e 2001, especialmente acelerado a partir de 1995; por outro, de acordo o EUROSTAT[109], o facto de Portugal, em 2006, manter a tendência dos anos anteriores no que toca a gastos em comunicações mais de duas vezes superiores aos gastos em material de TIC (4,3% com despesas de comunicação contra 1,8% gastos em tecnologia); isto quando na média da União Europeia a tendência é para a paridade. O que é tão expressivo do preço das nossas comunicações como sobre os interesses predominantes no processo da sua adopção.

 


[101] Sobre esta destrinça e a distorção inerente à segunda expressão ver Correia & Tomé (2007, p. 43).

[102] Se o e-Learning constitui a quarta (Sherron & Boettcher, 1997), poder-se-á filiar o m-Learning na quinta, seja como capitalização do learn while you earn (Zawacki-Richter, Brown, & Delport, 2007), seja enquanto passagem a um sistema Inteligente de Aprendizagem Flexível, em que “novidade” do primeiro adjectivo é afirmada num contexto institucional de redução de custos, tido discutivelmente – quando colocado numa perspectiva informática que na realidade parece um retrocesso à aprendizagem assistida por computador, fazendo fé na proposta de mecanismos de automação dos feedbacks - como potencial de disseminação e incentivo à adopção (Taylor, 2001). Este assunto é criticamente retomado no Cap. II a propósito da definição de mobile learning - no essencial a asserção da flexibilidade parece-nos correcta mas de redução imprópria a questões economicistas; até porque o impacto estende-se muito além do Ensino Superior, onde o autor a antevê.

[103] Neste sentido veja-se por ex. Freire (1993), em particular o segundo capítulo, onde se retoma a argumentação esboçada pelo mesmo autor em 1977 no prefácio à tese de Moacir Gaddoti, intitulado “Ideologia e Educação: Reflexões sobre a não neutralidade da Educação”, conforme apontado por Osorio (2005, p. 28). No mesmo sentido argumenta Melvin Kranzberg, citado por Castells (2002, p. 6) e por Gustavo Cardoso (2006, p. 105): “a tecnologia nem é boa nem má, nem é neutral”. Expressão com que pretende significar a circularidade – porventura “inutilidade” - do debate sobre o “determinismo tecnológico” e sobre quem condiciona quem no binómio tecnologia-sociedade, no pressuposto de que a segunda não pode ser representada sem as suas ferramentas tecnológicas da mesma forma que a primeira é uma emanação da segunda.

[104] Em A Condição Pós-moderna, subintitulado no original francês Rapport sur le Savoir, peça de análise prospectiva que, à data da publicação, 1979, Portugal, recém-saído do regime de “um liceu por capital de distrito”, estaria especialmente inapto para compreender, mas que prognostica com uma actualidade que se mantém o processo e a pressão subsequente das NTI sobre o sistema de ensino, com as correspondentes adaptações, mormente quando, face à redefinição do papel da Universidade, se observa cruamente, por oposição aos que frequentam cursos técnico-científicos que “os outros jovens presentes na universidade são, na sua maior parte, desempregados não contabilizados nas estatísticas de pedido de emprego. Eles são excedentários em relação às saídas potenciais das disciplinas nas quais se encontram (Letras e Ciências Humanas). Na realidade, pertencem, apesar da sua idade, à nova categoria de destinatários da transmissão do saber”. Releva de e serve a ideologia vigente a lógica da “requalificação” e da reciclagem permanente de conhecimentos que admite também a paralela leitura de que se a qualificação tivesse sido bem-feita em primeiro lugar, tornava-se menos premente a “re” e portanto a existência de um desajuste entre as necessidades impostas pelo clima socioeconómico e os saberes veiculados.

[105] Nesta senda veja-se Bourdieu (1978).

[106] Na acepção da obra de Postman (2007), publicada originalmente em 1996.

[107] Apenas nessa medida cedemos à tentação da inclusão de tão extensa citação, porque, duas décadas antes da Internet ter principiado a generalizar-se nos nossos lares, os reais termos do debate estavam claramente recortados; sendo absolutamente necessário ancorá-los aí para lhes encontrar hoje sentido além da “espuma dos dias”.

[108] INE (2001). Estes dados foram actualizados no Inquérito às despesas das famílias - 2005 / 2006, publicado em 2008, tendo-se apurado gastos anuais de 519 euros em comunicações (dos quais apenas 2 em serviços postais) contra 301 euros em gastos com o Ensino (dos quais apenas 29 com o ensino não formal -“Outros Tipos de Ensino”), correspondendo a 3,1 e 1,7% respectivamente das despesas totais dos agregados.