desenvolvimento pessoal

Apêndice 1: Da importância do ensino informal, da aprendizagem situada e das comunidades de prática

Ao longo deste trabalho vimos como o mobile learning é saudado como exponenciador da aprendizagem informal na medida da capacidade dos seus instrumentos em manter uma presença constante na vida dos utilizadores; tratar-se-á de uma forma de aprendizagem moldada ao contexto (ver I.4) e portanto “situada”. Um observador mais atento que se debruce sobre as teorias da aprendizagem a propósito carreadas, constatará porém com alguma perplexidade, sendo catecúmeno na área, a existência de uma vasta e dificultadora nebulosa semântica, com o uso umas vezes contraditório outras unívoco de expressões como “aprendizagem informal” e “não-formal”; “situada” (Wenger e Lave) ou “contextual” (Dewey, Kolb); “continuada” ou “permanente” (Faure); “ao longo da vida” (lifelong) ou “em todos os domínios da vida” (lifewide) [Memorando SEC(2000) 1832]; “autêntica” (Rogers) ou “aumentada” (Klopfer); “co-intencional” (Freire) ou “auto-dirigida” (Knowles); “conversacional” (Laurillard, na senda de Pask), “colaborativa” ou “convivial” (Illich), para dar apenas alguns exemplos.

A abundância de adjectivos é tão surpreendente quanto o facto de o substantivo qualificado ser quase invariavelmente a “aprendizagem” e apenas excepcionalmente o outro termo inextricável do binómio presente no paradigma tradicional da educação: o “ensino”; sendo raríssimos os textos que se debruçam sobre o “ensino móvel” (mobile teaching). Se tal é compreensível na óptica de uma tomada de partido pela deslocação do enfoque para o empowerment do aprendente, torna-se rapidamente uma contradição intolerável porquanto, na prática, e nos estudos de caso focados pela literatura, se constata com igual prontidão serem invariavelmente aplicações das tecnologias móveis ao serviço de um currículo; com apoio de um professor, segundo objectivos pré-determinados e portanto propostos exteriormente; logo experiências enquadráveis no ensino formal e escolar. É desde logo o caso do vigoroso debate corrente sobre o uso dos telemóveis “na sala de aula” que se quer apresentar como uma faceta do mobile learning quando claramente, reduzido a esses estritos termos, se configura bastante aquém do seu pleno (ver por ex. o Apêndice 8: Aplicações educativas dos dispositivos móveis).

Tabela 9 – Diferenças entre as aprendizagens formal, não-formal e informal

 

Formal

Não-Formal

Informal

Intencionalidade

Consciente programada

Consciente semi-programada

Inconsciente

Temporalidade

Limitada

 

Ilimitada

Espacialidade

Confinada

Parcialmente confinada

Deslocalizada

Enquadramento

Sistémico pré-determinado

Sistémico não pré-determinado

Autónomo

Gestão

Existência de uma entidade Promotora

(instituição de ensino ou formação)

Existência de uma entidade Promotora

(predominantemente associação cívica ou sócio-profissional)

Próprio aprendente

(auto-regulada)

Tutoria

Presença de professor ou tutor

Presença de um facilitador

Apoio nos pares

Qualificação

Atribuição de um grau ou diploma

Certificado de conclusão

Melhoria das competências

Resultados

Explícitos. Especificados Externamente

Especificados Internamente

Implícitos

Avaliação

Atribuição de nota
Somativa

Tendencialmente formativa

Inexistente ou pela prestação

Suportado por Eraut (2000) e The Encyclopaedia of Informal Education (em linha: http://infed.org).

A prática do mobile teaching and learning, como deveria ser chamado, tem-se mostrado mais conservadora do que a teoria que lhe serve de base; uma teoria cujas preocupações se podem remontar ao debate da “educação permanente”, nas suas diversas metamorfoses, desde a asserção seiscentista de Comenius (que aliás dá o nome ao Programa de financiamento da “Aprendizagem ao Longo da Vida” da União Europeia) de uma didáctica norteada pela preocupação de “Ensinar tudo a todos” ao Relatório sobre a Instrução Pública (Condorcet, 2008) apresentado à Assembleia Nacional, em plena revolução francesa, onde já se propunha no prólogo como propósito da educação “assegurar a cada um a facilidade de aperfeiçoar a sua indústria”, para no seu número sete textualmente se escrever que “a instrução não devia abandonar os indivíduos no momento em que saem das escolas, devia abraçar todas as idades, que nela não deveria deixar de estar presente o que quer que fosse útil e possível de aprender, e que esta segunda instrução é tão mais necessária quanto aquela da infância foi mantida nos limites mais estreitos.”

A consciência da educação como processo individualizado, que deve acompanhar as necessidades concretas de cada na sua “indústria” (isto é, naquilo que faz) é por conseguinte antiga e tão evidente como - consoante no-lo explica a Antropologia – o facto de o processo de enculturação ser predominantemente relacional, processando-se a aprendizagem naturalmente nas sociedades humanas, antes e ao arrepio mesmo do surgimento do “Estado”, em condições incipientes de organização política[79], como as encontradas entre as sociedades recolectoras em que o saber se transmite verbalmente e marca mediante ritos iniciáticos, parcialmente substituídos, com o advento da sociedade industrial, pelo convénio da “instrução primária”.

 A “escolaridade obrigatória” e respectivo diploma de conclusão, correspondentes à “secularização” do saber e à construção das modernas nações como “comunidades imaginadas” em condições de solidariedade capazes de suportar a organização burocrática do estado burguês e demoliberal, com a especialização do trabalho e a divisão social de tarefas – de que eram veículos uma língua comum, uma “história” e um referencial de símbolos partilhados, facilmente reprodutíveis nos “recreios” (o mastro de bandeira desfraldada, a entoação do hino)[80] – corresponde, conforme bem observado por Leadbeater (1999, p. 111), a um “rito de passagem envolvendo a aquisição de conhecimento suficiente e qualificações para adquirir uma posição na vida adulta” que deve hoje ser substituído pela preocupação de desenvolver capacidades além da literacia e da capacidade de cálculo, num plano cívico alargado, para o saber agir responsavelmente face aos outros, tomar a iniciativa e trabalhar de forma criativa e colaborativa.

No que toca a nossa discussão, convém assim ter presente – e pilotada a discussão por tecnófilos isto frequentemente não sucede, adoptando-se visões pobres que têm como desfecho a invenção da roda - que antes da “autoridade do especialista”, encartado pela “coisa pública” (que em última análise se “apropriou” do ensino – veja-se entre nós a expulsão dos Jesuítas pelo ministro do soberaníssimo D. José I – o regulou, financiou e avança os modelos do seu controlo), a primeira forma de legitimidade na transmissão do saber foi, no terreiro da aldeia, a da experiência adveniente da idade; de onde toda a pedagogia “moderna”, virada para a aprendizagem pela actividade, situacional e social ter bastante menos de “originalidade” do que à primeira vista se quer crer.

O “natural” sempre foi o carácter informal tácito e situacional da aprendizagem; num contínuo histórico, o “desvio” saliente, foi a institucionalização da educação. Pode-se assim, à escolha, afirmar tanto numa óptica legitimista que o mobile learning recupera e fornece as condições para a prossecução do projecto educativo da modernidade como, numa lógica reaccionária, permite retomar a aprendizagem autêntica dos “aprendizes” das corporações medievais por ela artificiosamente interrompida, como, finalmente, numa lógica de ruptura, para permitir ultrapassar ambas.

Assim, se a aprendizagem constantemente foi e é “permanente”, a “educação” por seu turno nem sempre cumpriu a obrigação de a acompanhar. Se outrora o debate era político e filosófico, no plano da igualdade de oportunidades, ao longo do século XX foi-se progressivamente tornando num imperativo económico.

Em Osorio (2005, pp. 17-54) encontramos um panorama histórico das concepções sobre a “educação permanente”, desde a primeira ocorrência do termo “aprendizagem ao longo da vida” (lifelong learning), em 1919, no imediato pós I Guerra, no relatório que o britânico Lloyd George apresentou ao Ministério da Reconstrução sobre a necessidade da educação de adultos até ao memorando de 2000, no espírito do Conselho de Lisboa, sobre a Aprendizagem ao Longo da Vida da Comissão Europeia que estende o conceito à aprendizagem “a todos os domínios da vida” (lifewide learning); evoluindo-se progressivamente da ideia da “aprendizagem permanente” como processo de “educação de adultos”, seja de forma recorrente seja com carácter formal e intermitente, com a previsão de “pausas” na vida profissional para frequentar acções educativas, conforme a acepção dominante nas décadas de 60 e 70, para um modelo de “cidade educativa” onde, para além de uma “Pedagogia da Necessidade” (o típico desempregado levado a reciclar competências para poder continuar activo pese embora “nauseado” com uma formação imposta) se proclama uma “Pedagogia da Liberdade” que concebe a educação holisticamente como um “tesouro a descobrir” (Delors, et al., 1996), na visão da UNESCO um Direito Humano e um imperativo democrático que prolonga os espaços educativos para abarcarem tanto a família, como o meio comunitário, os meios de comunicação e o mundo laboral, numa inter-relação mútua onde já não basta assimilar conteúdos educativos mas se tornou necessário adquirir instrumentos de compreensão (Aprender a Conhecer) e acção sobre o meio envolvente (Aprender a Fazer) bem como desenvolver competências relacionais (Aprender a Viver)  para se “Ser” de forma completa. 

É para o desafio do alargamento dos “contextos educativos” que as tecnologias e dispositivos de comunicação móveis vêm precisamente fornecer os meios; aproximando e preenchendo a tradicionalmente artificiosa descontinuidade entre os modos de educação formal, informal e não formal.

Sobre a distinção entre estas, um ponto bom ponto de partida é o citado Memorando da Comissão Europeia sobre a Aprendizagem ao Longo da Vida SEC(2000) 1832; no qual encontramos as seguintes definições:

“Aprendizagem Formal. Aquela que decorre em instituições de ensino e formação e conduz a diplomas e qualificações reconhecidos.

Aprendizagem Não-formal. Decorre em paralelo aos sistemas de ensino e formação e não conduz, necessariamente, a certificados formais. A aprendizagem não-formal pode ocorrer no local de trabalho e através de actividades de organizações ou grupos da sociedade civil (organizações de juventude, sindicatos e partidos políticos). Pode ainda ser ministrada através de organizações ou serviços criados em complemento aos sistemas convencionais (aulas de arte, música e desporto ou ensino privado de preparação para exames).

Aprendizagem Informal. Acompanhamento natural da vida quotidiana. Contrariamente à aprendizagem formal e não-formal, este tipo de aprendizagem não é necessariamente intencional e, como tal, pode não ser reconhecida, mesmo pelos próprios indivíduos, como enriquecimento dos seus conhecimentos e aptidões.”

A cada uma as tecnologias móveis têm um contributo a dar; um contributo a título complementar para o ensino formal, com ou sem diploma (mobile teaching), e  - a todo o espectro – um contributo a dar para a aprendizagem móvel (mobile learning) que, além dos graus de ensino, abrange a aprendizagem não intencional que caracteriza o ensino informal (ver Tabela 9 – Diferenças entre as aprendizagens formal, não-formal e informal).

Assim mesmo, uma confusão comum na literatura sobre o mobile learning deriva a nosso ver do uso sinónimo de "aprendizagem" e "educação”. A primeira é constante, tácita e omnipresente, a segunda pressupõe intencionalidade e moralidade (promoção de um conjunto de valores); a primeira (mobile learning) pode ser vista como uma forma espontânea de estar e pensar, a segunda (mobile teaching) como criação de um ambiente de aprendizagem favorável – artificiosamente estável no ensino presencial; ductilmente adaptável no caso da aprendizagem aumentada pelas TIC.

Consoante a intencionalidade da aprendizagem resida então no aprendente ou no exterior, nalguém que desenhou o percurso para ele, podemos falar de “educação” ou de “aprendizagem” móveis; sendo que no segundo caso estamos nos domínios da aprendizagem auto-dirigida enquanto à primeira a podemos definir como “facilitação e suporte do mobile learning”.

Não chegam porém a ser necessariamente “duas faces da mesma moeda”, embora correspondam a um divisa comum, porquanto a “aprendizagem móvel”, já o apontámos, é mais extensa e pode existir, nos domínios libertadores da auto-aprendizagem e da criação de ambientes pessoais de aprendizagem sem “educação móvel”; embora nada impeça que a competência na construção destes também se ensine.

É útil separar os dois porque ocupam nichos com operacionalidades diferentes; ao aplicar as tecnologias móveis no ensino formal estamos essencialmente a falar de mobile teaching (pode levar ao desenvolvimento de actividades fora da "sala de aula" mas existe intencionalidade e enquadramento curricular – o fiat permanece dentro).

A educação é sempre "consciente"; a aprendizagem não. O aprendente pode no entanto escolher deliberadamente um padrão de aprendizagem mais formal (curricular) ou mais informal (conversacional). Por isso, se não tiver mais utilidade, como conceito meramente “administrativo”, a noção de "ensino informal" serve para nos recordar dos limites de que a "escola" tradicional dispõe como modelo educativo.

"Aprendizagem situada" e "aprendizagem informal" por seu turno são realidades sobrepostas mas não coincidentes; mormente por a "aprendizagem situada" poder aplicar-se a um ambiente formal (vista a sala de aulas como comunidade de prática).

Existe uma contradição latente entre a defesa de que a aprendizagem informal é situada - e logo inerentemente social - e a ideia de que é uma forma de auto-aprendizagem - e logo inerentemente individual.

Na realidade a educação informal tem que ser a um tempo "social" e "individual"; a ponte entre as duas dimensões é operada pelas tecnologias móveis que permitem ao indivíduo "dialogar" onde quer esteja. Assim, e em suma, da necessidade eminentemente sociológica da “educação permanente” chegámos ao modelo eminentemente pedagógico da “aprendizagem situada” e deste, pela via das teorias relativas à “cognição distribuída” e à “participação periférica legítima”, veio-se – na sociedade em rede, mediada pelas tecnologias da comunicação – impor a participação nas “comunidades virtuais de prática e aprendizagem”[81] como instrumento óbvio de desenvolvimento pessoal, relacionando a aprendizagem com o conjunto da vida social.

 


[79] A propósito desta matéria veja-se Balandier (1980).

[80] Sobre esta matéria e o debate “primordialismo” versus “perenialismo” versus “modernismo” do nacionalismo vejam-se por exemplo os clássicos de Anderson (1991), Hobsbawm (1998), Smith (1983) bem como as aplicações subsequentes de Riviére (1988), Billig (1995), Llobera (2000) e Spencer & Wollman (2002). Por outro lado, o uso do telemóvel e a comunicação móvel como interacção ritual, com o seu efeito integrativo – a “liturgia” das TIC, conforme praticada pelo grupo e enquanto prática coesiva - são extensamente abordados por Ling (2008, p. 7 e seg.s).

[81] Para uma genealogia compreensiva e particularmente sintética do conceito veja-se Illera (2007) que adopta a definição operacional de Hunter (2002): “uma comunidade virtual é definida como um grupo de pessoas que interagem entre si, aprendendo com o trabalho das outras e proporcionando recursos de conhecimento e informação ao grupo, em relação a temas sobre os quais há acordo de interesse mútuo.” Por outro lado, os factores que influenciam a dinâmica da formação dos grupos foram explicados por Tuckman (1965, reimp. 2001). Em Portugal, uma aplicação recente é minuciosamente descrita na tese de mestrado apresentada à Universidade de Aveiro, Comunidades Online de Sucesso. O sentido de comunidade nas interacções colaborativas on line (Filipe, 2008).

Apêndice 16: Da comunicação ao conhecimento. Considerações sobre determinismo tecnológico e consumo

Se o papel das Tecnologias na Educação não é indiferente às concepções vigentes sobre Informação e Comunicação, na nova “tecnopolia”, crente de que “o primeiro, se não o único, objectivo do trabalho e pensamento humanos é a eficiência, que o cálculo técnico é em todos os aspectos superior ao julgamento humano - e que os assuntos públicos são melhores guiados e conduzidos por peritos” (Postman, 1993, p. 51), a informação decomposta em “dados” que já não mascarram as mãos banalizou-se, perdeu valor e tornou-se numa forma de entulho; na pior hipótese deliberada forma de inebriação dos sentidos, propositadamente promovida pelos Média de forma a envolver passivamente o indivíduo numa teia difusa de “simulacra” da realidade, neutralizando-o e reduzindo a sua cidadania ao estatuto de consumidor.

Para além do obsoleto “comprar por precisar”, na sociedade de consumo, o signo – sendo toda a “comunicação” na essência troca simbólica - adquire valor para a economia política porquanto passa a impregnar os objectos, constituídos em mediadores das relações sociais[110] enquanto “a fuga de significante para significante não passa da realidade superficial de um desejo insaciável na medida em que “se se admitir que a necessidade nunca é tanto necessidade de tal objecto quanto a «necessidade» de diferença (o desejo do sentido social), comprender-se-á então porque é que nunca existe satisfação completa, nem definição de necessidade” (Baudrillard, 1975, p. 114). Esta análise é actual e particularmente válida tanto enquanto metáfora da experiência de navegação na Internet como enquanto prisma enformador da adopção dos dispositivos de comunicação móvel.

De facto, dados recentes levam a constatar tanto que o tempo passado a navegar supera já o passado a ver TV como antever que as novas gerações de “nativos digitais”, chegados aos 20 anos de idade, terão previsivelmente passado cerca de 10 mil horas em linha – o mesmo tempo que um pianista profissional tem de prática para elevar a sua arte au point  (Palfrey & Gasser, 2008, p. 289). Estes novos “artistas” do digital, que disporão tão enérgica como naturalmente os dedos sobre os teclados e provavelmente os olhos sobre a imagem pixelizada, ao contrário das gerações actuais, a quem o padrão papel-impresso ainda leva - como as gerações mais velhas insistem em falar de “contos” e não de “euros”- a passar a informação à forma analógica antes de a poder deglutir, para gáudio dos fabricantes de pasta de papel, terão no entanto de enfrentar novos desafios; mormente desafios no modo de gestão da informação. E se é certo que a superabundância confunde, não é menos seguro que a mente humana cria saudavelmente os seus próprios filtros; sendo tão pouco plausível admitir que o excesso de informação há-de criar gerações de “desorientados” como seria acreditar, quando o domínio da TV como Mass Media se fez sentir, que se sucederiam gerações de analfabetos incapazes de ler ou necessariamente vagas de homicidas potenciais, transpondo para a realidade a violência com que eram bombardeados no pequeno ecrã.

Uma avaliação da forma como a inovação tecnológica tem sido apercebida ao longo do tempo é a este propósito elucidativa; ela opera invariavelmente segundo um princípio de compensação em que, no limite, a “sobrecarga” ou a inadaptação face ao “novo” são equilibradas com um mergulho nos domínios da espiritualidade - evidentes, há altura em que escrevemos estas linhas, e em que o blockbuster Anjos e Demónios é exibido nas salas de cinema, duplamente no sucesso contemporâneo do tema e no contexto histórico em que vagamente se inspira: a partir do renascimento, as “novidades” da vida urbana e de um mundo cujos limites a navegação alargara além das margens do Mediterrâneo em cujo horizonte os portulamos o confinavam, não foram enquadradas sem resistência; da mesma forma que a náusea da re-industrialização do pós-II Guerra, em plena década de 60, veio recuperar na forma do New Age e nas crenças derivadas quanto ao advento de uma nova Era de Aquário, com a eminência do seu Cristo (ou Anti-Cristo, segundo alguns) Maitreia, senhor do sétimo raio, de acordo com um misticismo com raízes de questionável integridade nas Teosofia e Antroposofia de Helena Blavatsky e Rudolf Steiner (este último arauto de uma corrente em Ensino dita “Pedagogia Waldorf”, com bastos adeptos subsistentes, mascarando sob a forma apelativa do “holismo” uma espiritualidade pagã alternativa à judaico-cristã[111]) que privilegiam a emoção e o sentimento, porque mais próximos do “espírito”, sob a “racionalidade”, desdenhada como grilheta de um positivismo obtuso[112].

Para o efeito anterior, em A Internet, A Nova Via Iniciática (Bonnal, 2001), encontramos uma provocante inversão de termos, apresentando-se a “rede das redes” como corolário do projecto tecnológico ocidental[113], iniciado no século XVI, com o iluminismo, advogando um mundo cosmopolita, sem fronteiras, aberto aos saberes e à troca de ideias e técnicas sob a firme direcção da “Razão”.

O incenso queimado com a promoção deste efectivo potencial dialógico – num paradoxal sentido de “esfera pública” – coexistiu, falando de educação, e de tecnologias educativas, com uma extensão da noosfera aos domínios das Tecnologias da Comunicação, a qual começou com a idealização da construção do Canal de Suez (inaugurado em 1869) por Enfatin e se veio a estender no tempo com a colocação do primeiro-cabo submarino (no canal da Mancha, em 1850), ao primeiro satélite de comunicações (o Score, em 1958) até finalmente chegarmos ao advento das primeiras redes GSM (na Finlândia, em 1991) e UMTS (no Japão, em 2001)[114].

Na etimologia de “rede” subsiste a forma latina retis e a ideia de que, antes de ser “teia” multinodal, ela é o instrumento usado na captura do peixe; por definição instrumento de engodo e “armadilha”; tanto para a sardinha incauta como em inadvertidas circunstâncias enquanto meio obstrutivo para o leme do navio. É como tal que a intensificação da comunicação e da circulação da informação, devem ser encarados na óptica das ciências que se ocupam da Educação: desafio de assegurar o balizamento da navegação e evitar o emaranhado paralisante e disruptivo, gerados pela saturação do espectro e pelo excesso de ruído ambiente.

Assim, a dimensão e a importância da Educação permanecem perenes, seja percepcionada na sala de aula e na relação pedagógica directa, seja em ambiente de e-Learning através da mediação de um LMS, seja, mais amplamente, de forma normativa, no recorte das políticas educativas e das prioridades, deveres e responsabilidades atribuídos aos novos Media e respectivos promotores; independentemente de, descentralizando o processo de aprendizagem se lhe chamar scaffolding ou de, em fidelidade a Littré, se continuar a ter a noção tangível e táctil do Pedagogo como “aquele que leva pela mão”.

O advento das TIC e o fenómeno global de digitalização na base da WWW, conforme fixados por Negroponte (1996) tem paralelo com o do advento da Televisão; e os dois mass media podem e devem ser comparados; não numa perspectiva de substituição mas numa óptica de coabitação (a demonstrá-lo, em 30 de Abril de 2009, a inauguração em Portugal das emissões da Televisão Digital, DVB-T, com a extinção prometida do sinal analógico em 2012) e complementaridade; tentando sobretudo ter e saber a aproveitar a memória buscando na avaliação que já se pode fazer, em 60 anos de vida, entre as expectativas geradas pelo surgimento da primeira face ao seu desenvolvimento subsequente. À margem de projectos paradigma de sucesso, como entre nós a Telescola, e porventura muitas outras felizes aplicações, com que nos fomos familiarizando, desde a popular “Rua Sésamo” a alguma linha de orientação programática, mais facilmente discernível antes da abertura dos canais à iniciativa privada, há pouca dúvida quando ao consenso da “realidade produzida ficar aquém da promessa” inicial.

Conforme faz notar Sartori (2000, p. 47), num texto de 1999 e pré Web 2.0 - é bom notá-lo -“o problema é saber se a Internet vai, ou não, produzir crescimento cultural” na medida em que, na oitava seguinte, sobre a qual o presente trabalho versa, o cruzamento da “conectividade” com “miniaturização” e a “convergência” que gerou a “mobilidade”, o desafio reside ainda na conjugação da tripla dimensão de uso a que qualquer meio de comunicação está sujeito: prática, lúdica e educativa. Se, menos exigentes, as primeiras resultam indisputáveis; a terceira é trabalho em progresso; e um trabalho tão mais árduo quanto o desafio e a palavra-chave são a “motivação”; ou mais apropriadamente, a “auto-motivação”, que, a desenvolver-se, continua sujeita ao requisito da capacidade de abstracção, sem a qual não se entra, na expressão do mesmo autor italiano, no mundus intelligilibis, quedando-se o indivíduo pelo mundus sensibilis; em que a emoção impera sobre a razão; e o “estar” se substitui ao “ser”.

Ora, para se poder usar a Internet para educar para “Ser” (um dos leitmotifs oportunamente assumidos no relatório Delors - ver acima) tem que se ter em consideração o perfil cognitivo dos formandos; e este continua moldado pelo paradigma do homo videns; do observador passivo que antes de entrar na “rede” já vivia essa condição e em função progressivamente a moldou, antes de ser moldado por ela. Isto é válido de forma evidente para as gerações mais velhas, mas uma questão em aberto para as que agora estão a crescer no meio.

Haverá construção de saber sem interesses prévios? Como pode coexistir o progresso cultural e o desenvolvimento pessoal em condições de baixa directividade; em suma, como se pode encontrar o caminho se não se conhece o destino?

São desafios que necessitam de repostas para que não se cumpra a profecia de acordo com a qual “a paideia do vídeo promete passar para a Internet analfabetos culturais, que rapidamente esquecerão o pouco que aprenderam na escola, portanto, analfabetos culturais que irão matar na Internet o seu tempo vazio na companhia de «almas gémeas» desportivas, eróticas ou de pequenos hobbies”, segundo um perfil de utilizador para quem a Internet, o telemóvel, o netbook ou o PDA, mais não são do que uma “forma formidável de desperdiçar o tempo”.

A propósito da necessidade de bússola para as práticas educativas, o norte-americano Neil Postman (2007), por vezes acusado de “ludita”[115], recorda em O Fim da Educação que  “a escola não pode sobreviver sem uma qualquer razão para a sua existência” e que por consequência, face à perda de autoridade dos protagonistas, é importante encontrar o que metaforicamente chama de “Novos Deuses”; narrativas cujo fim não é “descrever cientificamente” o Mundo mas tão só dar-lhe sentido - ou torná-lo “suportável” – aquilo a que outros, como Mircea Eliade apelidam de “mitos”.

Sucede que a narrativa vigente da utilidade económica propondo a formação de competências práticas como justificada pela garantia do emprego bem remunerado é débil e encerra uma contradição: por um lado sugere uma formação técnica centrada nas necessidades profissionais concretas, por outro afirma que o mercado de trabalho do futuro imporá a necessidade de indivíduos com uma capacidade de adaptação rápida à mudança, capazes de reciclarem conhecimento e – ante o fim do “posto de trabalho para a vida” – se saberem recriar. Ora, a abertura de espírito e a curiosidades inerentes a esta última atitude estão em contradição com a formação profissionalizante. As competências técnicas poderão somente surgir através de uma competência mais geral, estando a “utilidade económica” dependente da boa educação e não o inverso.

É também por isto que faz mais sentido falar em Novas Tecnologias na Educação Social – como o fazem (Sevillano García, 2008) – do que propriamente em mobile learning.

 


[110] Para o Ensino, a teoria da Actividade de Leontiev (2009), inspirada numa interpretação dialéctica e materialista da história, sugere algo de semelhante: que na realidade a mediação pelos objectos e o desenvolvimento de operadores simbólicos foi em termos da teoria da evolução a alavanca que permitiu a emergência da psique humana e a passagem a estádios progressivamente mais complexos (sensório e perceptual) até ao desenvolvimento da inteligência. Assim, se a "actividade" emerge como princípio germinal explicativo da adaptação dos seres vivos ao meio, a “necessidade de agir” (agência) explica como os “conceitos" derivam do uso dos objectos enquanto "percepção partilhada" da experiência do seu uso (Kaptelinin & Nardi, 2006, pp. 51-65). Por outro lado, o desenvolvimento e manipulação de artefactos estiveram na base da divisão social do trabalho; e assim, desde sempre, e mesmo nas sociedades mais primitivas, eles foram elementos fetiche diferenciadores de status. Para o estudo do mobile learning estas considerações são importantes na medida em que os “dispositivos móveis” não são mais do que outra espécie de objecto, com a particularidade de por concepção serem instrumentos manipuladores de signos, à partida, com especial potencial de expansão e alteração das funções perceptivas.

[111] Não por acaso esta notou a coincidência do número “mágico” sete com os tipos de inteligência identificados por Howard Gardner, tendo-se esforçado por a incorporar.

[112] Sobre esta matéria vejam-se por ex. as perspectivas críticas da Escola de Frankfurt em Adorno & Crook (2002) e, mais recentemente, de Sagan (1995) bem como a visão de Gibbons (2001) – em especial o capítulo VIII onde se faz o entrosamento de alguns pensadores clássicos das ciências sociais do século XIX com o pensamento oculto.

[113] O mesmo que Alain Touraine (1994, p. 9) identifica como propósito da modernidade: a correspondência da organização social regulamentada com o modo de produção, orientados pela cultura científica.

[114] Armand Mattelart tem a este propósito em A Invenção da Comunicação uma obra de leitura especialmente interessante (Mattelart, 1994). Veja-se ainda Headrick (2008), em particular o cap. VII (“The Acceleration of Change 1869–1939”) onde se chama a atenção para o facto de, ao arrepio do discurso propalado na Sociedade da Informação, na primeira vaga da que presidiu à emergência da “Rede Global” (McNeill & McNeill, 2003), correspondente à industrialização, boa parte dos grandes impulsionadores/inventores não tinham treino científico formal. De facto, antes de meados do século XX as ligações entre o universo académico-científico e técnico-industrial eram raras; começando progressivamente a surgir primeiro no Alemanha, pioneira das “Universidade Técnicas” e depois nos E.U.A., com o conhecido M.I.T. a ser fundado em 1865. Em Portugal, abstraindo esforços longínquos como a instituição do Colégio dos Nobres por Pombal, na raiz da subsequente Escola Politécnica, instituída em 1837 (R. d. Carvalho, 2008, p. 569), a Universidade Técnica de Lisboa nasce federativamente por decreto de 1930 no intuito de, como se lê no decreto instituidor (e aqui o que interessa reter é a associação directa do ensino superior à melhoria da prática profissional), “Conjugar as escolas superiores técnicas mais directamente umas com as outras, no sentido da finalidade (sócio)económica colectiva, e honrar as profissões para que elas preparam, as quais constituem actividades fundamentais para a existência e para os progressos do País".

[115] “Luditas” foi o nome porque – de acordo com o seu apelido do seu líder mítico, Ned Ludd - no início do século XIX ficaram conhecidos bandos de artesões têxteis ingleses que, substituídos nas fábricas por máquinas, ripostaram violentamente destruindo-as. Hoje em dia a expressão é usada em sentido abrangente para designar os que se opõem à mudança tecnológica.