construcionismo

II.2 Do construtivismo ao construcionismo ao conectivismo

Na história das ideias, as correntes de pensamento com “ismo” no sufixo tendem a ser matéria de cisma, constituindo fracturas marcantes no pensamento e na forma de conceber as relações sociais e a condição individual perante elas (e.g, na política, o “comunismo” versus o “capitalismo”; ou, na educação, o “behaviorismo” versus o “construtivismo”). O “conectivismo” que aqui passaremos brevemente em revista corresponde a um corpo de ideias que tem vindo a ser desenvolvido com esse nome desde 2004 essencialmente por dois autores, ambos canadianos – George Siemens[33] e Stephen Downes[34]. Não é seguro que venha futuramente a conquistar um lugar como “ismo” destacado das teorias da aprendizagem, no entanto, pelas preocupações que trás na adaptação entre a nova organização da sociedade em rede e os modelos de educação que ela deve seguir parece-nos digno de nota.

Na definição dos seus proponentes “o conectivismo é essencialmente a asserção de que o conhecimento é enredado[35] e distribuído, e que o acto de aprender é a criação de e navegação em redes” (George Siemens, 2008a) ou a “teoria de que o conhecimento e a aprendizagem podem ser descritos e explicados usando princípios de redes”, sendo o “acto de aprender equivalente ao desenvolvimento de uma certa configuração neural” (Downes, 2005) e o conhecimento um processo de reconhecimento de padrões; de construção de significado pelo estabelecimento de conexões.

Assumindo que uma ideia nova é mais frequentemente a recuperação de ideias velhas em novos contextos - e portanto que os segundos mudam mais do que as primeiras, meramente recriadas (George Siemens, 2008b) – o conectivismo declara-se herdeiro compatível com a teoria da actividade e a ideia de acordo com a qual os artefactos medeiam a interacção social; da aprendizagem situacional; da teoria social cognitiva de Bandura (de onde é importante reter o processo de modelling como aprendizagem por observação, com corolário na garantia da Atenção, Retenção, Reprodução e Motivação[36]), das ideias sobre a cognição distribuída, dos teóricos dos Media como McLuhan e das teorias do caos e da complexidade – à semelhança, entre nós, de Coutinho & Junior (2007) - bem como das teorias sociológicas mais recentes sobre a sociedade em rede para finalmente propor como características especificamente suas e inovadoras:

  1. A aplicação de princípios da organização em rede à definição tanto do Conhecimento como da Aprendizagem; o primeiro entendido como padrão particular de relações; a segunda como criação de novas ligações/conexões e padrões;
  2. A faculdade de unificar os níveis de abordagem ao problema da aprendizagem biológica (à maneira do cognitivismo de Piaget, com as suas “etapas do desenvolvimento”) e cultural, propondo que a mesma estrutura de aprendizagem que cria as ligações neurais pode ser encontrada na maneira como associamos ideias e nos ligamos a outras pessoas e fontes de informação [tese para que encontramos igualmente suporte em Goleman (2006), com a sua concepção da inteligência como produto da “cognição social” e a ênfase que coloca na necessidade de garantir ao longo da vida “conexões saudáveis” bem como no papel da “conectividade correctiva” à luz da qual podemos entender a participação em comunidades de aprendizagem];
  3. A colocação do foco na inclusão da tecnologia como parte da nossa distribuição da cognição (para esse efeito, valorizando as bases de dados a par da interacção social; na medida em que se o “conhecimento é o estabelecimento de conexões” ele pode ser logrado tanto a partir da segunda como das primeiras – contribuindo para a unificação das dicotomias “sociabilidade”-“conteúdos”; “relação pedagógica”-“limites da máquina enquanto facilitador da aprendizagem”);
  4. Especial reconhecimento da importância do contexto e do directo impacto da sua natureza fluida na aprendizagem; isto é, de que o ambiente e a forma como influencia as relações estabelecidas altera os resultados da aprendizagem e é mais importante do que qualquer noção de “conhecimento pré-determinado”. Proposição das noções de ecossistema ou “ecologia de aprendizagem” - ambiente que fomenta a criação e manutenção de comunidades e redes de aprendizagem.
  5. Argumentação de que a abundância e rápida circulação da informação eleva a necessidade de construção de significado, coerência e compreensão à preocupação primordial da aprendizagem; portanto, tentativa de conciliar as mudanças na informação e comunicação com a educação.

Se para Jonassen, os computadores são “ferramentas que ajudam a pensar”, para os conectivistas os dispositivos móveis em rede devem ser vistos como “ferramentas que ajudam a estabelecer conexões significativas”. Da mesma maneira, se para o construcionismo de Papert as mãos estão conectadas ao cérebro, aprendendo-se tão melhor quanto mais pela manipulação prática e pela construção de produtos com significado pessoal, para o conectivismo os cérebros ligam-se naturalmente uns aos outros; ensino e aprendizagem são sociais por natureza e o conhecimento, mais do que estar “na rede” é “a rede” (recuperando o chavão de McLuhan - “o Meio é a mensagem” - a rede é o conhecimento) e aprender uma questão de estabelecer ligações dentro de ecologias do conhecimento pela sobreposição dos nichos de aprendizagem pessoal (campo dos ambientes pessoais de aprendizagem, a que regressaremos adiante) com os múltiplos círculos de interesses em que se participa.

Apoiando-se na teoria da cognição distribuída, consoante avançada por Hutchins (1996), o “construcionismo distribuído” de Resnick (1996) propunha aliás já algo de parecido; reconhecendo que a cognição e a inteligência não são propriedades de um indivíduo para sim o resultado da interacção do indivíduo com o ambiente circundante, composto tanto por pessoas como por artefactos. Sentido em que os dispositivos de comunicação móveis surgem como ferramentas que devem auxiliar a manipulação ambiente e permitir a discussão, a partilha e a colaboração no processo da elaboração das construções.

Para a cognição distribuída o conhecimento é uma representação da realidade que se atinge através de memórias, factos e informação disseminados no ambiente circundante (Y. Rogers, 1997); sendo propósito educativo modelar a troca de informação entre “representações” - presentes tanto no espaço mental interior como exteriormente - e as actividades cognitivas vistas como cálculos mentais através da propagação de estados representacionais de acordo com uma lógica de que “comunicação é conhecimento” e relação seja interna – como representação daquilo que já se sabe – seja externa, por contacto com as “representações” alheias (os diversos indivíduos trabalhando junto numa tarefa colaborativa comum possuem naturalmente diferentes tipos de saberes e experiências que os levam a envolver-se em interacções mutuamente enriquecedoras e, pondo as diferentes competências em comum, a executar melhor as tarefas; sendo o todo maior do que a soma das partes).

Em consonância com as críticas mais comuns, de que o conectivismo peca por um pendor excessivamente filosofante, contentando-se em explicar o mecanismo de formação do conhecimento pela conexão sem chegar a responder à questão essencial de o que é que torna a informação significativa, na nossa perspectiva, conforme ressaltado por Downes (2005) é ainda assim sobretudo de valor como teoria sobre a natureza do conhecimento que pretende responder às questões sobre como ele se forma e ocorre; e qual a sua natureza além dos conteúdos.

No estado corrente da facilidade de acesso à informação, mais importante do que saber como ela se transmite ou deglute é a capacidade de a seleccionar e instantaneamente aferir que porções delas à disposição merecem ser perseguidas ou colocadas de lado. Nesta medida, o conectivismo advoga (G. Siemens, 2004) a necessidade de nos movermos além das acepções clássicas do ensino-aprendizagem (ver Tabela 4 e Tabela 6), sugerindo a obsolescência da concepção do conhecimento como um “estado a que se chega”, comum tanto ao objectivismo do behaviorismo (a realidade tem uma existência externa ao indivíduo, sendo apreendida pela experiência, pelo que o que importa é o resultado abdicando a pedagogia de tentar compreender os mecanismos internos para se centrar nos meios de alteração do comportamento) como ao pragmatismo que orienta o cognitivismo (o sentido está na utilidade ou efeito prático sendo o conhecimento um constructo simbólico e mental e a preocupação da pedagogia desenvolver os meios para o inserir na memória do aprendente) e mesmo ao interpretativismo em que se funda o construtivismo (a realidade é uma construção individual, interior, sendo o conhecimento construído e o propósito da pedagogia fornecer fórmulas autênticas para a criação de significado).

Assim, o conectivismo invoca a teoria do caos para propor que o significado se impõe e a tarefa que cabe ao aprendente é tanto “construi-lo” como “reconhece-lo”; uma vez que se trata de uma construção partilhada entre uma comunidade de falantes, a sua apreensão é matéria de reconhecimento de padrões, uniformidades e nexos lógicos pré-existentes e a participação dialógica em comunidades de aprendizagem ou prática um instrumento de alinhamento do conhecimento pessoal com o conhecimento público.

Tabela 4 - Mudança de paradigmas na educação

 

Passado

Presente

Emergente

Teorias de Aprendizagem

Behaviorismo
Objectivismo

Cognitivismo
Construtivismo

Navegacionismo
Conectivismo

Posição da Informação

Recolha de Informação

Geração de Informação

Navegação na Informação

Acção sobre a Informação

Fornecimento de Informação

Gestão da Informação

Facilitação da Informação

Adaptado de acordo com Brown (2005a).

Na superabundância da informação, é preciso agir mesmo na ausência da plena compreensão; a “acção é necessária sem aprendizagem pessoal”, existindo inteligência na simples selecção do que se lê e do que se descarta. A promoção de competências de “metacognição”, na acepção por ex. de Pinto (2001), como “conhecimentos de uma pessoa sobre o âmbito e limites da mente humana e dos respectivos processos cognitivos” e de “auto-regulação”, surgem como condição da aprendizagem e da capacidade de abstracção e universalização.

O conectivismo partilha com o construtivismo a ideia de que o conhecimento não é adquirido nem tem existência como se fosse uma “coisa”; difere no entanto dele na medida em que também não o entende como “prepositivo”, no sentido cognitivista e de acordo com o processo piagetiano de adaptação e organização. Para os conectivistas o conhecimento consiste literalmente no conjunto das conexões formandas pelas acções e pela experiência; pode consistir em parte em estruturas linguísticas, mas na sua essência não está baseado nelas. As conexões formam-se espontaneamente, por um processo de associação natural e não de construção.

Em suma: o conectivismo implica uma pedagogia que procura descrever as condições de ocorrência de redes bem sucedidas (caracterizadas pelas suas propriedades de autonomia, abertura e conectividade) e identificar as práticas que a elas conduzem. O “conhecimento conectivo” assume uma forma além da clássica dicotomia quantitativo-qualitativo; à margem do “idealismo” para que, na forma radical, remete o construtivismo (Castanon, 2005), recupera e expande ideias do associacionismo em como o conhecimento é atingido através da associação de ideias seguindo os princípios de semelhança, continuidade espacial e temporal e causalidade (veja-se ainda a tabela de síntese no Apêndice 9: Comparação do conectivismo com as teorias de aprendizagem dominantes no passado).

 


[33] Página pessoal: http://www.elearnspace.org

[34] Página pessoal: http://www.downes.ca/

[35] No original networked (ou seja, “ligado em rede”, “conectado”). Parece-nos no entanto que soltamente entendido o termo português “enredado” (“envolto em rede”) é igualmente passível de capturar a realidade descrita, evitando o anglicismo.

[36] Não por acaso, coincidentes com o modelo ARCS de John Keller (com sítio oficial em: http://www.arcsmodel.com/) relativo à necessidade de assegurar a Motivação pela garantia da presença social e pela modelação da aprendizagem assegurando a Atenção, Relevância, Confiança e Satisfação do aprendente. Sendo um aspecto central da aprendizagem à distância, a “motivação” como acção sobre o objecto, manipulação e cooperação já vem aliás de Piaget e da forma como este perspectiva as operações cognitivas e o desenvolvimento em termos senso-motores.

Apêndice 9: Comparação do conectivismo com as teorias de aprendizagem dominantes no passado

Tabela 14 - Comparação do conectivismo com as teorias de aprendizagem dominantes no passado 

Propriedade/Teoria

Behaviorismo

Cognitivismo

Construtivismo

Construtivismo Social

Aprendizagem Situada

Teoria da Actividade

Conectivismo

Autores-chave

Skinner

Piaget

 Bruner

Vygotsky

Lave

Leontiev, Engelström

Siemens, Downes

Conceitos-chave

A mente como “caixa negra”

Adaptação (assimilação+acomodação), organização, esquemas, equilibração, desenvolvimento, memória de curto prazo, memória de longo prazo

Estruturas mentais, interpretação pessoal, experiências prévias

Negociação social, Zona de Desenvolvimento Próximo

Participação Periférica Legítima, recém-chegado, habitué

Sistema de actividade, sujeito, objecto, artefactos mediadores, aprendizagem expansiva

Rede de Conhecimento Pessoal, nodos de conhecimento

Como é que a aprendizagem ocorre?

Mudança observável do comportamento

Integração e modificação das estruturas internas, etápico-sequencial

Ajuste dos modelos mentais para acomodar novas experiências, criação de significado pelo aprendente, pessoal

Passagem do nível de desenvolvimento actual para o desenvolvimento próximo, social.

Integração progressiva na Comunidade

Gerar acções numa actividade mediada, orientada por objectos

Distribuída dentro de uma rede, social, melhorado pela tecnologia, estabelecimento de conexões, reconhecimento e interpretação de padrões

Factores influentes

Natureza da recompensa, punição, estímulos

Esquema existente, experiências prévias

 

Envolvimento, participação, social, cultural

   

Diversidade da rede, força dos laços

Papel da memória

Interiorização de experiências repetidas

Codificação, armazenamento, recuperação

Conhecimento prévio remisturado com o contexto corrente

     

Padrões adaptativos, representativo do estado corrente, existente em redes

Como ocorre a transferência de conhecimento

Estímulo-resposta, reforço

Duplicação dos constructos do conhecimento pelo conhecedor

Socialização

     

Conexão com. (estabelecimento e adição) de nodos/ligações

Tipos de aprendizagem a que se adapta

Aprendizagem baseada em tarefas

Raciocínio, com objectivos claros, resolução de problemas

 

Social, vaga (mal definida)

   

Aprendizagem complexa, diversas fontes de conhecimento, núcleo em mudança rápida

Papel do aprendente

Aquisição do Saber

Internalização do Saber

Construção do Saber

Co-construção do Saber

Participação numa Comunidade de Prática

Construção do objecto da actividade usando artefactos mediadores

Construtor do conhecimento em rede

Entidade Social Subjacente

 

Sala de aula. Relação pedagógica Aluno-Professor

 

Grupo de tutores e orientandos, centralizado, controlado, de cima para baixo

Comunidade de Prática, fechado, estruturado, hierárquico, avanço (push) do conhecimento

Nós, relações temporárias, previsível

Ecologia de Conhecimento, complexo, adaptativo, imprevisível, dinâmico, aberto, distribuído, diverso, emergente, recuperação (pull) do conhecimento.

Fontes: Siemens & Titenteberg (2009) e Chatti (2007).

NB: A presente tabela complementa a leitura da parte II.2 Do construtivismo ao construcionismo ao conectivismo.