Apêndice 15: Da relação entre tecnologia, economia e ideologia e do apelo à educação

Relegamos para o fim o trio de apêndices, dos quais este é o primeiro, cuja relevância e complementaridade é mais periférica ao essencial do nosso estudo mas que ainda assim se nos afiguram relevantes. No quadro de um mestrado em e-Learning, uma avaliação corrente do impacto dos sistemas interactivos de comunicação ou, numa acepção mais comum e restrita, das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC)[101], para ser completa, não deve, no nosso entender, passar ao lado de um questionamento do lugar ocupado pelo Conhecimento e pelo processo da sua transmissão e fomento imediatos ou mediatos através do Ensino - ou, mais propriamente, das funções para que é chamado tanto enquanto sistema formal como enquanto esforço informal; sendo certo que, na génese, modalidade e “quinta geração”[102] do ensino à distância, o objecto deste trabalho está mais próximo do segundo do que do primeiro.

Assumimos que as ideias sobre o papel e escopo das metodologias do e-Learning não surgem desgarradas nem são neutras, tal como a tecnologia não o é[103], face à pragmática do saber e às narrativas histórica e civilizacionalmente assumidas; porventura como imanência do esquema sociopolítico dos interesses e da busca da organização e equilíbrio sociais.

Conforme apontado por Lyotard[104], o problema da “legitimidade”, em sentido abrangente, numa acepção mais política, conotada com o moderno exercício do poder pelo consentimento e com o artifício da concórdia pelo contrato social e do conformismo com a desigualdade social pela tácita divisão do trabalho[105], como em sentido mais estrito, relacionada com o Saber, continua a ser um elemento explicativo chave das transformações numa altura em que o progressivo abandono das meta-narrativas deu lugar à promoção da técnica e da tecnologia, segundo um determinismo extensível às teorias da comunicação de massas e à interpretação feita do estado corrente da Informação e do Conhecimento.

Com o termo do mundo bipolar, em 1989 e o debate do “Fim das Ideologias”, agregado ao do “Fim da História”, veio o do “Fim da Educação”[106]; ao mesmo tempo que pela evolução dos meios de comunicação se passou de um jogo de informação incompleta para um de informação completa.

Não é nossa pretensão, com estas linhas, auto-desvalorizar o campo de estudo que abraçámos; segundo uma lógica relativista paralisante. Simplesmente perspectivar o seu enquadramento, tendo presente que o processo inverso, o do mergulho entusiástico na árvore sem perspectivar a floresta, frequente no campo, arrisca gerar algum desajuste e precipitação quando não sobrevalorização. Afinal, conforme notado na citação que introduz o cap. III, “a um homem com um computador, tudo parecem dados”.

A condição “pós-moderna” correspondente à de uma mudança no estatuto do saber pelo impacto das transformações tecnológicas a nível global; é avaliável em dois planos: o eminentemente epistemológico da investigação e o da transmissão do conhecimento, este com implicações directas nas opções curriculares. Ainda que a Epistemologia seja hoje menos angular que a Ontologia;  pelo menos desde que o relatório Faure, em 1973, proclamou como desafio da “Educação do Futuro”, o “Aprender a Ser” em detrimento do “Saber” (Faure, 1973).

A emergência da “performatividade”, como exigência e requisito condicionante do funcionamento das instituições de ensino, se por um lado tende ao abandono dos valores e do papel do sistema formal como veículo gerador de consenso e de transmissão das narrativas de emancipação, por outro propõe uma óptica funcional e sistémica que coloca o assento nas “competências operacionais” em detrimento das “ideias” e valoriza os saberes pragmáticos em detrimento de uma concepção “absoluta” do conhecimento como emancipador da condição humana; formando quadros capazes de competir num mercado internacional aberto. “A questão já não é: é verdadeiro? mas: para que serve?” (Lyotard, 1989, p. 105)

E continua o mesmo autor: “Pois, ao lado desta função profissionalizante, a uni­versidade começa ou deveria começar a desempenhar um papel novo no quadro do melhoramento das performan­ces do sistema, como seja o da reciclagem ou da educação permanente. Fora das universidades, departamentos ou instituições com vocação profissional, o saber não é e nunca mais será transmitido em bloco, e de uma vez por todas, aos jovens antes da sua entrada na vida activa; ele é e será transmitido à la carte aos adultos já activos ou à espera de o serem, tendo em vista não só o melhora­mento da sua competência e a sua promoção, mas também a aquisição de informações, de linguagens e de jogos de linguagem que lhes permitam alargar o hori­zonte da sua vida profissional e articular a sua experiên­cia técnica e ética. (…)”

Completando, para o que interessa um mestrado em Gestão de Sistemas de e-Learning: “A aplicação das novas técnicas a este stock pode ter uma incidência considerável sobre o suporte comunicacional. Não parece já indispensável que este seja um curso proferido de viva voz por um professor diante de estudantes mudos, enquanto o tempo das questões é remetido às sessões de «trabalhos» dirigidas por um assistente. Devido a os conhecimentos serem traduzíveis em linguagem informática e o ensino tradicional ser assimilável a uma memória, a didáctica pode ser confiada a máquinas que liguem as memórias clássicas (bibliotecas, etc.), bem como os bancos de dados, a terminais inteligentes postos à disposição dos estudantes. (…)”. E para o que interessa à didáctica: “A valorização do trabalho de equipa pertence a esta predominância do critério performativo do saber” (Lyotard, 1989, pp. 101-107).

Não será pois despicienda a proximidade do debate[107], que vem contestar o modelo do Saber escolar, veiculador de meta-narrativas proclamadas como desacreditadas ou pelo menos geradoras de incredulidade face à mundialização, com os esforços enformadores das organizações internacionais, seja no quadro do sistema das Nações Unidas, com a UNESCO em primeiro plano, seja com a subsequente adopção regional tanto pela OCDE como pela União Europeia -  Jacques Delors, que em 1994 chefiou o norteador Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (Delors, et al., 1996) onde se proclamam os desde então muito repetidos “4 Pilares” (Aprender a Conhecer, Fazer; Viver e a Ser), a páginas tantas se detém sobre o “Impacto das novas tecnologias na sociedade e na educação” e onde a palavra “tecnologia” ocorre 179 vezes -  acumulou, recorde-se, no seu currículo uma passagem pela chefia da Comissão Europeia.

É assim que podemos também ler no zeitgeist das preocupações com a incorporação da tecnologia no processo educativo um atributo dessa característica da porosidade e dessa capacidade de impregnar e gerir de forma bem sucedida, porque tendente e coincidente com a óptica utilitarista da gestão do interesse individual, todos os aspectos da vida social exibida pelo capitalismo. Mais recentemente, resulta que a generalização do consumo das tecnologias móveis, arvorado num dos sectores com maior dinâmica económica, exponencia e auto-promove os interesses dos vendedores do respectivo acesso, sabedores e investidores num marketing que historicamente deixou de se contentar em diferenciar necessidades para as passar a promover e incutir; numa arreigada patine em que equiparadas “modernidade” e “modernização administrativa” aquelas surgem auradas de moda e os gadgets geradores de receita de coisa fashionable e dirigida às gerações de consumidores mais novos, envolta numa teia de tons vivos e com acordes sonoros que tornam difícil a separação e destrinça do seu real valor útil e potencial formativo da cultura Pop que “distrai” mais do que “educa” em que surge envolta.

Para este efeito – poder-se-ia falar de much ado about nothing, que é como quem diz “muita comunicação com comparativamente pouco investimento reprodutível” - dois indicadores entre outros resultam a este propósito expressivos para a realidade portuguesa: primeiro, o facto de, segundo dados do INE[108], os gastos com a comunicação terem no final da última década do século pretérito suplantado os da educação em mais de três vezes (541 euros por família por ano contra 175 euros), com um crescimento de 700% entre 1989 e 2001, especialmente acelerado a partir de 1995; por outro, de acordo o EUROSTAT[109], o facto de Portugal, em 2006, manter a tendência dos anos anteriores no que toca a gastos em comunicações mais de duas vezes superiores aos gastos em material de TIC (4,3% com despesas de comunicação contra 1,8% gastos em tecnologia); isto quando na média da União Europeia a tendência é para a paridade. O que é tão expressivo do preço das nossas comunicações como sobre os interesses predominantes no processo da sua adopção.

 


[101] Sobre esta destrinça e a distorção inerente à segunda expressão ver Correia & Tomé (2007, p. 43).

[102] Se o e-Learning constitui a quarta (Sherron & Boettcher, 1997), poder-se-á filiar o m-Learning na quinta, seja como capitalização do learn while you earn (Zawacki-Richter, Brown, & Delport, 2007), seja enquanto passagem a um sistema Inteligente de Aprendizagem Flexível, em que “novidade” do primeiro adjectivo é afirmada num contexto institucional de redução de custos, tido discutivelmente – quando colocado numa perspectiva informática que na realidade parece um retrocesso à aprendizagem assistida por computador, fazendo fé na proposta de mecanismos de automação dos feedbacks - como potencial de disseminação e incentivo à adopção (Taylor, 2001). Este assunto é criticamente retomado no Cap. II a propósito da definição de mobile learning - no essencial a asserção da flexibilidade parece-nos correcta mas de redução imprópria a questões economicistas; até porque o impacto estende-se muito além do Ensino Superior, onde o autor a antevê.

[103] Neste sentido veja-se por ex. Freire (1993), em particular o segundo capítulo, onde se retoma a argumentação esboçada pelo mesmo autor em 1977 no prefácio à tese de Moacir Gaddoti, intitulado “Ideologia e Educação: Reflexões sobre a não neutralidade da Educação”, conforme apontado por Osorio (2005, p. 28). No mesmo sentido argumenta Melvin Kranzberg, citado por Castells (2002, p. 6) e por Gustavo Cardoso (2006, p. 105): “a tecnologia nem é boa nem má, nem é neutral”. Expressão com que pretende significar a circularidade – porventura “inutilidade” - do debate sobre o “determinismo tecnológico” e sobre quem condiciona quem no binómio tecnologia-sociedade, no pressuposto de que a segunda não pode ser representada sem as suas ferramentas tecnológicas da mesma forma que a primeira é uma emanação da segunda.

[104] Em A Condição Pós-moderna, subintitulado no original francês Rapport sur le Savoir, peça de análise prospectiva que, à data da publicação, 1979, Portugal, recém-saído do regime de “um liceu por capital de distrito”, estaria especialmente inapto para compreender, mas que prognostica com uma actualidade que se mantém o processo e a pressão subsequente das NTI sobre o sistema de ensino, com as correspondentes adaptações, mormente quando, face à redefinição do papel da Universidade, se observa cruamente, por oposição aos que frequentam cursos técnico-científicos que “os outros jovens presentes na universidade são, na sua maior parte, desempregados não contabilizados nas estatísticas de pedido de emprego. Eles são excedentários em relação às saídas potenciais das disciplinas nas quais se encontram (Letras e Ciências Humanas). Na realidade, pertencem, apesar da sua idade, à nova categoria de destinatários da transmissão do saber”. Releva de e serve a ideologia vigente a lógica da “requalificação” e da reciclagem permanente de conhecimentos que admite também a paralela leitura de que se a qualificação tivesse sido bem-feita em primeiro lugar, tornava-se menos premente a “re” e portanto a existência de um desajuste entre as necessidades impostas pelo clima socioeconómico e os saberes veiculados.

[105] Nesta senda veja-se Bourdieu (1978).

[106] Na acepção da obra de Postman (2007), publicada originalmente em 1996.

[107] Apenas nessa medida cedemos à tentação da inclusão de tão extensa citação, porque, duas décadas antes da Internet ter principiado a generalizar-se nos nossos lares, os reais termos do debate estavam claramente recortados; sendo absolutamente necessário ancorá-los aí para lhes encontrar hoje sentido além da “espuma dos dias”.

[108] INE (2001). Estes dados foram actualizados no Inquérito às despesas das famílias - 2005 / 2006, publicado em 2008, tendo-se apurado gastos anuais de 519 euros em comunicações (dos quais apenas 2 em serviços postais) contra 301 euros em gastos com o Ensino (dos quais apenas 29 com o ensino não formal -“Outros Tipos de Ensino”), correspondendo a 3,1 e 1,7% respectivamente das despesas totais dos agregados.