Apêndice 14: Estudo de caso: mySKY PLUS

Lançado no final de 2007 pela Meade Corporation, empresa sedeada nos Estados Unidos e mundialmente reputada junto da comunidade astronómica amadora pela qualidade dos seus telescópios computorizados, o mySKY[100] era à data de lançamento e ainda é provavelmente o mais depurado e bem sucedido exemplo de aplicação das tecnologias móveis ao serviço da aprendizagem.

Ao contrário dos outros estudos de caso por nós abordados, não se trata exclusivamente de uma solução de software mas de um dispositivo dedicado completo ao serviço de um objectivo: auxiliar o ensino da Astronomia através do reconhecimento dos objectos celestes; i.e., da navegação no céu nocturno.

Historicamente o processo envolvia o uso de um planisfério de papel, com uma janela regulável consoante a hora, de forma a produzir uma imagem aproximada do céu sobre o horizonte. O processo tinha as suas inconveniências, designadamente: a) os planisférios eram impressos para latitudes específicas às quais o seu uso estava limitado; b) para um neófito não era fácil adquirir a noção de escala entre a representação no papel e aquilo que podia observar no céu; c) o problema anterior era agravado com a necessária distorção da projecção bidimensional de uma realidade tridimensional. Em acréscimo, além do nome da estrela, naturalmente o observador não obtinha mais nenhuma informação útil.

A partir de meados da década de 90 generalizaram-se as primeiras aplicações para desktop com a função de planetário, que permitiam não só mais realismo nas imagens como o aumento do número de estrelas representadas (com catálogos extensíveis a magnitudes mais baixas, capazes de auxiliar o apontamento de instrumentos ópticos, como binóculos e telescópios). No entanto, não era prático utilizá-las no terreno por duas ordens de razões: dificuldade de transporte do computador para o campo e de fornecimento de energia eléctrica para observações prolongadas; a contradição entre o requisito natural de uma pupila dilatada (necessária para captar o máximo de luz, que só logra a máxima dilatação após 30 minutos de imersão ininterrupta no escuro) e a intensidade da fonte luminosa do ecrã de um computador.

O MySKY responde às preocupações anteriores. Em termos concretos consiste (ver ilustração) num dispositivo em forma de manche, para ser segurado com o punho, que para além de um conjunto de botões de regulação e controle tem, na parte frontal, virada para o utilizador, um ecrã colorido (resolução de 480x234 pixéis).

Mercê de uma bússola electrónica incorporada para determinar a orientação e de acelerómetros para determinar o deslocamento e a inclinaçãomysky_plus2.png, acompanhados de um leitor de cartão de memória SD e de um saída para auscultadores, o dispositivo faculta um sistema de realidade aumentada em que não só serve de orientação como faculta, para cada objecto, imagens amplificadas e todo o tipo de informação (e.g. classe espectral de uma estrela, distância a que se encontra da Terra, idade, tamanho et caetera). Torna ainda possível a reprodução de apresentações multimédia comentadas;  convertendo-se num verdadeiro guia pessoal do céu.

Como instrumento de mobile learning incorpora todas as recomendações identificadas por ex. por Herrington et al. (ver III. 1 Modelos e estilos de aprendizagem): a relevância pela mediação do uso em contextos autênticos e em mobilidade (as seis horas de uso constituem uma autonomia bastante razoável, sobretudo por a fonte de alimentação serem quatro pilhas AA, fáceis de encontrar e substituir; é além do mais fácil de transportar); a exploração activa e a espontaneidade. É ainda passível de ser mesclado com tecnologias não móveis (mormente de ser acoplado a telescópio computorizados da marca de forma a proceder ao seu controlo).

O MySky promove forte interactividade utilizador-dispositivo e a intra-actividade do utilizador, a quem é deixada a faculdade de explorar os seus interesses e em qualquer altura colmatar lacunas específicas, é no entanto completamente despojado de alguma funcionalidade social explícita; a dimensão do “uso com quem quer que seja” para esse efeito é meramente implícita - é óbvio que pode ser empregue em grupo mas não se prevê nenhuma forma de comunicação electrónica mediada nem a recolha e partilha directas de informação.

 


[100] Em linha: http://www.meade.com/mysky