usabilidade

III.3 Questões transversais: usabilidade, geolocalização...

O reputado especialista em usabilidade Jakob Nielsen ao debruçar-se sobre o estado de desenvolvimento dos dispositivos móveis concluiu que do ponto de vista da usabilidade a experiência de acesso à Internet móvel em 2009 está, na melhor hipótese, no ponto de insipiência em que o acesso por computadores de secretária estava em 1998 (Nielsen, 2009).

Entre os factores de entropia identificados contam-se a falta de familiaridade dos utilizadores com os dispositivos; a dificuldade em controlar efectivamente a navegação e a frequência de erros e crashs no software. Questões derivadas da inadaptação do desenho dos sítios que, na óptica do especialista, só podem ser ultrapassadas pela criação de versões concebidas especificamente para acesso móvel.

A perspectiva de Nielsen enferma no entanto de algum “software-centrismo” desdenhando a muita criatividade que ainda se pode infundir a nível do hardware ele próprio – à altura em que escrevemos estas linhas, por exemplo, a LG Electronics inovou ao trazer ao mercado o seu modelo GD900, que depois do multitoque introduzido pelo iPhone da Apple, introduz a novidade da duplicação da funcionalidade do teclado como rato, suprindo a necessidade de obstruir com o dedo o ecrã de 800x480 pixéis de resolução (em si bastante “acomodador”).

Jones & Marsden (2006), entre outros, enumeram algumas soluções criativas na forja, como sejam a nível da visualização o “ecrã dobrável”[60]; o sistema peephole para a extensão virtual intuitiva da área abrangida, movimentando o utilizador o dispositivo como “lupa” ou, no tocante à introdução de dados, os teclados Fastpad de escrita rápida com 24 botões para letras intercalados entre as 12 clássicas teclas alfanuméricas et caetera.

A evolução faz-se ainda crescentemente no sentido de uma interacção mais rica através de sensores passivos (isto é, sem necessidade de intervenção explicita do utilizador), primeiro de movimento (detectando a inclinação do dispositivo) e depois de direcção, através de bússolas electrónicas. Associados ambos à tecnologia GPS[61] e à possibilidade da captura da imagem circundante tornou-se possível o advento da “realidade aumentada” de que aplicações como o Layar[62] são o testemunho mais bem sucedido e eloquente; para esse efeito, a plataforma Android da Google assume um posicionamento estratégico que a alavanca à frente da concorrência – ainda que, à data de conclusão deste trabalho, se anuncie a disponibilidade para o concorrente iPhone do em tudo idêntico “Bionic Eye”[63] (Sorrel, 2009).

Conforme o nome deixa antever, com o Layar o utilizador tem a possibilidade de activar um conjunto de camadas de conteúdo georefenciado, em função das suas preferências, que sobrepõe à imagem real do que o circunda conteúdos dinâmicos que podem ir desde informação turística sobre o que está a ver – facilidade de resto também possível com a aplicação Wikitude[64], igualmente para Android, que disponibiliza o conteúdo da Wikitravel - ou onde encontrar a estação de metro mais próxima, à associação de tweets com os locais versados (ex. um comentário sobre a peça que está a ser representada no teatro do outro lado da praça) e assim sucessivamente.

O mesmíssimo princípio subjaz ao Google Sky Map[65], distribuído gratuitamente, o qual permite ao utilizador identificar os objectos celestes com o seu telemóvel – para este efeito, como veremos no Apêndice 14: Estudo de caso: mySKY PLUS, generalizando o acesso a soluções antes já existentes em dispositivos pioneiros dedicados.

Do ponto de vista da aprendizagem informal e situacional o geottaging[66] (adição de informação geográfica a itens multimédia, seja ao cabeçalho EXIF de uma fotografia JPG, seja via GeoRSS a uma página HTML) cremos constituir a inovação mais saliente dos últimos anos; não só faculta o filtro automático da informação relevante para os artefactos na vizinhança imediata – permitindo ao dispositivo móvel fazer o scaffolding do conhecimento com dispensa de tutor, guia turístico ou cicerone – como deixa ao utilizador fazê-lo em função dos seus interesses íntimos.

Mais ainda, tem a potencialidade de facultar a aprendizagem social quando através de aplicações como o Woophoo[67] ou o Trackr![68], para nomear apenas duas, se faz o entrosamento com as redes sociais e deixa a indivíduo partilhar experiências e encontrar outros com interesses comuns na vizinhança imediata, superando em certa medida as possibilidades limitadas disponibilizadas para esse efeito pela tecnologia bluetooth, cuja prática do bluedating atingiu moderado furor, na medida sobretudo do limite de 10 metros no alcance dos dispositivos.

É ainda de esperar que o futuro traga novidades, sobretudo no tocante à extensão da lógica P2P (peer to peer), arvorada em “passo adiante” face ao movimento open content. Mais do que o acesso livre a conteúdos, é admissível que a prazo se venha a ver os dispositivos comunicarem individualmente entre si, partilhando informação que cruzada crie mais-valia: por exemplo, dois veículos que se encontrem na estrada em sentidos opostos podem partilhar informação implícita relativa às condições do trânsito ou do pavimento, permitindo-se uma mútua antecipação – funcionalidade de resto já parcialmente contemplada em funcionalidades como o TomTom Traffic Live ou, do mesmo fabricante, a possibilidade dos utilizadores partilharem manualmente alterações nas vias, enriquecendo uma base de dados comum.

A “partilha” de informação georeferenciada é de resto uma pedra de toque de grande aceitação já presente nas aplicações de navegação; pensamos não só, para dar dois exemplos, em fóruns com o popular sítio português portalppc.com, onde uma comunidade de utilizadores mantém e disponibiliza gratuitamente listas com milhares de pontos de interesse de mais de uma dúzia de categorias, como ainda entre nós na incorporação pelo NDrive a partir da versão 9 (lançada em Maio de 2009) de uma função de partilha de POI, directamente a partir do dispositivo.

 


[60] Também chamado de “Interface Gummi” (Carsten, Ivan, & Eijiro, 2004). Uma explicação ilustrada da tecnologia pode ser acedida em: http://www.sonycsl.co.jp/person/poup/projects/gummi.html

[61] E futuramente Galileo, sendo que o Glonass russo nunca conheceu exploração comercial digna de nota. Para este efeito, a explosão do mercado dos dispositivos tipo PND (Personal Navigation Devices) desempenhou um papel de vulto. Tornada possível após a supressão do erro deliberadamente introduzido no sinal, antes reservado para fins militares, em 2001, logrando a partir daí precisões máximas nas aplicações comerciais até 3 metros, foi prontamente acompanhado pela disponibilização de chips com performances melhoradas. Em poucos anos passou-se do Sirf II, com tempos de espera na obtenção de sinal que – na prática o constatámos - por vezes chegavam aos 20 minutos e uma grande permeabilidade ao meio e às “zonas de sombra” induzidas pela deflação pela morfologia do terreno e edificações ao Sirf III – verdadeiramente groundbreaking, ao introduzir uma sensibilidade superior que o adequou a um uso urbano –, depois acompanhado pela Mediatek, ao anúncio mais recente do Sirf IV ("SiRFstar IV Debuts with the Promise of Always On Location Awareness," 2009), concebido de raiz para estender a tecnologia AGPS e permitir a disponibilidade quase instantânea de sinal, reduzindo ao mesmo tempo o consumo energético e aumentando a autonomia, como convém à incorporação nos dispositivos móveis, como smartphones.

[62] Página com demonstração: http://layar.eu

[66] Cuja popularidade se tornou exequível sobretudo a partir da popularização do GMaps e do Google Earth que facultaram a obtenção de coordenadas geográficas de qualquer local, mesmo para quem não possua GPS. Pese embora, antes disso, e no caso português, o portal de acesso gratuito LusiGlob <http://lusiglob.logica.com/> fornecer já idêntico serviço, com superior precisão, em função da ortorectificação.

Apêndice 11: Estudo de caso: Siquant Mobile Trails

Com a inclusão de alguns estudos de caso pretendemos apresentar, na prática, uma selecção de ferramentas a cujos critérios presidiu uma quadrupla preocupação:

  • O facto de permitirem retirar partido do contexto e incluírem funcionalidades de geolocalização (todas elas);
  • A sua disponibilidade gratuita e imediata; sendo portanto ferramentas que qualquer interessado pode descarregar a partir da Internet e começar a usar (caso do MLE e do Wherigo);
  • A colação à realidade portuguesa (caso do Siquant, única aplicação desenvolvida nacionalmente);
  • O carácter pioneiro e a integração paradigmática de múltiplas tecnologias num único dispositivo para produzir uma experiência de “realidade aumentada” (MySKY Plus).

O “Siquant Mobile Trails” é um produto lançado em finais de 2008 pela empresa com o mesmo nome[95], sedeada em Lisboa, na imediação do Instituto Superior Técnico, de que emana e do qual o seu director, Alberto Rodrigues da Silva, é professor.

Trata-se de uma solução em duas camadas: um cliente para Pocket PC que permite aceder aos conteúdos no terreno e um editor baseado em ambiente Web que permite configurá-los e geri-los.

Foi desenvolvida para fornecer ao visitante/turista um conjunto de informação que o pretende sensibilizar para os valores ambientais e ao mesmo tempo educar quanto à fauna e flora enquanto fornece ajuda empírica concreta no terreno para a navegação e planificação do percurso – no caso, nos trilhos do Parque Nacional da Peneda Gerês[96].

Do ponto de vista do potencial para a “aprendizagem móvel” é uma aplicação limitada, centrada em fornecer o “acesso” aos conteúdos, a que faltam possibilidades que muito poderiam enriquecer a experiência do utilizador, levando-o a um maior envolvimento social e emocional. Na nossa perspectiva designadamente, seriam de incorporar as seguintes:

·         Declaração de estado de presença. O entrosamento com a rede GSM (e ou a implementação de uma rede Wi-Max no terreno, na previsão da debilidade da cobertura da primeira) poderia levar os visitantes a declarar a sua presença in loco, surgindo a informação sobre todos os a percorrer correntemente o trilho num mapa; potenciando o diálogo entre eles e mesmo encontros e trocas de opinião.

·         Expressão. Mormente através do diálogo com a incorporação de uso opcional de um cliente de messaging, que, em grandes grupos, poderia ter ainda uma função administrativa e de coordenação.

·         Criação. Poderia ser dada aos visitantes a possibilidade de “capturarem o instante”, seja através de máquinas fotográficas integradas no dispositivo seja de redacção de notas e ou “clipes de voz” que – tal etiquetas – ficariam associados a dados waypoints pelo caminho (poderiam sê-lo em resposta a dados reptos lançados como exercício ou jogo), disponíveis para os visitantes seguintes.

·         Agregação. No separador já existente “Informações Úteis” era fácil incorporar informação actualizada em tempo real, das quais a mais evidente é o “estado do tempo” via RSS a partir do Instituto de Meteorologia e ou de sítios como o Weather Underground ou mesmo de uma estação meteorológica local, sita por hipótese na sede do parque (aplicações com o Weather Display[97] associados a estações informatizadas, com preços tão acessíveis como 200 euros, como é o caso da Oregon WMR100 – permitem publicar com facilidade este tipo de informação).

Em suma, na sistematização de Patten (vide Apêndice 8: Aplicações educativas dos dispositivos móveis) estamos perante uma aplicação que mescla uma orientação dominante para o “Reconhecimento da Localização”, com funções de “Referência” (disponibilização de um “Guia da Natureza” na forma de fichas descritivas) que poderia beneficiar grandemente de uma evolução no sentido de incorporar a “Recolha de Dados” tendo em vista uma construção do conhecimento e uma acção sobre o ambiente que levasse o utilizador além da exposição e da exploração pela mera “observação” a trabalhar os domínios da elaboração, da reflexão e da experimentação activa (veja-se Ilustração 5 - Modelo-guia para o desenho da aprendizagem móvel).

Provavelmente por questão de formação, os desenvolvedores focaram-se nitidamente em garantir a qualidade da usabilidade (intersecção do Dispositivo com o Aprendente, eixo DA – vide - Desenvolvimento do Modelo FRAME interpolado com a teoria da actividade) - descurando quase totalmente a dimensão social e a necessidade da exploração tanto da tecnologia social (DS) como da aprendizagem pela interacção (SA). O resultado é uma solução certamente útil no imediato mas com impactos na memória e no comportamento do utilizador a médio e longo prazo provavelmente reduzidos - nesta medida uma forma de tornar a aprendizagem mais intensa poderia passar pela disponibilização, para consulta subsequente em ambiente WWW, e já em casa, do sugerido no tópico supra “Criação”. Com ou sem login personalizado os utilizadores poderiam ter acesso às actualizações futuras e aos comentários sobre os seus comentários bem como o resultado dos jogos; o que também poderia funcionar como demonstração e estimulo à adopção, com inclusão no portal do parque.

 


[95] Em linha: http:// www.siquant.pt

[96] Para esse efeito, a parte dos conteúdos relativa à navegação está disponível em linha nos seguintes endereços: http://www.adere-pg.pt/trilhos/ (inclui ficheiros em formato GPX para descarga) e http://www.webcomfort.org/percursos. Um vídeo promocional, descrevendo as várias etapas de uso pode ser visto no endereço: http://video.filestube.com/video,879e0b54471e56d703ea.html (7 min. de duração).