determinismo

INTRODUÇÃO

O tema deste estudo é a aprendizagem móvel (mobile learning), entendida como conjunto de processos para chegar ao conhecimento mediante a conversação em múltiplos contextos entre pessoas e tecnologias interactivas pessoais (vide I.2 Do peripatetismo à ideia de mobile learning e Apêndice 6: Definições de aprendizagem móvel). É objectivo geral operar uma avaliação predominantemente qualitativa das mudanças introduzidas no processo de ensino-aprendizagem pelo acréscimo de mobilidade e consequentes alterações na concepção social espácio-temporal, fundado na ideia de que, ao inverso da imprensa ou da televisão conforme perspectivadas por McLuhan ou Innis, não há hoje um Media civilizacionalmente “revolucionário”, nem mesmo a Internet strictu sensu; antes a “novidade” de uma mudança de paradigma pela convergência dos diversos Meios no seio dos sistemas interactivos de comunicação em que se a digitalização é o denominador comum, a conectividade, a globalização e a passagem dos consumidores a produtores de informação são os verdadeiros agentes de mudança (Gustavo Cardoso, 2006) (M. Castells, Fernández-Ardèvol, M., Linchuan Qiu, J. & Sey, A., 2007) e os “fluxos” (Castells, 2002) uma forma espacial característica das práticas sociais que dominam e moldam a sociedade em rede (F. H. Cardoso, 2007).

Como referencial do nosso trabalho propomos pois buscar resposta para a questão:Concretamente do que é que se fala quando se fala em mobile learning?” E derivadamente derramar luz sobre a dúvida: “Em que medida o incremento da mobilidade pela generalização das tecnologias da comunicação, mormente sem fios, pode aproveitar ao processo de ensino-aprendizagem?”

Adoptando uma noção de “compreensão” como mapeamento e avaliação dos limites de um campo de estudo, definimos como nossos objectivos específicos: a) identificar, inventariar, resumir e classificar a principal literatura associada ao campo de estudo mobile learning, contextualizando-a dentro do campo teórico das Ciências Sociais em geral e das Ciências da Educação, em particular (cap. I); b) descrever as aplicações dos principais dispositivos e tecnologias da informação e comunicação móveis bem como os propósitos pedagógicos que podem servir (cap. II); c) examinar criticamente as suas possibilidades, categorizando e sistematizando modelos e propostas, mormente para o desenho de instrução de material pedagógico adaptado (cap. III)¸ d) analisar a emergência da "mobilidade" como desiderato da generalização das tecnologias de comunicação sem fios bem como explicar o seu impacto global no processo do Ensino-Aprendizagem (tarefa predominantemente relegada para os apêndices de desenvolvimento).

Assumimos assim o nosso “projecto” à imagem da planta que se traça para a edificação de uma casa (a casa onde o novel campo do mobile learning há-de habitar), como plano gráfico e descritivo, desde os alicerces sob os quais assenta (cap. I); à distribuição de espaço entre as diversas divisões em função do que possam albergar (cap. II), às técnicas e materiais mais adequados para as por de pé (cap. III). Como todos os edifícios, o do m-Learning não surge no entanto isolado; coexiste num ambiente profundamente urbano e cosmopolita – o da “sociedade em rede” e da conexão permanente – pelo que o rigor manda que no intuito de uma traça fluidamente inserida o arquitecto cauteloso indague da vizinhança e dela faça um levantamento prévio, cujo resultado se anexa em apêndices.

A massificação das tecnologias da informação e da comunicação tem merecido grande publicidade pelas possibilidades que abre através da integração na aprendizagem seja formal seja sobretudo, defendemos, informal, permanente e auto-regulada, merecendo a componente tecnológica atenção crescente por parte das ciências sociais e humanas, na medida do esbatimento da tradicional dicotomia entre estas e as ditas “exactas” (Correia & Tomé, 2007, p. 62) face às novas modalidades de aprendizagem conversacional, interactiva, ubíqua e multimodal e de escrita multimediática que rompem com a tradicional forma escrita do livro como cristalizador de saberes e impositor de fronteiras lexicais entre campos do saber (Nyíri, 2002).

Permanece, não obstante, aberta a discussão sobre os limites e a captura da real essência do mobile learning, dentro do debate mais alargado da emergência do e-Learning no ensino à distância, pela própria diversidade de projectos e abordagens, quase sempre parcelares, que dificultam a apreensão dos seus limites úteis e a demonstração cabal e compreensiva da forma como pode contribuir para a teoria e prática educativas (M. Sharples, Milrad, Arnedillo Sánchez, & Vavoula, 2008).

A supervalorização da componente telemática; certa confusão entre o discurso promotor do wireless, nas suas múltiplas vertentes comerciais (UMTS, Wi-Fi, Bluetooth, Wi-Max…), tanto como dos media digitais (com a miniaturização e sistemática convergência de tecnologias e capacidades), faz com que se incorra frequentemente no equívoco de confundir o instrumento e o meio com os fins, acantonando-se simplisticamente o debate do m-Learning em volta da aprendizagem com dispositivos móveis e da ideia de que a sua simples disponibilização gerará um dia, eventual e fatalmente frutos; sem prestar a devida atenção nem situar o conceito e o campo de estudo, ao invés, na própria noção de “mobilidade” - a um tempo no espaço físico, pela miniaturização tecnológica, no espaço conceptual, no espaço social e “mobilidade” na flexibilidade da aprendizagem ao longo do tempo (M. Sharples, Taylor, J., Vavoula, G., 2007).

Num instante em que crê em e propõe a tecnologia como motor da mudança social, inclusive na educação (leia-se o Plano Tecnológico do actual governo), importa recuperar e reavaliar o debate sobre as relações entre tecnologia e ideologia, na certeza da irredutibilidade da segunda à primeira e da necessidade de um prudente distanciamento da fé nos seus mecanicismo e determinismo; sendo certo que o desenvolvimento é sempre marcado pelo contexto social e cultural e que os efeitos só ocorrem quando as invenções são adoptadas, desenvolvidas e aplicadas, geralmente para usos já existentes em primeira instância (McQuail, 2003, pp. 89-90).

Assim, a metodologia a adoptar consistirá assim num panorama e revisão críticos da literatura internacional sobre o tema mobile learning. Serão fontes de análise os artigos e publicações da especialidade bem como os dados estatísticos recolhidos por entidades públicas e privadas credíveis a par, necessariamente, em plena lógica da Web social, da produção académica informal, plasmada em blogs e fóruns de discussão bem como as notícias em órgãos generalistas relativas às tendências e usos da tecnologia.

Na manifesta dificuldade em circunscrever de forma suficientemente operativa o objecto das “Ciências da Educação”, e não desejando mergulhar na discussão que nos transcende da forma plural destas, preferiremos falar do debate da “mobilidade” no contexto “educativo”, na acepção abrangente do desenvolvimento humano em cujo seio naturalmente recaem as preocupações de múltiplas disciplinas, seja dentro do sistema de Ensino seja à sua margem; institucional ou individualmente.

Conforme notado por Lalueza et al..(Coll & Monereo, 2008, p. 54 e seg.s), a assumpção construtivista social do desenvolvimento como participação dinâmica nas actividades socioculturais da comunidade implica que as ferramentas culturais desenvolvidas num dado momento histórico surjam estreitamente ligadas à própria definição de inteligência; às qualidades valorizadas pelo grupo e em conformidade constituídas em linhas de orientação do desenvolvimento cognitivo, emocional e social dos sujeitos. É por isso que para além das affordances da tecnologia A ou B, é importante considerar globalmente as Novas Tecnologias em Educação Social (García, 2008), na certeza de que as primeiras continuam a servir a segunda e de que a utilidade que se lhes procura é antes de mais a passibilidade de servir a integração social.

A dotação de movimento (mobilidade) de pessoas, dispositivos e serviços susceptíveis de aumentar os níveis de desenvolvimento humano correntemente experimentada pelas TIC ecoa assim não acidentalmente os valores da mobilidade socioprofissional que o Deus da Utilidade Económica, na acepção de Postman (ver Apêndice 16: Da comunicação ao conhecimento. Considerações sobre determinismo tecnológico e consumo), acompanhado pela globalização dos mercados e pela deslocação de serviços e mercadorias valoriza.


I.2 Do peripatetismo à ideia de mobile learning

Vinte e quatro séculos transcorreram desde a altura em que, em Atenas, sob os portais do Liceu (peripatoi) e nas ruas circundantes, Aristóteles cultivou o hábito da prelecção ambulante, arrastando com ele os alunos que terão assim porventura experimentado, em sentido ingénuo, a primeira forma de “mobilidade” aplicada ao ensino: a do aprendente que ao ar livre acompanhava, qual cicerone, o mestre. Subtraídos ao confinamento em quatro paredes, os primeiros aprendentes peripatéticos terão ainda experimentado uma forma incipiente de ensino “informal”.

Curiosidade histórica, este episódio teria no entanto muito pouco que ver com a acepção contemporânea de ambos os termos; apresentando uma “mobilidade” confundida estrito senso com “movimento” e um “ensino informal” equiparado à mera “informalidade” ambiente.

Actualmente, falar de “aprendizagem móvel” reporta-se a uma distinta realidade onde o eixo de ruptura está – na prática, operacionalmente - sobretudo centrado na exploração dos dispositivos e das tecnologias de comunicação pessoais, configurando uma pletora de potencialidades didácticas bastante aquém da “voz do mestre” ou mesmo do estilete com que rudimentarmente se inscreviam os caracteres na cera. Por outro lado, a complexidade das tarefas executadas no moderno exercício profissional a par da especialização entretanto produzida dos saberes – que da Filosofia evoluíram para as mais dispares disciplinas e áreas das ciências e das técnicas –, para não falar no desenvolvimento dos meios e vias de transporte e comunicação, configuram uma situação em que – no estertor das “bombas inteligentes”, guiadas por laser e das (a caminho de ser três) constelações de satélites provedores de serviços de geolocalização - o “aprender a ser” soldado por ex. já não se esgota no aperfeiçoamento do maneio da lança nem no aprendizado da disciplina para a integração coesa da falange.

A instantaneidade com que a informação circula e está disponível; o próprio polimorfismo que passou a assumir, lançaram um repto aos 126 bits por segundo[18] com que os discípulos de Aristóteles assimilariam, uma a uma, em cadência, as palavras do filósofo.

O que é pois o mobile learning, abreviado m-Learning, ou “aprendizagem móvel” em português? Que realidade concreta descreve? E em que contexto se pode usar a expressão?

Numa primeira aproximação, um observador casual, responderá instintivamente que se trata de “aprender com dispositivos móveis” a que, outro, mais avisado, quererá acrescentar “tirando partido da permanente conectividade facultada pelas redes sem fios”. Já mencionámos (sendo ainda matéria desenvolvida no Apêndice 16: Da comunicação ao conhecimento. Considerações sobre determinismo tecnológico e consumo), no entanto, o erro epistemológico que é partir da premissa de que - uma vez que estas tecnologias móveis estão disponíveis e se instalaram no quotidiano - devemos resignar-nos a acomodá-las no processo de ensino-aprendizagem; como “fatalidade necessária”.

Para base da nossa discussão compilámos assim para efeitos comparativos uma dúzia de definições de mobile learning que nos pareceram de maior acutilância, passíveis de ser encontradas na literatura internacional (reproduzidas no Apêndice 6: Definições de aprendizagem móvel, cuja consulta neste instante rogamos).

Malgrado o reducionismo implícito, e mesmo quando se salienta que a mobilidade que importa ter presente é a do utilizador no ambiente social e não a dos dispositivos, são estes propriamente ditos – ou, se se preferir, a exploração das “tecnologias interactivas pessoais” - que obtemos como mínimo denominador comum, devendo constituir o objecto de estudo específico do mobile learning. Até porque as restantes dimensões já foram “tomadas” por outras disciplinas (ver a secção seguinte). Ou seja, os gadgets como fetichismo não devem por sombras ser a bússola do mobile learning, mas a exploração das tecnologias móveis não deixa de ser a sua “assinatura” (ainda que como condição de chegada e não de partida), o que é tão pouco lisonjeiro como definir a “História” pelo “Arquivismo” ou a “Estatística” pelo “SPSS”. Mas porventura é esse o espaço que lhe resta e a recusa, diríamos o preconceito, em assumi-lo dessa forma poderia muito bem ser uma das razões da sua insipiência.

É preciso assumir que não se trata da invenção de uma “forma nova de aprender” mas tão-somente de uma “evolução” das formas anteriores e mormente do e-Learning.

Ilustração 2. Posição do mobile learning no ensino-aprendizagem. Adaptado de T. Brown (2005b)

Lorenzo Aretio, da Faculdade de Educação da UNED (Universidad Nacional de Educación a Distancia), coordenou ultimamente um volume (Aretio, Corbella, & Figaredo, 2007) onde se desenvolve a perspectiva de acordo com a qual a “Educação Virtual” constitui uma continuidade enquadrável na matriz da “Educação à Distância”; passada a “Educação sem Distâncias” com a persistência dos mesmos princípios de base: abertura, flexibilidade, democratização no acesso, socialização e interactividade, ênfase na actividade, individualização do ensino e desafio da motivação. Nesta óptica o mobile learning emerge por entre os modelos abertos de conceber o ensino-aprendizagem à distância, como um eminentemente tecnológico caracterizado pela ecumenicidade dos meios explorados (integração do e-Learning e da aprendizagem através de redes digitais com os dispositivos de comunicação móvel de forma a produzir experiências educativas em qualquer local e em qualquer momento). O facto de constituir uma perspectiva eminentemente tecnológica da educação à distância não invalida no entanto que o mobile learning deva ser enquadrado noutras ópticas: mormente na que privilegia o grau de autonomia pedagógica (consulte-se o Apêndice 7: Modelos de ensino-aprendizagem abertos à distância).

 


[18] Velocidade apontada como sendo o limite da capacidade de processamento da mente humana (Csikszentmihalyi & Csikszentmihalyi, 1988, p. 34).

Apêndice 15: Da relação entre tecnologia, economia e ideologia e do apelo à educação

Relegamos para o fim o trio de apêndices, dos quais este é o primeiro, cuja relevância e complementaridade é mais periférica ao essencial do nosso estudo mas que ainda assim se nos afiguram relevantes. No quadro de um mestrado em e-Learning, uma avaliação corrente do impacto dos sistemas interactivos de comunicação ou, numa acepção mais comum e restrita, das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC)[101], para ser completa, não deve, no nosso entender, passar ao lado de um questionamento do lugar ocupado pelo Conhecimento e pelo processo da sua transmissão e fomento imediatos ou mediatos através do Ensino - ou, mais propriamente, das funções para que é chamado tanto enquanto sistema formal como enquanto esforço informal; sendo certo que, na génese, modalidade e “quinta geração”[102] do ensino à distância, o objecto deste trabalho está mais próximo do segundo do que do primeiro.

Assumimos que as ideias sobre o papel e escopo das metodologias do e-Learning não surgem desgarradas nem são neutras, tal como a tecnologia não o é[103], face à pragmática do saber e às narrativas histórica e civilizacionalmente assumidas; porventura como imanência do esquema sociopolítico dos interesses e da busca da organização e equilíbrio sociais.

Conforme apontado por Lyotard[104], o problema da “legitimidade”, em sentido abrangente, numa acepção mais política, conotada com o moderno exercício do poder pelo consentimento e com o artifício da concórdia pelo contrato social e do conformismo com a desigualdade social pela tácita divisão do trabalho[105], como em sentido mais estrito, relacionada com o Saber, continua a ser um elemento explicativo chave das transformações numa altura em que o progressivo abandono das meta-narrativas deu lugar à promoção da técnica e da tecnologia, segundo um determinismo extensível às teorias da comunicação de massas e à interpretação feita do estado corrente da Informação e do Conhecimento.

Com o termo do mundo bipolar, em 1989 e o debate do “Fim das Ideologias”, agregado ao do “Fim da História”, veio o do “Fim da Educação”[106]; ao mesmo tempo que pela evolução dos meios de comunicação se passou de um jogo de informação incompleta para um de informação completa.

Não é nossa pretensão, com estas linhas, auto-desvalorizar o campo de estudo que abraçámos; segundo uma lógica relativista paralisante. Simplesmente perspectivar o seu enquadramento, tendo presente que o processo inverso, o do mergulho entusiástico na árvore sem perspectivar a floresta, frequente no campo, arrisca gerar algum desajuste e precipitação quando não sobrevalorização. Afinal, conforme notado na citação que introduz o cap. III, “a um homem com um computador, tudo parecem dados”.

A condição “pós-moderna” correspondente à de uma mudança no estatuto do saber pelo impacto das transformações tecnológicas a nível global; é avaliável em dois planos: o eminentemente epistemológico da investigação e o da transmissão do conhecimento, este com implicações directas nas opções curriculares. Ainda que a Epistemologia seja hoje menos angular que a Ontologia;  pelo menos desde que o relatório Faure, em 1973, proclamou como desafio da “Educação do Futuro”, o “Aprender a Ser” em detrimento do “Saber” (Faure, 1973).

A emergência da “performatividade”, como exigência e requisito condicionante do funcionamento das instituições de ensino, se por um lado tende ao abandono dos valores e do papel do sistema formal como veículo gerador de consenso e de transmissão das narrativas de emancipação, por outro propõe uma óptica funcional e sistémica que coloca o assento nas “competências operacionais” em detrimento das “ideias” e valoriza os saberes pragmáticos em detrimento de uma concepção “absoluta” do conhecimento como emancipador da condição humana; formando quadros capazes de competir num mercado internacional aberto. “A questão já não é: é verdadeiro? mas: para que serve?” (Lyotard, 1989, p. 105)

E continua o mesmo autor: “Pois, ao lado desta função profissionalizante, a uni­versidade começa ou deveria começar a desempenhar um papel novo no quadro do melhoramento das performan­ces do sistema, como seja o da reciclagem ou da educação permanente. Fora das universidades, departamentos ou instituições com vocação profissional, o saber não é e nunca mais será transmitido em bloco, e de uma vez por todas, aos jovens antes da sua entrada na vida activa; ele é e será transmitido à la carte aos adultos já activos ou à espera de o serem, tendo em vista não só o melhora­mento da sua competência e a sua promoção, mas também a aquisição de informações, de linguagens e de jogos de linguagem que lhes permitam alargar o hori­zonte da sua vida profissional e articular a sua experiên­cia técnica e ética. (…)”

Completando, para o que interessa um mestrado em Gestão de Sistemas de e-Learning: “A aplicação das novas técnicas a este stock pode ter uma incidência considerável sobre o suporte comunicacional. Não parece já indispensável que este seja um curso proferido de viva voz por um professor diante de estudantes mudos, enquanto o tempo das questões é remetido às sessões de «trabalhos» dirigidas por um assistente. Devido a os conhecimentos serem traduzíveis em linguagem informática e o ensino tradicional ser assimilável a uma memória, a didáctica pode ser confiada a máquinas que liguem as memórias clássicas (bibliotecas, etc.), bem como os bancos de dados, a terminais inteligentes postos à disposição dos estudantes. (…)”. E para o que interessa à didáctica: “A valorização do trabalho de equipa pertence a esta predominância do critério performativo do saber” (Lyotard, 1989, pp. 101-107).

Não será pois despicienda a proximidade do debate[107], que vem contestar o modelo do Saber escolar, veiculador de meta-narrativas proclamadas como desacreditadas ou pelo menos geradoras de incredulidade face à mundialização, com os esforços enformadores das organizações internacionais, seja no quadro do sistema das Nações Unidas, com a UNESCO em primeiro plano, seja com a subsequente adopção regional tanto pela OCDE como pela União Europeia -  Jacques Delors, que em 1994 chefiou o norteador Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (Delors, et al., 1996) onde se proclamam os desde então muito repetidos “4 Pilares” (Aprender a Conhecer, Fazer; Viver e a Ser), a páginas tantas se detém sobre o “Impacto das novas tecnologias na sociedade e na educação” e onde a palavra “tecnologia” ocorre 179 vezes -  acumulou, recorde-se, no seu currículo uma passagem pela chefia da Comissão Europeia.

É assim que podemos também ler no zeitgeist das preocupações com a incorporação da tecnologia no processo educativo um atributo dessa característica da porosidade e dessa capacidade de impregnar e gerir de forma bem sucedida, porque tendente e coincidente com a óptica utilitarista da gestão do interesse individual, todos os aspectos da vida social exibida pelo capitalismo. Mais recentemente, resulta que a generalização do consumo das tecnologias móveis, arvorado num dos sectores com maior dinâmica económica, exponencia e auto-promove os interesses dos vendedores do respectivo acesso, sabedores e investidores num marketing que historicamente deixou de se contentar em diferenciar necessidades para as passar a promover e incutir; numa arreigada patine em que equiparadas “modernidade” e “modernização administrativa” aquelas surgem auradas de moda e os gadgets geradores de receita de coisa fashionable e dirigida às gerações de consumidores mais novos, envolta numa teia de tons vivos e com acordes sonoros que tornam difícil a separação e destrinça do seu real valor útil e potencial formativo da cultura Pop que “distrai” mais do que “educa” em que surge envolta.

Para este efeito – poder-se-ia falar de much ado about nothing, que é como quem diz “muita comunicação com comparativamente pouco investimento reprodutível” - dois indicadores entre outros resultam a este propósito expressivos para a realidade portuguesa: primeiro, o facto de, segundo dados do INE[108], os gastos com a comunicação terem no final da última década do século pretérito suplantado os da educação em mais de três vezes (541 euros por família por ano contra 175 euros), com um crescimento de 700% entre 1989 e 2001, especialmente acelerado a partir de 1995; por outro, de acordo o EUROSTAT[109], o facto de Portugal, em 2006, manter a tendência dos anos anteriores no que toca a gastos em comunicações mais de duas vezes superiores aos gastos em material de TIC (4,3% com despesas de comunicação contra 1,8% gastos em tecnologia); isto quando na média da União Europeia a tendência é para a paridade. O que é tão expressivo do preço das nossas comunicações como sobre os interesses predominantes no processo da sua adopção.

 


[101] Sobre esta destrinça e a distorção inerente à segunda expressão ver Correia & Tomé (2007, p. 43).

[102] Se o e-Learning constitui a quarta (Sherron & Boettcher, 1997), poder-se-á filiar o m-Learning na quinta, seja como capitalização do learn while you earn (Zawacki-Richter, Brown, & Delport, 2007), seja enquanto passagem a um sistema Inteligente de Aprendizagem Flexível, em que “novidade” do primeiro adjectivo é afirmada num contexto institucional de redução de custos, tido discutivelmente – quando colocado numa perspectiva informática que na realidade parece um retrocesso à aprendizagem assistida por computador, fazendo fé na proposta de mecanismos de automação dos feedbacks - como potencial de disseminação e incentivo à adopção (Taylor, 2001). Este assunto é criticamente retomado no Cap. II a propósito da definição de mobile learning - no essencial a asserção da flexibilidade parece-nos correcta mas de redução imprópria a questões economicistas; até porque o impacto estende-se muito além do Ensino Superior, onde o autor a antevê.

[103] Neste sentido veja-se por ex. Freire (1993), em particular o segundo capítulo, onde se retoma a argumentação esboçada pelo mesmo autor em 1977 no prefácio à tese de Moacir Gaddoti, intitulado “Ideologia e Educação: Reflexões sobre a não neutralidade da Educação”, conforme apontado por Osorio (2005, p. 28). No mesmo sentido argumenta Melvin Kranzberg, citado por Castells (2002, p. 6) e por Gustavo Cardoso (2006, p. 105): “a tecnologia nem é boa nem má, nem é neutral”. Expressão com que pretende significar a circularidade – porventura “inutilidade” - do debate sobre o “determinismo tecnológico” e sobre quem condiciona quem no binómio tecnologia-sociedade, no pressuposto de que a segunda não pode ser representada sem as suas ferramentas tecnológicas da mesma forma que a primeira é uma emanação da segunda.

[104] Em A Condição Pós-moderna, subintitulado no original francês Rapport sur le Savoir, peça de análise prospectiva que, à data da publicação, 1979, Portugal, recém-saído do regime de “um liceu por capital de distrito”, estaria especialmente inapto para compreender, mas que prognostica com uma actualidade que se mantém o processo e a pressão subsequente das NTI sobre o sistema de ensino, com as correspondentes adaptações, mormente quando, face à redefinição do papel da Universidade, se observa cruamente, por oposição aos que frequentam cursos técnico-científicos que “os outros jovens presentes na universidade são, na sua maior parte, desempregados não contabilizados nas estatísticas de pedido de emprego. Eles são excedentários em relação às saídas potenciais das disciplinas nas quais se encontram (Letras e Ciências Humanas). Na realidade, pertencem, apesar da sua idade, à nova categoria de destinatários da transmissão do saber”. Releva de e serve a ideologia vigente a lógica da “requalificação” e da reciclagem permanente de conhecimentos que admite também a paralela leitura de que se a qualificação tivesse sido bem-feita em primeiro lugar, tornava-se menos premente a “re” e portanto a existência de um desajuste entre as necessidades impostas pelo clima socioeconómico e os saberes veiculados.

[105] Nesta senda veja-se Bourdieu (1978).

[106] Na acepção da obra de Postman (2007), publicada originalmente em 1996.

[107] Apenas nessa medida cedemos à tentação da inclusão de tão extensa citação, porque, duas décadas antes da Internet ter principiado a generalizar-se nos nossos lares, os reais termos do debate estavam claramente recortados; sendo absolutamente necessário ancorá-los aí para lhes encontrar hoje sentido além da “espuma dos dias”.

[108] INE (2001). Estes dados foram actualizados no Inquérito às despesas das famílias - 2005 / 2006, publicado em 2008, tendo-se apurado gastos anuais de 519 euros em comunicações (dos quais apenas 2 em serviços postais) contra 301 euros em gastos com o Ensino (dos quais apenas 29 com o ensino não formal -“Outros Tipos de Ensino”), correspondendo a 3,1 e 1,7% respectivamente das despesas totais dos agregados.