I.2 Do peripatetismo à ideia de mobile learning

Vinte e quatro séculos transcorreram desde a altura em que, em Atenas, sob os portais do Liceu (peripatoi) e nas ruas circundantes, Aristóteles cultivou o hábito da prelecção ambulante, arrastando com ele os alunos que terão assim porventura experimentado, em sentido ingénuo, a primeira forma de “mobilidade” aplicada ao ensino: a do aprendente que ao ar livre acompanhava, qual cicerone, o mestre. Subtraídos ao confinamento em quatro paredes, os primeiros aprendentes peripatéticos terão ainda experimentado uma forma incipiente de ensino “informal”.

Curiosidade histórica, este episódio teria no entanto muito pouco que ver com a acepção contemporânea de ambos os termos; apresentando uma “mobilidade” confundida estrito senso com “movimento” e um “ensino informal” equiparado à mera “informalidade” ambiente.

Actualmente, falar de “aprendizagem móvel” reporta-se a uma distinta realidade onde o eixo de ruptura está – na prática, operacionalmente - sobretudo centrado na exploração dos dispositivos e das tecnologias de comunicação pessoais, configurando uma pletora de potencialidades didácticas bastante aquém da “voz do mestre” ou mesmo do estilete com que rudimentarmente se inscreviam os caracteres na cera. Por outro lado, a complexidade das tarefas executadas no moderno exercício profissional a par da especialização entretanto produzida dos saberes – que da Filosofia evoluíram para as mais dispares disciplinas e áreas das ciências e das técnicas –, para não falar no desenvolvimento dos meios e vias de transporte e comunicação, configuram uma situação em que – no estertor das “bombas inteligentes”, guiadas por laser e das (a caminho de ser três) constelações de satélites provedores de serviços de geolocalização - o “aprender a ser” soldado por ex. já não se esgota no aperfeiçoamento do maneio da lança nem no aprendizado da disciplina para a integração coesa da falange.

A instantaneidade com que a informação circula e está disponível; o próprio polimorfismo que passou a assumir, lançaram um repto aos 126 bits por segundo[18] com que os discípulos de Aristóteles assimilariam, uma a uma, em cadência, as palavras do filósofo.

O que é pois o mobile learning, abreviado m-Learning, ou “aprendizagem móvel” em português? Que realidade concreta descreve? E em que contexto se pode usar a expressão?

Numa primeira aproximação, um observador casual, responderá instintivamente que se trata de “aprender com dispositivos móveis” a que, outro, mais avisado, quererá acrescentar “tirando partido da permanente conectividade facultada pelas redes sem fios”. Já mencionámos (sendo ainda matéria desenvolvida no Apêndice 16: Da comunicação ao conhecimento. Considerações sobre determinismo tecnológico e consumo), no entanto, o erro epistemológico que é partir da premissa de que - uma vez que estas tecnologias móveis estão disponíveis e se instalaram no quotidiano - devemos resignar-nos a acomodá-las no processo de ensino-aprendizagem; como “fatalidade necessária”.

Para base da nossa discussão compilámos assim para efeitos comparativos uma dúzia de definições de mobile learning que nos pareceram de maior acutilância, passíveis de ser encontradas na literatura internacional (reproduzidas no Apêndice 6: Definições de aprendizagem móvel, cuja consulta neste instante rogamos).

Malgrado o reducionismo implícito, e mesmo quando se salienta que a mobilidade que importa ter presente é a do utilizador no ambiente social e não a dos dispositivos, são estes propriamente ditos – ou, se se preferir, a exploração das “tecnologias interactivas pessoais” - que obtemos como mínimo denominador comum, devendo constituir o objecto de estudo específico do mobile learning. Até porque as restantes dimensões já foram “tomadas” por outras disciplinas (ver a secção seguinte). Ou seja, os gadgets como fetichismo não devem por sombras ser a bússola do mobile learning, mas a exploração das tecnologias móveis não deixa de ser a sua “assinatura” (ainda que como condição de chegada e não de partida), o que é tão pouco lisonjeiro como definir a “História” pelo “Arquivismo” ou a “Estatística” pelo “SPSS”. Mas porventura é esse o espaço que lhe resta e a recusa, diríamos o preconceito, em assumi-lo dessa forma poderia muito bem ser uma das razões da sua insipiência.

É preciso assumir que não se trata da invenção de uma “forma nova de aprender” mas tão-somente de uma “evolução” das formas anteriores e mormente do e-Learning.

Ilustração 2. Posição do mobile learning no ensino-aprendizagem. Adaptado de T. Brown (2005b)

Lorenzo Aretio, da Faculdade de Educação da UNED (Universidad Nacional de Educación a Distancia), coordenou ultimamente um volume (Aretio, Corbella, & Figaredo, 2007) onde se desenvolve a perspectiva de acordo com a qual a “Educação Virtual” constitui uma continuidade enquadrável na matriz da “Educação à Distância”; passada a “Educação sem Distâncias” com a persistência dos mesmos princípios de base: abertura, flexibilidade, democratização no acesso, socialização e interactividade, ênfase na actividade, individualização do ensino e desafio da motivação. Nesta óptica o mobile learning emerge por entre os modelos abertos de conceber o ensino-aprendizagem à distância, como um eminentemente tecnológico caracterizado pela ecumenicidade dos meios explorados (integração do e-Learning e da aprendizagem através de redes digitais com os dispositivos de comunicação móvel de forma a produzir experiências educativas em qualquer local e em qualquer momento). O facto de constituir uma perspectiva eminentemente tecnológica da educação à distância não invalida no entanto que o mobile learning deva ser enquadrado noutras ópticas: mormente na que privilegia o grau de autonomia pedagógica (consulte-se o Apêndice 7: Modelos de ensino-aprendizagem abertos à distância).

 


[18] Velocidade apontada como sendo o limite da capacidade de processamento da mente humana (Csikszentmihalyi & Csikszentmihalyi, 1988, p. 34).