affordance

INTRODUÇÃO

O tema deste estudo é a aprendizagem móvel (mobile learning), entendida como conjunto de processos para chegar ao conhecimento mediante a conversação em múltiplos contextos entre pessoas e tecnologias interactivas pessoais (vide I.2 Do peripatetismo à ideia de mobile learning e Apêndice 6: Definições de aprendizagem móvel). É objectivo geral operar uma avaliação predominantemente qualitativa das mudanças introduzidas no processo de ensino-aprendizagem pelo acréscimo de mobilidade e consequentes alterações na concepção social espácio-temporal, fundado na ideia de que, ao inverso da imprensa ou da televisão conforme perspectivadas por McLuhan ou Innis, não há hoje um Media civilizacionalmente “revolucionário”, nem mesmo a Internet strictu sensu; antes a “novidade” de uma mudança de paradigma pela convergência dos diversos Meios no seio dos sistemas interactivos de comunicação em que se a digitalização é o denominador comum, a conectividade, a globalização e a passagem dos consumidores a produtores de informação são os verdadeiros agentes de mudança (Gustavo Cardoso, 2006) (M. Castells, Fernández-Ardèvol, M., Linchuan Qiu, J. & Sey, A., 2007) e os “fluxos” (Castells, 2002) uma forma espacial característica das práticas sociais que dominam e moldam a sociedade em rede (F. H. Cardoso, 2007).

Como referencial do nosso trabalho propomos pois buscar resposta para a questão:Concretamente do que é que se fala quando se fala em mobile learning?” E derivadamente derramar luz sobre a dúvida: “Em que medida o incremento da mobilidade pela generalização das tecnologias da comunicação, mormente sem fios, pode aproveitar ao processo de ensino-aprendizagem?”

Adoptando uma noção de “compreensão” como mapeamento e avaliação dos limites de um campo de estudo, definimos como nossos objectivos específicos: a) identificar, inventariar, resumir e classificar a principal literatura associada ao campo de estudo mobile learning, contextualizando-a dentro do campo teórico das Ciências Sociais em geral e das Ciências da Educação, em particular (cap. I); b) descrever as aplicações dos principais dispositivos e tecnologias da informação e comunicação móveis bem como os propósitos pedagógicos que podem servir (cap. II); c) examinar criticamente as suas possibilidades, categorizando e sistematizando modelos e propostas, mormente para o desenho de instrução de material pedagógico adaptado (cap. III)¸ d) analisar a emergência da "mobilidade" como desiderato da generalização das tecnologias de comunicação sem fios bem como explicar o seu impacto global no processo do Ensino-Aprendizagem (tarefa predominantemente relegada para os apêndices de desenvolvimento).

Assumimos assim o nosso “projecto” à imagem da planta que se traça para a edificação de uma casa (a casa onde o novel campo do mobile learning há-de habitar), como plano gráfico e descritivo, desde os alicerces sob os quais assenta (cap. I); à distribuição de espaço entre as diversas divisões em função do que possam albergar (cap. II), às técnicas e materiais mais adequados para as por de pé (cap. III). Como todos os edifícios, o do m-Learning não surge no entanto isolado; coexiste num ambiente profundamente urbano e cosmopolita – o da “sociedade em rede” e da conexão permanente – pelo que o rigor manda que no intuito de uma traça fluidamente inserida o arquitecto cauteloso indague da vizinhança e dela faça um levantamento prévio, cujo resultado se anexa em apêndices.

A massificação das tecnologias da informação e da comunicação tem merecido grande publicidade pelas possibilidades que abre através da integração na aprendizagem seja formal seja sobretudo, defendemos, informal, permanente e auto-regulada, merecendo a componente tecnológica atenção crescente por parte das ciências sociais e humanas, na medida do esbatimento da tradicional dicotomia entre estas e as ditas “exactas” (Correia & Tomé, 2007, p. 62) face às novas modalidades de aprendizagem conversacional, interactiva, ubíqua e multimodal e de escrita multimediática que rompem com a tradicional forma escrita do livro como cristalizador de saberes e impositor de fronteiras lexicais entre campos do saber (Nyíri, 2002).

Permanece, não obstante, aberta a discussão sobre os limites e a captura da real essência do mobile learning, dentro do debate mais alargado da emergência do e-Learning no ensino à distância, pela própria diversidade de projectos e abordagens, quase sempre parcelares, que dificultam a apreensão dos seus limites úteis e a demonstração cabal e compreensiva da forma como pode contribuir para a teoria e prática educativas (M. Sharples, Milrad, Arnedillo Sánchez, & Vavoula, 2008).

A supervalorização da componente telemática; certa confusão entre o discurso promotor do wireless, nas suas múltiplas vertentes comerciais (UMTS, Wi-Fi, Bluetooth, Wi-Max…), tanto como dos media digitais (com a miniaturização e sistemática convergência de tecnologias e capacidades), faz com que se incorra frequentemente no equívoco de confundir o instrumento e o meio com os fins, acantonando-se simplisticamente o debate do m-Learning em volta da aprendizagem com dispositivos móveis e da ideia de que a sua simples disponibilização gerará um dia, eventual e fatalmente frutos; sem prestar a devida atenção nem situar o conceito e o campo de estudo, ao invés, na própria noção de “mobilidade” - a um tempo no espaço físico, pela miniaturização tecnológica, no espaço conceptual, no espaço social e “mobilidade” na flexibilidade da aprendizagem ao longo do tempo (M. Sharples, Taylor, J., Vavoula, G., 2007).

Num instante em que crê em e propõe a tecnologia como motor da mudança social, inclusive na educação (leia-se o Plano Tecnológico do actual governo), importa recuperar e reavaliar o debate sobre as relações entre tecnologia e ideologia, na certeza da irredutibilidade da segunda à primeira e da necessidade de um prudente distanciamento da fé nos seus mecanicismo e determinismo; sendo certo que o desenvolvimento é sempre marcado pelo contexto social e cultural e que os efeitos só ocorrem quando as invenções são adoptadas, desenvolvidas e aplicadas, geralmente para usos já existentes em primeira instância (McQuail, 2003, pp. 89-90).

Assim, a metodologia a adoptar consistirá assim num panorama e revisão críticos da literatura internacional sobre o tema mobile learning. Serão fontes de análise os artigos e publicações da especialidade bem como os dados estatísticos recolhidos por entidades públicas e privadas credíveis a par, necessariamente, em plena lógica da Web social, da produção académica informal, plasmada em blogs e fóruns de discussão bem como as notícias em órgãos generalistas relativas às tendências e usos da tecnologia.

Na manifesta dificuldade em circunscrever de forma suficientemente operativa o objecto das “Ciências da Educação”, e não desejando mergulhar na discussão que nos transcende da forma plural destas, preferiremos falar do debate da “mobilidade” no contexto “educativo”, na acepção abrangente do desenvolvimento humano em cujo seio naturalmente recaem as preocupações de múltiplas disciplinas, seja dentro do sistema de Ensino seja à sua margem; institucional ou individualmente.

Conforme notado por Lalueza et al..(Coll & Monereo, 2008, p. 54 e seg.s), a assumpção construtivista social do desenvolvimento como participação dinâmica nas actividades socioculturais da comunidade implica que as ferramentas culturais desenvolvidas num dado momento histórico surjam estreitamente ligadas à própria definição de inteligência; às qualidades valorizadas pelo grupo e em conformidade constituídas em linhas de orientação do desenvolvimento cognitivo, emocional e social dos sujeitos. É por isso que para além das affordances da tecnologia A ou B, é importante considerar globalmente as Novas Tecnologias em Educação Social (García, 2008), na certeza de que as primeiras continuam a servir a segunda e de que a utilidade que se lhes procura é antes de mais a passibilidade de servir a integração social.

A dotação de movimento (mobilidade) de pessoas, dispositivos e serviços susceptíveis de aumentar os níveis de desenvolvimento humano correntemente experimentada pelas TIC ecoa assim não acidentalmente os valores da mobilidade socioprofissional que o Deus da Utilidade Económica, na acepção de Postman (ver Apêndice 16: Da comunicação ao conhecimento. Considerações sobre determinismo tecnológico e consumo), acompanhado pela globalização dos mercados e pela deslocação de serviços e mercadorias valoriza.


I.3 Na sinfonia dos saberes

Como fenómeno e campo de estudo, segundo a lógica hibridista imperante (cf. Apêndice 3: Acepções do Saber. Currículo e tecnologias), a aprendizagem móvel convoca um conjunto transdisciplinar de saberes que levam a que possa mais produtivamente ser definida, além de uma circunscrição formal, a partir do enunciado das suas variáveis. Neste plano o Prof. Laouris (Laouris & Eteokleous, 2005) avançou a seguinte função da “aprendizagem móvel” que nos parece um ponto de partida especialmente útil:

Assim, a ocorrência do fenómeno mobile learning (“MLearn”) pode ser percepcionada (e definida) como função agregada de sete grandes variáveis que se exponeciam: tempo (t), espaço (s), ambiente de aprendizagem (LE), conteúdo (c), tecnologias da informação (IT), capacidades mentais do aprendente (MM) e método (m).

Postas as coisas neste enquadramento, é desde logo de notar que as “Tecnologias” são apenas 1/7 da dimensão a ter em conta na análise; elas correlacionam-se com o espaço na medida em que a sua disponibilidade varia nele (por ex. pode ser que as redes UMTS, atinjam uma cobertura de 100% de um território, não é porém certo que cada utilizador tenha sempre acesso a elas – por hipótese por ter apenas disponível um telemóvel com acesso GPRS ou por restrição de dadas condições morfológicas do terreno que imediatamente o rodeie); correlacionam-se igualmente com o método pedagógico na medida em que devem ter o potencial de se adaptarem às suas necessidades consoante o tipo de aprendizagem que se queira atingir.

Por outro lado, o método é ele próprio função do modelo pedagógico e do paradigma filosófico que se adopte; veremos adiante que existindo neste domínio algum consenso quanto à teoria da actividade e a uma recuperação das ideias de Vygotsky relativas ao carácter social da aprendizagem o certo é que existem múltiplas encarnações da sua aplicação; consoante pelo menos meia dúzia de paradigmas, identificados entre outros por Naismith, Sharples, Vavoula, & Lonsdale (2004).

Já no tocante à selecção do conteúdo, quando o m-Learning seja chamado a uma aplicação formal (por ex. como extensão das actividades em sala de aula), deriva de uma didáctica condicionada pela percepção da relevância educativa e da responsabilidade social, tendo presente a negociação entre o interesse pessoal e a imagem colectiva do que é importante saber, a par, na lógica construtivista, da necessidade de atender à idiossincrasia do indivíduo – segundo o modelo, popular em e-Learning, patente por ex. nos princípios elementares de instrução de Merrill (Lima & Capitão, 2003, p. 103 e seg.s), para quem qualquer conhecimento se constrói sobre o conhecimento prévio; sendo, em consonância com a teoria da inclusão de David Ausubel, a experiência anterior o elemento mais determinante na integração do novo conhecimento.

Este “lastro” (de conhecimento prévio) – ou “âncora” – condiciona as capacidades mentais na medida em que limita a zona de desenvolvimento próximo a que o novo conhecimento se pode estender. Mas não é nisso único. A capacidade mental está igualmente condicionada pelas preferências pessoais; pela atenção; pela motivação e pelos atributos. Estes últimos, equiparados a skills (habilidades), são especialmente condicionantes numa aplicação informal como é o caso falando de aprendizagem situacional, em contextos abertos, com solicitações que desviam a capacidade de prender a atenção e de progredir segundo as inclinações individuais.

A mesma função pode ser usada para perspectivar as disciplinas de que o novel campo se pode socorrer (vide Ilustração 3). Assim, Mente e método são o território preferencial onde a Pedagogia e as Ciências da Educação são chamadas a intervir; entre as quais se releva o papel charneira da Psicologia da Educação como “disciplina que estuda as mudanças psicológicas que se produzem nos indivíduos como consequência da sua participação em situações e actividades educativas” (Coll & Monereo, 2008, p. 39).

Ilustração 3 - Áreas do saber que contribuem para o estudo e avanço do mobile learning. Muito remotamente inspirado em Günther (2003, p. 275)


O “espaço” é alvo tradicional de atenção pela Geografia, mormente Urbana, de onde derivam aliás os ensinamentos relativos à Sociedade em Rede – um dos seus expoentes, o catalão Emanuel Castells, tem-na não por acaso como formação.

Dois conceitos críticos podem ainda ser tomados por empréstimo em auxílio da definição da problemática do mobile learning, de outras tantas disciplinas: “mobilidade” e “affordance”; o primeiro originário da Demografia e da Geografia Humana, o segundo enquadrável na Psicologia Ambiental

Concomitantemente, a Sociologia debruça-se sobre os problemas da identidade na sua relação com a modernidade – en passant, em que por ex. o britânico Anthony Giddens, autor do porventura mais divulgado manual da disciplina entre nós é arauto[19] – bem como os problemas da socialização e formação de grupos; a que a Antropologia Cultural acresce o apport da “aculturação” e do conceito operacional da “cultura” como constructo e deriva social distintiva da condição humana bem como uma explicação sobre a manipulação dos artefactos e as construções simbólicas.

Ainda de entre as ciências da educação, a Pedagogia e a Didáctica, centradas por um lado na formação do indivíduo e na educação da realidade pessoal e na reflexão sobre os métodos do ensino, por outro, contribuem respectivamente para a axiologia e os contornos da relação pedagógica e para a concepção do material, conteúdos e actividades adaptados.

A solução do problema do “conteúdo” conquanto passe pela necessidade da sua adaptação às tecnologias da informação converte-se num problema de usabilidade que convoca os saberes da informática na variante do estudo da interacção homem-computador (HCI, Human Computer Interaction) bem como depende da engenharia de sistemas e redes para a solução dos problemas da conectividade.

A Economia e a Gestão convergem nas problemáticas da cultura organizacional e da administração da informação.

As Ciências da Comunicação, finalmente, ocupam-se do enquadramento e impacto dos ditos Novos Media no contexto dos antigos estudos sobre os Mass Media e designadamente da problemática do processamento linguístico.

 


[19] Para um desenvolvimento desta colação veja-se Mobile learning: towards a research agenda (Pachler, 2007, p. 134 e seg.s).

I.4 Do contexto. Ubiquidade e heterotopia

 No campo da computação móvel, uma das definições operacionais de “contexto” mais bem aceites é a de Dey et al. (1999)[20], de acordo com os quais “contexto é qualquer informação que pode ser utilizada para caracterizar a situação de um entidade. Uma entidade é uma pessoa, local ou objecto considerado relevante para a interacção entre um utilizador e uma aplicação, incluindo o utilizador e a aplicação eles próprios.”

Trata-se do downgrade possível a partir de uma definição mais ambiciosa (Dey, 1998) – e certamente mais aguda para efeitos da aprendizagem móvel – como soma dos  “estado emocional, foco de atenção, localização e orientação, data e hora, objectos e pessoas no ambiente do utilizador”[21] (portanto, a soma dos ambientes físico, social, emocional e mental). O fosso entre as duas (mormente a percepção do estado mental - emoções e foco de atenção) corresponde à resignação à evidência da impossibilidade da tecnologia em os captar (pese embora a evolução das técnicas biométricas – à semelhança das já existentes por ex. para a identificação pela iris, medidores de exsudação e ritmo cardíaco et caetera… - permitir admitir que a prazo também estas variáveis possam vir a ser parcialmente tidas em consideração).

Tabela 1 - Mobilidade do utilizador e portabilidade da tecnologia

 

Mobilidade do utilizador

Aprendente no local convencional de aprendizagem

Aprendente deslocado do local habitual de aprendizagem

Portabilidade da Tecnologia

Tec. Fixa

Não Mobile Learning

Mobile Learning

Tec. Portátil

Mobile Learning

Mobile Learning

Segundo Vavoula et al. (2005)

À discussão do “contexto” subjazem portanto dois níveis contraditórios – um inclusivo e tendencialmente enriquecedor, o outro exclusivo e tendencialmente limitador - pois do ponto de vista da percepção humana, a cultura da “virtualidade” tanto admite a realidade aumentada e a expansão pela simulação como implica lidar com os limites impostos pela comunicação mediada, cabalmente incapaz de envolver o pleno dos sentidos e comoções. Temos um copo meio cheio se pensarmos nos Novos Media e nos dispositivos móveis que lhes facultam o acesso como acréscimos à experiência; meio vazio se se pensar que qualquer que seja a estratégia e riqueza das actividades e interacções – e independentemente da capacidade de antecipação de quem os concebeu ter contemplado a máxima abertura - eles são sempre pré-programados e – nessa medida – em parte constrangidos e constrangedores.

Por outro lado, é preciso ter presente uma evidência: a aprendizagem humana é invariavelmente situacional; quem aprende nunca o faz num vácuo. A “novidade” dos dispositivos móveis reside “meramente” na promoção de uma aprendizagem “autêntica” porque mais próxima das situações concretas onde a necessidade do conhecimento se pode fazer sentir e de onde a intencionalidade directa da mente humana se pode derivar.

Apesar de poderem ser tecnicamente levadas a um estado de context awareness (consciência, pelo menos parcial, do contexto) as TIC móveis por definição processam a informação de uma forma separada e progressiva; partindo do particular para o todo – ao inverso da mente humana que trilha o caminho oposto. Ou seja: o ónus da construção do contexto repousa sempre no lado "humano" da comunicação e não se limita (para pensar em elementos já hoje fáceis de obter) às variáveis local/espaço (coordenadas geográficas) nem ao tempo (hora) mas diz ainda respeito ao conjunto de percepções, mormente "sócio-gestuais"; já para não falar da idiossincrasia de cada sujeito. De onde – em plena lógica Web 3.0 - a importância da recolha de dados – e o refinamento das ontologias[22] da Web semântica de forma a proporcionar modos de associação simbólica - para a construção do seu perfil de interesses; sendo que estes por si são apenas parte do idiolecto e da forma como a "selva neural" de cada indivíduo processa a informação; tendo presente que o cérebro humano (a "inteligência") é mais do que operações lógico-formais - inclui os reflexos e as emoções – sendo estas, conforme Damásio (1998), mesmo imprescindíveis.

De onde ainda a importância das redes sociais e da comunicação com outros co-aprendentes que mesmo quando não revelam uma capacidade de resposta superior à da máquina reservam alguma capacidade de surpresa e conseguem trabalhar domínios impassíveis de ser formalizados pela computação.

O problema do mobile learning constitui-se desta forma também no de ultrapassar as barreiras de "comunicação" (em sentido lato; como "interacção bem sucedida") entre o utilizador e os dispositivos e a forma como eles "dispensam" a informação; pressupondo a capacidade de "aprender com os erros” e proceder ao reajuste. Daqui derivam quatros orientações de vulto com aplicação pedagógica e didáctica; as necessidades de:

  • promover a inteligibilidade mútua;
  • maximizar a sensibilidade para padrões particulares e oportunidades de interacção;
  • prover recursos para detectar e remediar dificuldades de aprendizagem;
  • aproveitar a bagagem de experiências e circunstâncias do utilizador.

Em consonância com a teoria da actividade (ver nota 110), em mobile learning, o contexto depende tanto do que “está à nossa volta” (o ambiente) quanto dos artefactos tanto culturais como materiais com que estamos a lidar. Assim “aprendizagem no contexto” é tanto “aprender no local de trabalho” como “aprender na ferramenta de trabalho” (e.g., instruções interactivas sobre o uso da fotocopiadora interactivamente disponíveis na fotocopiadora).

O mobile learning permite igualmente o percurso pessoal de aprendizagem em contextos variáveis ao longo do dia: o indivíduo que participa em múltiplos grupos (com múltiplos “chapéus”) mas também o indivíduo que tem nova flexibilidade na gestão do tempo; o indivíduo perante o seu percurso pessoal de aprendizagem.

A preocupação com o ambiente e a organização do “espaço” são particularmente caras à Arquitectura. E foi no contexto daquela disciplina, num centro de estudos tunisino, que em 1967 Michel Focault o explanou numa conferência publicada em texto anos mais tarde: Des espaces autres (Foucault, 1984). Nele traça uma genealogia do conceito em termos históricos e civilizacionais: da “localização”, característica da época medieval, em que o horizonte do indivíduo era predominantemente local e regional, à “extensão” acrescida com o Renascimento, os achados de Copérnico, Galileu e da Astronomia relativamente ao Espaço exterior à noção da extensão da própria esfera terrestre, propiciada pelas descobertas, até final e mais recentemente, como reacção, chegarmos à emergência da noção de “posicionamento”, de forma defensiva, perante a percepção de fronteiras não só permeáveis como dinâmicas, implicadas na ideia do Big Bang e de um espaço sideral em permanente expansão. Podemos inserir nesta última linha o conceito de “glocal”, a um tempo parte de um todo incomensurável e realidade localizada; da mesma maneira que o ciberespaço pode ser visto como heterotopia técnica de um princípio religioso: o da universalidade colocada em comunicação pela moeda corrente da digitalização e dos dados intermutáveis e infinitamente extensíveis.

A “Internet” como registo akásico, materializaria em larga escala o princípio antes presente no esforço laicizante das bibliotecas e museus: heterotopias em que se pretenderia confinar o tempo no espaço; uma materialização da antiga ideia do Paraíso em formato secular e facilmente acessível que promete a “revelação” pela simples “conectividade” cuja garantia é uma espécie de “via iniciática” de quem fibra óptica, modem e computadores seriam os breviários e o UMTS, os smarthpones e os netbooks o tapete persa que permite comodamente, em qualquer altura do dia, a persignação para Meca; o comungar e saciar a sede de “Conhecimento”.

Nas cibercidades, povoadas de comunidades virtuais de prática, sem distinção de credos e raças, unidas pelo perfil e interesses, encontramos na Era Técnica a realização do ideal “católico” de unidade religiosa sob uma manto uno e universal (californiano, “formoso” ou mesmo coreano, antes de ser “romano”); em que os vínculos e as ligações se processam interactivamente no seio de uma rede paradigmática enquanto artefacto cultural do ideal de utopia social. Citando Musso (2003), “a rede leva sempre consigo um imaginário de transição entre a liberdade de um sistema piramidal e hierárquico de que o Estado é o arquétipo e a promessa de um sistema futuro, o da associação universal, anunciador de um novo tipo de relação igualitária.” A Internet é uma manifestação heterotópica da utopia da comunicação perfeita e perfectível (isto é, instrumento passível de aperfeiçoar).

Os dispositivos de comunicação móveis prefiguram-se como artefactos gnósticos; isto é, que facilitam o acesso ao Saber e iluminam a existência pela Razão contra o obscurantismo da ignorância e a ignomínia animal. Nesta medida, a emergência da aprendizagem móvel é o triunfo da cultura e da ética pela educação; em consonância com Saint-Simon, proponente da “comunicação” como seiva viva do Estado centrípeto e orgânico, gestor de “coisas” mais do que “pessoas” e de uma nova educação técnica para o homem industrial - com o conhecido e consequente excesso de proposição pelo seu discípulo Comte do “positivismo” como catecismo e “nova religião” (ver nota 114).

Outro conceito correlato e central para o nosso estudo é o de “ubiquidade”; a qual diz respeito à presença do saber mediatizado em todos os contextos, independentemente, por via do acesso à Internet e às auto-estradas digitais. No centro da affordance[23] dos dispositivos móveis surge portanto, prosseguindo a alegoria, a sua condição de oráculos; instrumentos de revelação.

Em absoluto rigor a ubiquidade aplica-se não ao indivíduo, que – embora em condições de mobilidade acrescida – continua a só poder estar presente num lugar à vez, mas às tecnologias, capazes elas de marcar presença simultânea. É sobretudo o caso das redes de comunicação sem fios, com a sua capacidade reticular de integrar o particular no todo da teia mundial e de a fazer chegar à mais recôndita choupana e por detrás (quase) da mais espessa parede. Não por acaso, o primeiro a usar o termo foi Orígenes, no contexto teológico, como sinónimo da omnipresença do Verbo[24]; neste sentido a “ubiquidade” de Deus levava o indivíduo a comungar pela alma do divino, além da transitoriedade do corpo. Nesta linha, a “sociedade em rede” tem na Internet o seu “mana” unificador e na conectividade o seu “dogma”; estar à sua margem, desconectado, assume uma carga negativa em que a “infoexclusão” equivale à “danação”.

Em termos das ciências da informação assistimos nesta matéria a duas tendências complementares: computação ubíqua e computação em clusters; de que são epifenómenos o shared computing – dos quais o projecto SETI[25] foi historicamente dos mais populares e bem sucedidos e o Folding[26] é porventura das encarnações mais recentes – e a tendência recente do cloud computing, com os virtual desktop environments[27] que desmaterializam em termos aparentes a base palpável da rede, virtualizando o próprio hardware e fazendo magicamente surgir o desktop por um passe scottiano[28].

Assim, a computação não só se tornou crescentemente omnipresente como desapercebida e invisível[29], dissimulada nos mais insuspeitos dispositivos ambientes – veja-se por ex. os progressos aplicados à arquitectura e às chamadas “casas inteligentes” – como desatomizou o Saber que da base palpável do papel passou a infinitas inscrições dos dígitos 1 e 0.

 


[20] Citado por ex. por Poulcheria e Costas (2009), em Khosrow-Pour (2008, pp. 1491-1497) e por Uden (2007).

[21] Ortiz (2008), numa óptica operacionalizante, define semelhantemente contexto como “conjunto de e intersecção entre factos, eventos, circunstâncias e informação que rodeiam o utilizador (móvel) num dado instante no tempo”, decompondo os elementos do contexto móvel em: posicionamento, data e hora, presença e estatuto proclamado pelo utilizador (por ex. segundo a informação já recolhida pelas aplicações de “messaging”), capacidades e estado do dispositivo (remetendo-se aqui por “estado” à situação de prontidão e operacionalidade, variáveis mormente para fins de poupança energética), contexto pessoal, género, tags descritivos associados e finalmente contexto social (recuperável implicitamente por ex. do calendário de tarefas, localização, proximidade com amigos e família, acções sociais et caetera…).

[22] Para um desenvolvimento numa perspectiva da ciência da computação vejam-se as propostas de Basaeed, Berri, Zemerly, & Benlamri (2007) e em especial, para o mobile learning, e pela clareza com que a solução se perspectiva para as actividades de aprendizagem Malek, Laroussi, Derycke & Ghezela (2007).

[23]O conceito de affordance foi particularmente desenvolvido por James Gibson na década de 70 do século passado e pode definir-se como qualidade de um objecto que define o seu potencial de acção.

[24] Sobre a arqueologia da palavra consulte-se Le Trésor de la Langue Française Informatisé, em linha: http://www.cnrtl.fr/definition/ubiquite

[25] Página do projecto SETI: http://setiathome.ssl.berkeley.edu

[26] Página do Folding: http://folding.stanford.edu/

[27] Veja-se o exemplo do Destktop Two: http://desktoptwo.com/

[28]Beam me up Mr. Scott” foi uma expressão que se popularizou na boca do capitão da nave espacial Enterprise, cujas deambulações o espectador acompanhou na série StarTrek e que assim pedia ao seu engenheiro de bordo que o teletransportasse.

[29] Sobre esta matéria veja-se Ogata (2008), que identifica cinco características distintivas da aprendizagem ubíqua do ponto de vista computacional: Permanência (os utilizadores não perdem nenhum do seu material, a menos que explicitamente o apaguem – tal é a promessa com que o Gmail fez sucesso), Acessibilidade (é possível aceder aos documentos de qualquer local), Imediatismo (a informação pode ser recuperada com tempos de espera insignificantes), Interactividade (inclusive no acesso a terceiros) e Actividades Situadas (aprendizagem no contexto real).