Apêndice 17: Interpenetração e evolução do mercado das comunicações móveis
A busca de um modelo pedagógico adequado ao ensino-aprendizagem móveis tem que incluir uma dimensão de busca activa da “espontaneidade” pois nenhum constructo teórico, por mais claramente delineado no plano ideal, tem interesse se não tiver utilidade; atendendo à dimensão prática da pedagogia e ao objectivo da educação como “desenvolvimento da realidade pessoal”. E no campo das tecnologias móveis, em particular, exemplos fundacionais há que desaconselham o entusiasmo com aproximações que sobrevalorizem as permissividades e as vias abertas (as “bilhas” enquanto tal) por contraponto com o que é individualmente experimentado como útil e necessário (a “água” que elas devem levar da fonte). Pensamos nos concretos exemplos dos MMS (Serviço de Mensagens Multimédia) e da “vídeochamada”. É preciso ter acompanhado proximamente as acções de marketing promocional, para ter hoje presente o substancial logro dos inúmeros estudos que, no alvor das redes de terceira geração, quando o ARPU (receita média gerada por utilizador) dos serviços de segunda geração se encontrava estagnado e a penetração desta chegava aos 100%, apresentavam como dado adquirido a breve trecho um universo de comunicações pessoais em que a imagem face a face imperaria e o acabrunhante limite dos 160 caracteres do SMS (Serviço de Mensagens Curtas de Texto) seria ultrapassado com a expansão das formas de expressão individuais à combinação das foto, imagem e som.
Anos volvidos, os telefones 3G com duas câmaras ostensivas, tipicamente uma delas voltada para o próprio utilizador, de forma a facilitar a auto-captura de imagem na vídeochamada, deixaram de ter o mesmo apelo e, feitas as contas, no tocante ao messaging, o caminho empreendido pela tendência afluente foi o inverso: abatendo-se vinte caracteres aos SMS, reservados para rodapé, para os 140 caracteres permitidos pelo Twitter.
Um conjunto de factores pode ser avançado como explicativo para a distância entre o “potencial” percepcionado e a generalização da efectiva adopção: a prática de preços elevados e um modelo de licenciamento do UMTS com licenças exorbitantes que hipotecaram o desenvolvimento ao serem transferidas para o preço dos serviços; a sobrestimação da facilidade com que os utilizadores desenvolveriam capacidades de escrita multimediática estarão entre elas. Não se teve ainda, sobretudo, no nosso entender, deixar de ter presente alguma resistência na abertura da esfera mais íntima de privacidade e a existência de um fosso face às necessidades realmente sentidas. Se é certo que as novas tecnologias da comunicação vieram introduzir tensões entre as órbitas do público e do privado, a verdade é que a sociedade que teve de as integrar é a mesma e muda os hábitos a um passo mais lento do que as tecnologias são adoptadas devendo o processo de evolução social resultante ser visto como um de resistência, negociação, interacção e reajuste[116].
Dados da ANACOM – e.g. o Inquérito ao Consumo dos Serviços de Comunicações Electrónicas 2007 – apontam assim para uma quebra percentual significativa nos serviços (MMS e vídeochamada) utilizados com os telemóveis 3G, decaindo de um adopção por utilizador em 63,9% em Fev. de 2006 para 28% em Dez. de 2007, no que toca aos MMS, e de 26,6 para apenas 6,1% no que toca a vídeochamada em igual período. Tendência confirmada por valores actualizados nas estatísticas dos serviços móveis para o primeiro trimestre de 2009 onde, em termos absolutos, se constata que no conjunto dos primeiros três meses do ano, em Portugal se enviaram cerca de 20 milhões de MMS, menos 1,6 por cento do que no igual período anterior – e segundo valores absolutos que se têm mantido constantemente decrescentes desde o segundo trimestre de 2008, ainda que a disponibilidade dos dispositivos compatíveis tenha aumentado - verificando-se que, em média, cada assinante do serviço telefónico móvel com acesso às redes de 3ª Geração enviou cerca de 3 mensagens multimédia (uma por mês) no trimestre em análise. No que toca as vídeocachamas, no primeiro trimestre de 2009 foram realizadas cerca de 1,3 milhões (média aprox. de 14 mil por dia).
Isto quando o número de utilizadores com acesso aos serviços UMTS em Portugal ultrapassou os 4,8 milhões – dos quais cerca de 1,6 milhão efectivamente activos; tendo-se atingido uma penetração da 3G em cerca de 40,7 por 100 habitantes – o que coloca o país no terceiro lugar na União Europeia, que tem como média 21,4.
O aparente entusiasmo inicial, com subsequente “arrefecimento”, pode provavelmente ser em parte explicado pelo modelo da difusão da inovação tecnológica proposto por Rogers (1995), que nos fala de um padrão típico de adopção passível de representação por uma curva em forma de sino em que o público aderente tende naturalmente, numa primeira fase, a ser composto por uma franja mais entusiasta, proactiva e competente antes de progressivamente por homogeneização e pelo efeito da liderança de opinião se chegar à massificação. Temos assim, que os “primeiros a chegar” (“inovadores”, strictu sensu) são os mais interessados, gerando rácios entre posse/uso efectivo da tecnologia mais elevados do que os que chegam a adquiri-la mais tarde “por contágio” e com um esforço comparativamente menor (inclusive monetário, pela lei da oferta-procura e consequente abate no preço dos dispositivos; como tal também desvalorizados no “mercado da vaidade pessoal” – i.e., elidindo a dimensão de uso ostensivo como conferidor de status).
[116] Para uma resenha do estado da arte no estudo das práticas sociais associadas ao telemóvel veja-se O Telemóvel e o Quotidiano (Dias, 2008); em especial, sobre esta matéria, a p. 165 e seg.s.
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