III.4 Ambientes pessoais de aprendizagem em mobilidade. Critérios para a construção.
No final do capítulo anterior vimos como o conceito de “ambiente pessoal de aprendizagem” (APA) escapa às preocupações das teorias pedagógicas e de desenho de instrução na medida em que, sendo uma construção eminentemente pessoal, ao debruçarmo-nos sobre eles, não estamos a lidar com o planeamento de uma realidade institucional e sincrónica mas antes diacrónica; ao longo da vida.
Como tal a construção de um APA deve reger-se pela preocupação da sua manutenção a prazo e nos diversos contextos existenciais (pessoal, profissional, familiar…) e operacionais (dispositivo de comunicação detidos e disponíveis). Propomos assim, numa primeira aproximação, de nossa lavra, defini-la como “processo de selecção e adopção de ferramentas de gestão digital de informação e de comunicação tendentes à exponenciação da aprendizagem, à prossecução de interesses, valorização e aumento da produtividade pessoais e à recolha e registo ao longo da vida dos diversos materiais e conhecimentos obtidos a partir das experiências formais e informais tendo em vista a sua disponibilidade, organização, reaproveitamento e recombinação futuras, incluindo a possibilidade da sua partilha discricionária, apresentação e valorização perante o mercado de trabalho”.
Um ambiente pessoal de aprendizagem contempla a conjugação de preocupações de duas grandes ordens: “arquivísticas” (manutenção e catalogação da informação de forma a facilitar-lhe a organização e posterior acesso; portanto eminentemente “intra-acção” do utilizador com as suas memórias) e “comunicacionais” (participação em redes de aprendizagem pessoais e facilidade de partilha; portanto “interacção” com o meio e os outros). Está sujeito aos mesmos requisitos a que a opção pelos standards do mobile-Learning (Framework, 2008, p. 6) deve obedecer:
- Interoperabilidade (entre os diversos dispositivos detidos e manuseados pelo utilizador, portáteis ou não);
- Reutilização (susceptibilidade de recuperação e recombinação nas diversas ferramentas de edição);
- Facilidade de Gestão (que as opções feitas tenham curva de aprendizagem não tão inclinada que seja auto-sustentável);
- Acessibilidade (garantia de acesso não só pelo próprio, em diversos contextos, como por outros, caso este decida partilhar);
- Durabilidade (compatibilidade e passibilidade de uso directo em ou migração para sistemas e tecnologias futuros);
- Escalabilidade (capacidade de responder ao aumento das necessidades, conforme esta se faça sentir com a divergência de interesses);
- Sustentabilidade de Custos (adequação aos estipêndios individuais).
Apesar de a manutenção de um APA ser uma preocupação transversal a todas as idades e de estes deverem coexistir com a frequência do ensino formal e com a participação tanto em ambientes virtuais de aprendizagem como em comunidades de interesses ou relações sociais o seu verdadeiro potencial encontra-se no domínio daquilo que Knowles definiu como “Andragogia”. É nela e nas teorias de suporte à aprendizagem auto-dirigida que devemos ancorar a discussão conducente à tendência emergente do que alguns cunham como m-(self)-learning ou auto-aprendizagem-móvel (Coll & Monereo, 2008, p. 189), abrindo perspectivas para a materialização das propostas de Illich (Apêndice 2: Contributo e utilidade das tecnologias móveis para a convivialidade e a desescolarização). Estranhamente, debruçando-nos sobre a literatura, isso não tem sido feito e raramente se lhe lhes encontra menção.
Em sentido amplo, Knowles (1975, p. 18) fala de aprendizagem auto-dirigida como “o processo no qual os indivíduos tomam a iniciativa de, com ou sem a ajuda de outros, diagnosticar as suas necessidades de aprendizagem, formular objectivos de aprendizagem, identificar os recursos humanos e materiais para aprender, escolher e implementar as estratégias apropriadas, e avaliar os resultados obtidos”.
Podemos, numa aproximação imediata, do ponto de vista do suporte, conceber as estratégias para a construção de um APA adequado à “mobilidade” do indivíduo em três grandes tipos, consoante sejam baseadas em:
- Aplicações portáteis. O “dispositivo móvel” transporta todas as ferramentas necessárias sem, porém, necessariamente as executar ele próprio; pode servir meramente de “armazenamento” – por ex. um stick USB – que se executa e a que se acede a partir de qualquer computador de secretária tradicional. Trata-se de uma tendência afluente com expressão por ex. no sítio portableapps.com, que disponibiliza centenas de aplicações adaptadas para tal fim ou no MoWeS Portable[69], permitindo descarregar um servidor Xaamp[70] portátil, personalizável com dúzias de aplicações à escolha. É igualmente a lógica subjacente às tecnologias de virtualização pela emulação portátil como o VMWare ACE ou a aplicação de código livre VirtualBox[71].
- Plataformas na Web 2.0. A informação é alojada em serviços disponíveis na Internet que fornecem a interface para a introdução e armazenamento da informação. O utilizador utiliza um serviço tipo mashup para integrar e fazer a gestão – é o caso paradigmático do gRSShopper[72] de Stephen Downes mas também do iGoogle[73] e da tecnologia Yahoo Pipes[74].
- Aplicações em dispositivos móveis. Isoladas (por ex. um agregador RSS com capacidades multimédia como o BeyondPod[75] ou um navegador tal o SkyFire ou o Opera Mobile, expansível com widgets para reunir o mais diverso tipo de informação) ou combinadas (por ex. o MS OneNote; que inclui versão móvel, sincronizando-se com a versão desktop).

Ilustração 6 - Representação esquemática de um ambiente pessoal de aprendizagem móvel
Naturalmente, o ideal é uma conjugação dos três tipos cabendo a cada utilizador aferir as suas necessidades e escolher as ferramentas com base nos critérios anteriormente descritos. A título exemplificativo apresentamos na Ilustração 6 uma representação esquemática do APA do autor, limitada aos recursos usados na elaboração deste projecto.
Da análise de necessidades para a tarefa concreta resultou a opção por conjunto de ferramentas que têm como especificidade comum poderem marcar presença nos quatro níveis contemplados (optámos por distinguir as “Aplicações Web” da existência de um alojamento pessoal; embora não seja um “requisito”, o segundo, filiado numa lógica Web 1.0 ainda permite uma certa flexibilidade e torna-se necessário no domínio da “experimentação”, permitindo um acréscimo de controlo na publicação e acesso a uma versão pensada para ser acedida a partir de dispositivos móveis deste trabalho, que se pode consultar em linha no endereço http://mlearning.hugovalentim.com).
Assim, prosseguindo o caso de estudo, o programa de gestão de referências bibliográficas EndNote – aplicação comercial que conhece réplica recente no Zotero, um add-on para Firefox que se integra igualmente como “suplemento” dos MS Word e do OpenOffice - não só existe em versão desktop, onde se conjuga com o processador de texto e permite inclusive a ligação a pesquisa directa de fontes em linha como é sincronizável com um aplicativo para PDA, permitindo transportar a informação para o campo e eventualmente complementá-la com a consulta de fontes feita numa biblioteca ou livraria físicas.
Através do denominador comum de uma linguagem baseada em XML entrosa perfeitamente com a Web 2.0 e portais como o CiteULike[76] ou o CiteSeer[77], que reúnem comunidades de utilizadores comungando dos mesmos interesses académicos, deixando-os partilhar referências etiquetadas e categorizadas. Como forma de “transporte” é ainda possível alojar uma cópia sincronizada da bibliografia no EndNoteWeb[78].
A aplicação Microsoft OneNote por seu turno faculta uma interface construída sobre a metáfora do escritório (onde os documentos se agrupam em dossiers e separadores) que permite não só o fácil armazenamento e organização de informação em qualquer formato como dispõe de facilidades OCR (Optical Character Recognition) que facultam a sua pesquisa; comunica com uma aplicação para PDA para sincronização automático e recolha de notas.
O mesmo tipo de flexibilidade se estende às demais aplicações mencionadas, havendo que reter à laia de conclusão que, em última análise, os factores mais relevante são de facto a interoperabilidade e a facilidade de gestão, normalmente garantidas quanto mais universal seja a ferramenta, quanto maior seja a sua base de utilizadores e adopção, mais abertos sejam os seus standards e amplos os formatos suportados.
De resto, seria fastidioso inventariar os milhares de aplicações passíveis de uso, com os seus prós e contras; para esse efeito sítios como o Learning Tools Directory (http://www.c4lpt.co.uk/Directory/index.html) ou o Web 2.0 Tools and Applications (http://www.go2web20.net/) fornecem listagens categorizadas e comentadas que podem ser alvo de consulta pelos interessados; constituindo um ponto de partida para a opção pelos instrumentos mais adequados para cada caso.
[71] Em linha: http://www.virtualbox.org/
[72] Em linha: Disponível em http://grsshopper.downes.ca/
[73]Acessível através do URL: http:// www.google.com/ig
[74] Em linha: http://pipes.yahoo.com/pipes/
[75] Em linha: http://www.codeplex.com/beyondpod
[76] Em linha: http://www.citeulike.org/
[77] Em linha: http://citeseer.ist.psu.edu/
[78] Em linha: http://www.myendnoteweb.com/
Ligações + recentes
Blogue de David Andrade c/ sensibilidade para o mobile learning e avulsa compilação de recursos (por ex. para o Palm OS).
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